O Pastor, o Motoqueiro e o Gênio
Robert De Niro não é mais Robert De Niro. Há muita raça de tempo o ator ligou o piloto automático e entrou no esquema das atuações-pra-pagar-o-aluguel. Tudo bem, sem problemas, ninguém é obrigado a ser genial o tempo todo e o cara já faz parte da história do cinema, já virou referência, não precisa provar mais nada a ninguém. Mas se o ator se encostou pelo INSS o diretor voltou ao batente, e com disposição. Desde 93, quando estreou na direção com o simpático Desafio no Bronx, De Niro não voltava a moviola e muita gente, eu incluso, achava que o cara de borracha ia ser galinha de um ovo só. Por isso O Bom Pastor é uma boa e inesperada surpresa. Com Angelina Jolie e Matt Damon liderando um elenco peso-pesado, o filme conta uma das histórias da formação da CIA, de forma primorosa. Jolie mais beiçuda que nunca é aquele negócio mesmo, caras e bocas de menina sapeca e Damon também vêm atacando no único papel que sabe fazer, o de sujeito na corda bamba, ambíguo, 171 que joga em dois times (O Talentoso Ripley, A Identidade Bourne, Os Infiltrados... é só escolher). Mas os dois, mesmo fazendo o arroz com feijão de sempre, caem bem na trama. Apesar de excessivamente longo o filme tem carpintaria detalhada, um roteiro - do fera Eric Roth, grande escritor - bem urdido, bem entrelaçado, cheio de detalhes, piscou já era.
O Bom Pastor é inegavelmente um filme à antiga. Estiloso, tem aquele ar Nova York, de produção setentista (a fotografia ajuda), só faltou trilha do Frank Sinatra. Parece coisa do Coppola ou do Scorsese, um outro ritmo, um outro diálogo, uma outra cor. Digo mais, é filme pra quem conhece, ou quer conhecer, da sétima arte. É o mesmo que apreciar um quadro de um pintor clássico, não é revista em quadrinhos, não é Harry Potter. No mais, não aconselho a ver o filme no cinema, questão de conforto. Em casa, com o controle a mão - voltar em algumas cenas faz bem - e uma pausa pro café o filme fica bem mais interessante, bundas quadradas definitivamente não são charmosas.
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É impressionante a capacidade dos produtores de Hollywood de transformarem uma premissa bacana num abacaxi. O motoqueiro fantasma dos quadrinhos era um personagem dos bons, pelo menos a primeira versão publicada aqui nos anos 70. As histórias eram recheadas de vodu, macumba, magia negra, mulheres e Harley Davidsons. O motoqueiro, mesmo sempre batendo de frente com o capeta, não era nenhum santo, promovia misérias, a parada era heavy metal. Posso soar politicamente incorreto, mas isso era bacana pra caramba. Eis que agora fazem uma adaptação do herói para as telonas, uma adaptação "para os novos tempos", um filme "para toda a família", ou, traduzindo, uma adaptação pra engordar bilheteria. "Adaptação" também é força de expressão. Além de transformarem a trama barra pesada numa historinha engraçadinha pra adolescentes ignorantes, também descaracterizaram o personagem de uma maneira criminosa. Um exemplo: o Johnny Blaze dos quadrinhos era loiro, galanzão, meio Fábio Assunção. Que afinal era o que criava o contraste quando o infeliz virava um crânio fumegante. Pois chamaram quem para ser o motoqueiro do cinema? Ele, Nicolas Cage, careca e já tão feioso e inexpressivo quanto uma caveira de trem-fantasma. É claro que o diretor dessa lambança não podia ser outro se não Mark Steven Johnson, diretor do Demolidor, outra adaptação-bomba dos quadrinhos (guardem esse nome, esse cidadão ainda vai fazer muita porcaria). Onde está o maldito Sam Raimi quando se precisa dele?
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Reconheço que sou um sujeito meio sem graça. Dificilmente consigo achar um filme engraçado. Me lembro dos meus amigos morrendo de rir do Chaves e eu sem achar a mínima graça naquele mexicano velho e decadente saindo de um barril. Foi difícil achar graça em alguma coisa depois que assisti os filmes dos malucos do Monty Python. Só mesmo Borat pra espanar as teias de aranha das minhas gargalhadas. Sei que todo mundo já viu o filme, mas para aqueles atrasados - como eu - ainda dá chance de correr ao cinema e assistir à fita mais engraçada da década. Putz! Garanto que depois de Borat você vai achar Michel Moore um panaca e Ben Stiller tão engraçado quanto uma estátua de sal. Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América não é simplesmente um filme divertido, ele é escandalosamente escrachado dos primeiros aos últimos créditos, e ainda é crítico a beça, nunca se viu um americano esculhambar tanto o próprio país. Anotai, ainda vão escrever teses sobre esse filme. Citar alguma cena seria um crime de lesa-pátria, mas posso dizer sem susto, apostando meu bilau, que Borat é daqueles casos, raríssimos, que o filme vale mais que o ingresso, e isso não é uma piada.