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Diários Cinéfilos
por Rodrigo Fernandes


Scorsese e o Brasil



Me perturbaram um bocado porque não coloquei Os Infiltrados em minha lista de melhores filmes do ano. Bem, já expliquei a coisa, não coloquei (ou sequer cogitei a hipótese) simplesmente porque ainda não tinha visto o filme. Assisti semana passada. Pois é, e aí? Perguntarão-me os mais afoitos. É um bom filme, sem dúvida. Dirigido por mãos seguras, atuações de altíssimo nível - sobretudo Nicholson, um monstro, e Matt Damon, sempre híbrido, misterioso. DiCaprio não conta, continua não convencendo ninguém com aquela cara e aquela voz de adolescente criado a Danoninho. O roteiro também é acima da média, amarradíssimo, apesar de não ser original. O filme, todo mundo sabe, é um remake de uma produção chinesa. Mas mesmo com todos esses atributos Os Infiltrados não entraria na minha lista de melhores de 2006. Vi filmes melhores. Mereceu o Oscar? De direção, com certeza, de melhor filme... hum... talvez. A questão é: se não fosse um filme da franquia Martin Scorsese provavelmente nem seria indicado (tanto que o original, Mou Gaan Dou, tão bom quanto, poderia ser indicado a melhor produção estrangeira e não foi, ninguém sabe, ninguém viu, passou batido). Como já disse o filme é bacana, surpreendente, bem feito. Mas é muita fumaça pra pouco fogo. Onde está Woody Allen quando precisamos dele?

* * *

E falando no careca dourado, mais uma vez as transmissões do Oscar foram um show a parte. Num canal Rubens Edwald Filho, o Larousse do Oscar, espinafrava sem dó os modelitos e os penteados das convidadas. No outro José Wilker, indigente, detonava todos os filmes enquanto cochilava na poltrona. Uma maravilha, muito mais divertido que aquela festa chata e aquela apresentadora minguada que se acha (só ela mesma) engraçada. Deixo aqui uma sugestão para os figurões da Academia: por que não fazer a cerimônia do Oscar aqui no Brasil? Palhaçada por palhaçada, convenhamos, damos de dez a zero nos gringos.

* * *

Já me disseram, mais de uma vez, que eu tenho má vontade com o cinema nacional. Que como um ogro raivoso fico só esperando o filme entrar em exibição para descer minha clava no quengo do coitado. Isso não é verdade, não de todo. Eu tenho má vontade com o cinema nacional ruim. Assim como tenho com o cinema americano ruim, com o alemão ruim, com o indiano ruim, o búlgaro... O que me incomoda profundamente é essa solidariedade burra, esse protecionismo irracional com que alguns protegem o cinema brasileiro. Aquela velha ótica ufanista de que: "devemos apoiar o cinema nacional" ou "se é nacional, é bom". Na boa, fechar os olhos pro que é ruim nunca resolve nada. Pelo contrário, só perpetua a ruinzice.

Fico pensando nos bons e velhos clássicos que o cinema nacional já produziu e me pergunto se estamos evoluindo. Acho que não. É claro que há sempre mais filmes ruins sendo lançados (histórias mal contadas, mal produzidas, mal interpretadas) que bons. Mas os bons - e aí vai O Pagador de Promessas, alguns do Glauber, do Cacá Diegues, Hector Babenco, do clã dos Barretos, da família Faria - sempre compensavam. Os bons filmes de hoje compensam as ruindades que andam soltando por aí? E-mails pra coluna.

Falei aqui numa crônica passada sobre o esquema picareta da Globo Filmes (você compraria um carro usado dessa produtora?). Pegar séries bem sucedidas da Tv e transformar em filmes meia-boca que faturam dilúvios de dinheiro. Foi assim com Os Trapalhões, com Os Normais, com o muito sem graça Casseta & Planeta e agora com A Grande Família, que... advinhem... chegou a ultrapassar a marca histórica de mais de um milhão e meio de espectadores em 10 dias de exibição. Mas Seu Cronista, isso é bom ou ruim? Me perguntarão. E eu, seguro como sempre, responderei com uma certeza de monge budista: não sei, os dois. É bom porque mostra que há mercado, há público para as produções nacionais. É ruim por que o filme é uma porcaria e a Globo Filme não vai mudar em time que está ganhando de goleada, vai continuar produzindo essas tranqueiras em série.

* * *

E vem mais coisa boa por aí. Acaba de ser confirmada a pré- produção de Carga Pesada. Pedro & Bino, os heróis caminhoneiros do Brasil em breve num cinema perto - ou longe - de você.

* * *

No mais, alguém poderia por obséquio me explicar o que é a tal da Retomada Do Cinema Brasileiro? Escuto esse termo há mais de uma década e nunca o entendi direito. Os filmes da Xuxa fazem parte da retomada? E os do Didi? Seria Casseta & Planeta uma das conquistas da tão alardeada retomada? Outra coisa, quando a retomada vai deixar de ser retomada e virar coisa séria? Vai virar Realidade? Mais e-mails para a coluna.

 
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