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por Rodrigo Fernandes


Casos de Amor & Casos de Paixão



A vitalidade criadora de mr. Clint Eastwood é uma coisa de se impressionar. Aos 76 anos redondos e bem vividos o homem está impossível! Fazendo inveja a muito diretorzinho garotão por aí, o vovô símbolo do cinemão Hollywoodiano fez não um, mas dois épicos sobre a batalha de Iwo Jima na II Guerra Mundial. Vi primeiro A Conquista da Honra, filme espetáculo, tecnicamente exato (a fotografia, cinza, esverdeada, fuligenta, é qualquer coisa de surreal). As cenas de batalha são incríveis e devem ter dado um trabalho mouro. Mas o longa tem pecados capitais. Apesar de mostrar sabiamente e sem pudores que numa guerra a palavra "herói" é mais falsa que uma nota de três reais o roteiro é morno, quadrado, não emociona, não choca, não faz o espírito pular. As vísceras do filme são só aquelas dos americanos que vão tombando feito uma fileira de dominós sob o chumbo grosso dos japas. Apesar do primor estético A Conquista da Honra têm o gosto de um O Resgate do Soldado Ryan requentado. Os elementos são os mesmos; a publicidade por trás da guerra, os heróis forjados, um desembarque sangrento... A Conquista da Honra é sim um bom filme, espetaculoso. Grande, mas não grandioso.

Cartas de Iwo Jima não tem morde-e-assopra. Não é só um filme com bons momentos. É filmão o tempo todo. Começando pela premissa de mostrar a chapa quente que foi Iwo Jima pelos olhos dos japoneses, personificado pelo general Kuribayachi (o sempre competente Ken Watanabe). Falado em japonês, a produção não é só um deleite para os olhos, também faz pensar; em valores, em coragem, em dever, em honra. E o mais importante, sem nunca parecer piegas ou enfadonho. Então Cartas é mesmo melhor que A Conquista ? É, é sim. Até um vendedor de picolés de Paquetá percebe que Eastwood buscou uma maior densidade dramática em Cartas . Se no filme "americano" Clint pretendeu mostrar o espetáculo e a mentira por trás da guerra, no filme "japonês" o diretor fala da verdade, da honra, mesmo sendo a verdade e a honra dos vencidos.

Talvez a grande sacada e o mérito - inédito! - dos filmes do nosso destemido senhor da guerra é que um complementa o outro, perfeitamente. Duas histórias diferentes, duas visões, duas faces, a mesma moeda. É bacana ver os dois filmes, percebe-se que um foi feito para validar e engrandecer o outro. Você pode até assistir apenas um deles, mas assistir os dois é uma experiência cinematográfica e tanto. Diverte, emociona. E quem diria que o homem por trás disso tudo era até os anos 60 um daqueles interpretes-de-um-só-papel (de caubói) e depois a personificação do canastríssimo tira Dirty Harry, modelo máximo do conservadorismo americano Mas as coisas mudaram. Agora o caso de Clint com cinema é um caso de amor. Maduro, reflexivo, sem arroubos apaixonados, mas com carinhos, afagos, confiança mútua. E a sétima arte corresponde. Não à toa que desde 2004 o ator-diretor está no páreo final do Oscar.

* * *

Verdade seja dita, o Brasil não saber fazer animação. Assim como os noruegueses não sabem sambar e os iranianos são todos uns pernas-de-pau, nós ainda não sabemos fazer desenhos animados decentes. Nos falta tradição, tecnologia, técnica, falta investimentos. Antes que alguém chie é bom que se esclareça que apesar do diretor de A Era do Gelo 2 ser brasileiro de boa estirpe o filme é mais americano que a estátua da liberdade. Há boas idéias como Turma da Mônica - Uma Aventura no Tempo, enésima tentativa dos estúdios Maurício de Souza de emplacar um sucesso de bilheteria. Mesclando animação tradicional com computação gráfica, o desenho, feito em parceria com a Globo Filmes e a Miravista (leia-se Estúdios Disney) é um passo a frente, mas ainda assim está muito, mas muito longe dos padrões japoneses, chineses, americanos...

Há também boas intenções como Brichos, animação do diretor Paulo Munhoz que narra as peripécias de três filhotes - um jaguar, um quati e um tamanduá - que têm de vencer um campeonato de videogames (!). Brichos é um típico filme de apaixonado, levou seis anos para ser concluído e apesar da boa lição de patriotismo a animação é mal feita e às vezes derrapa feio num ufanismo obsessivo, deslavado. Só mesmo um apaixonado para tentar levar um roteiro desses para a tela do cinema e ainda em forma de animação (todo apaixonado é meio cego, surdo e louco). Falta ainda ao diretor o bom senso dos grandes amantes. Aqueles que como um bom vinho só melhoram com o tempo.

* * *

Já que estamos falando em amor, essa coisa insensata e maravilhosa, peço licença aos meus bravos leitores e mando um feliz aniversário para o meu, a bela e elétrica Mariana, literalmente a salvação do meu universo, meu quinto elemento (É sim, hum, hum). E vocês pensavam que a mulher perfeita era Milla Jovovich? Tolinhos...

 
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