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por Rodrigo Fernandes

Rocky, Meu Herói


Rocky Balboa foi meu herói, meu e de muitos que viveram a infância e a adolescência nos anos 80. Não era difícil se identificar com o lutador. Feio, duro, fracassado, vivia num lugar barra pesada, treinava numa academia caindo aos pedaços e não tinha lá muitas expectativas na vida. Igualzinho a mim, a você, um monte de gente. Mas Rocky teve uma chance, todos nós queríamos ter uma chance também. Todo mundo torcia por ele. Todo mundo queria vencer na porrada que nem o Rocky. Se ele conseguiu, por quer não nós? Até hoje quando ouço Gonna Fly Now - o célebre tema composto por Bill Conti - me passa uma sensação boa de que chegar a algum lugar é possível. De que, quando menos se espera, pode vir a grande chance de mudar o jogo. Não é à toa que os primeiros filmes fizeram tanto sucesso. As periferias do mundo são feitas por Balboas, por Popós e Maguilas da vida. Todos esperando vencer seus adversários peso-pesados; a pobreza, o desemprego, a violência, o preconceito, a desesperança.

É claro que não me agradou saber que Stallone havia decidido fazer um sexto Rocky. Até um malabarista de sinal sabe que os últimos filmes não honraram a série (sobretudo Rocky IV, horroroso, horroroso). Por isso fui munido de todos os receios e preconceitos do mundo ver o filme que, Sly jura de pé junto, será o último da franquia. Só posso dizer que a coisa toda é emocionante.

É claro que pode ser apenas uma peça pregada pela minha memória afetiva. A história não tem nenhum arroubo criativo. Balboa mais uma vez não têm nada a perder, a esposa morreu e o ex-lutador é agora dono de um restaurante italiano. Porém uma vez mais Rocky tem a oportunidade de subir em um ringue contra o campeão e provar que não é apenas uma sombra, que existe, que está de pé (o mesmo valendo para Stallone, que ultimamente tem seus filmes lançados diretamente em DVD). Mais que um filme sobre boxe Rocky Balboa é um filme sobre redenção. A cena que Rocky corre subindo as escadarias do Museu de Arte da Filadélfia é de fazer parar o coração. Não sei se essa rapaziada de hoje, da era do videogame e dos efeitos especiais, vai curtir a fita. Mas se Rocky Balboa um dia foi seu herói só posso te dar um conselho: Vá! E não esqueça o lenço de papel.

* * *

E para quem andava com saudade do primeiro e inesquecível filme da série, uma boa surpresa. Rocky, Um Lutador - Oscar de melhor filme e roteiro - acaba de sair em DVD numa edição dupla de luxo, um cruzado no queixo. Além da imagem e do som remasterizado o DVD vem recheado de extras bacanas. Entre ele uma entrevista absolutamente nonsense com Stallone. DVDteca básica.

* * *

O Perfume foi para os anos 80 o que A Profecia Celestina foi para os 90 e o que O Código da Vinci foi para os anos 00. Um superbestseller. Lançado em 1985 era daqueles livros que todo mundo lia, e quem não lia mentia que tinha lido para não se sentir por fora. Eu também li, de verdade. Não chega a ser um Dostoievski, mas é um bom livro, uma estória de suspense que te puxa, te suga pra dentro da trama até a última linha. Por isso fiquei meio encafifado quando soube que iam filmar o livro. Seu autor, o alemão Patrick Süskind, sempre se negou a vender os direitos, pois achava que iam estragar sua obra-prima (o escritor nunca mais lançou um livro de sucesso). Bem, apesar dos temores do autor e dos fãs do livro, Perfume - A História de um Assassino é um bom filme. Diferente do livro? Sim, mas nem tanto. O clima de mistério está lá, bem tecido, interessante, a reconstituição de época primorosa. Enfim, um bom filme que merece uma conferida. Süskind, como faz todo bom escritor, fez manha. Achou o protagonista Ben Whishaw bonito demais pro personagem, que no livro é um sujeito pavoroso. Mas convenhamos, para quem recebeu 10 milhões de euros pelos direitos do livro - um exagero mesmo para os padrões europeus - Herr Patrick reclama de barriga, ou melhor, de bolso cheio, né não?

* * *

Costumo dar uma segunda chance a alguns filmes antes de bater o martelo e mandar os condenados pra Bangu 1 sem direito a fiança. Revi A Dama da Água. Independente de qualquer julgamento é sempre interessante ver um filme de M. Nighit Shyamalan em DVD, já que o diretor sempre faz questão de encher seus filmes de extras. Extras mostrando a proposta original do filme, o processo de criação, os storyboards... enfim... todos os caminhos da produção, do roteiro à edição final. Aulão de cinema. Quanto ao filme continuo achando A Dama da Água sua aposta mais fraca, menos impactante, mais fosca. Não é um filme ruim, mas que pretende passar muita informação, muitos conceitos em pouco tempo (fosse uma mini-série talvez vingasse), o que paradoxalmente torna o filme confuso, arrastado. A premissa do roteiro é bacana, mas a história se perde num trelelê maluco de dezenas de personagens e situações mal-amarradas. A pretensão venceu o bom senso.

Sempre achei Shyamalan um diretor mal compreendido. Corpo Fechado era sobre como lidar com as responsabilidades e foi comprado (ou vendido, tanto faz) como um filme de super-heróis. Sinais é uma reflexão sobre a fé e reclamaram que faltaram Ets. A Vila, uma metáfora sobre o isolacionismo dos EUA, foi engolido pelo público como um filme de terror. Infelizmente Shyamalan superestima seu público tentando vender uma mensagem bacana por meio de um veículo pop. A intenção é boa - ser profundo sem ser chato - mas nem sempre dá certo. Quem conseguiu enxergar que A Dama da Água é, além de um conto de fadas, uma fábula contra os preconceitos, a favor da união por um bem comum, contra nossa aversão frente ao que nos é diferente? Quando o filme - mesmo sem se descobrir a mensagem escondida - é interessante, é fluido, o diretor ainda safa a mula. Coisa que não aconteceu com A Dama da Água. Podem chamar o camburão.

 
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