Oscar: Inútil & Fundamental
Ninguém liga para o Oscar. Todo mundo liga para o Oscar. Me lembro de Fernanda Montenegro esnobando a academia dizendo que aquela era uma festa dos americanos para americanos, mas quando concorreu ao prêmio de melhor atriz por Central do Brasil estava ela lá, na primeira fila, cruzando os dedos e rezando pra Santo Expedito. A festa-mor do cinema é assim. Todo mundo sabe que o negócio é armado, é picareta, é cafona. Mas todo mundo assiste, todo mundo torce por seus pangarés favoritos. Se o Brasil estiver na disputa então... aí o clima de copa do mundo. Não à toa vi um sujeito indo pateticamente às lágrimas quando O que é isso Companheiro? não ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro.
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Não sei esse ano qual emissora vai transmitir o Oscar na tv aberta. Mas seja a Rede Globo ou o SBT a transmissão do Oscar made in Brasil é sempre um barato. Diverte-se, é folclórica. Os tradutores são sempre sofríveis e nunca conseguem dar conta do recado, uma comédia de erros. Têm apresentador que não entende nada de cinema, e outros que acham que entendem demais, o padrão é esse. O comentarista Arnaldo Jabor, por exemplo, diz que chegou a ser agredido nas ruas e até hoje recebe e-mails malcriados por ter ridicularizado o cinema americano na transmissão da Globo de 98. Noutra uma das repórteres do SBT havia conseguido pescar Richard Dreyfuss no famoso tapete vermelho onde se exibem as celebridades. Vendo que o ator americano estava com um moleque a tiracolo, a moça (repórter preparada é outra coisa, faz do improviso uma arte) perguntou:
_É seu filho?
O ator, frente à pergunta cretina, mandou, direto e reto.
_ Não, acabei de encontrar essa criança numa lata de lixo ali atrás.
Enfim, coisas da TV Brasileira.
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Gostando-se ou não dele o Oscar é necessário. Além da festa azeitar as engrenagens da indústria, vale o reconhecimento dos artistas, da arte. Da beleza frente a esse mundinho complicado. É a vitória da invenção sobre a barbárie. É o mundo todo se conectando para assistir uma celebração de criação e não de destruição, de guerra. Tá certo que há o lobby dos grandes estúdios, tá certo que nem sempre o melhor e mais competente vence, mas às também há justiça. Esse ano, por exemplo, a Academia finalmente resolveu conceber um Oscar a Ennio Morricone pelo conjunto de sua obra. Para quem não está juntando o nome ao figura Morricone é o gênio por trás da trilha sonora dos westerns de Sérgio Leone - Era Uma Vez no Oeste, Três Homens em Conflito, Por Um Punhado de Dólares - e de outras grandes produções como Os Intocáveis, A Missão, Kill Bill e Cinema Paradiso. Resumindo, junto com John Williams e Vangelis, Morricone é hoje um dos três grandes compositores vivos da história do cinema. Com mais de quinhentas trilhas sonoras nas costas, Ennio Morricone (que nunca escondeu sua vontade de ganhar o prêmio) finalmente vai levar pra casa seu boneco dourado. Já não era sem tempo. Prêmios póstumos são sempre deselegantes.
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Meus favoritos? Não acho que tenha favoritos, até porque sempre que eu tenho um favorito é justamente ele quem não ganha nada. Mas gostei de algumas indicações. Dreamgirls - que só consegui ver de modo... digamos... ilegal - mereceu todas as oito indicações que recebeu, e merecia mais, inexplicavelmente não foi indicado a filme e direção. Na categoria de melhor ator duas atuações soberbas. Forest Whitaker fez um trabalho mediúnico, impressionante, em O Último Rei da Escócia e Will Smith consegue tirar lágrimas das pedras em À Procura da Felicidade. Aliás esse é outro filme bacana que a boa e velha academia esnobou, mas, paciência. Na facção feminina não tem pra ninguém, Helen Mirren em A Rainha é, perdoem-me o trocadilho óbvio, soberana. A lista de indicados para melhor filme foi previsível, burocrática e indicar o exagerado Djimon Hounsou (Diamante de sangue) e a insossa Rinko Kikuchi (Babel) para coadjuvantes foi meio apelativo, inexplicável, havia atores melhores na fila. Teve gente, mulheres, digo, reclamando da falta de Brad Pitt na lista de melhor ator. E outros, homens, eu incluso, reclamando da indicação de Leonardo DiCaprio. Enfim, coisas dessa infame maravilha chamada Oscar.
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No mais, quem conhece minimamente a história do carnaval já ouviu falar em Clóvis Bornay. Pois bem, Bornay era um carnavalesco que todo ano participava de um monte daqueles concursos de fantasia (ainda existe concurso de fantasia?), pois Bornay vencia todos. Era chato, pois antes do primeiro concorrente apresentar sua fantasia todo mundo já sabia que o caneco ia para o imbatível Bornay. Resolveram então dar um prêmio permanente pro carnavalesco, transformaram o cara em hors concours, fora do concurso, Bornay passou a desfilar só por desfilar, virou café-com-leite. Tinham que fazer a mesma coisa com Clint Eastwood. De uns anos pra cá toda edição do Oscar o velhinho aparece com um filmão pra jogar areia nos outros diretores. Esse ano quase que Clint vem não com um, mas dois filmes! Mr. Eastwood, com todo respeito, o senhor não acha que está na hora de ir pro retiro dos artistas não?