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por Rodrigo Fernandes

Um Cronista no Museu


Cheguei à tristíssima conclusão que esse negócio de crítico de cinema não é para mim. Portanto se de uma hora para outra euzinho sumir daqui das gloriosas páginas virtuais do AdoroCinema não se preocupem, estarei feliz, em alguma esquina da vida praticando minha verdadeira vocação literária de apontador de jogo do bicho. O cronista está nostálgico? Rabugento? Injuriado? Pode apostar que sim.

* * *

Ben Stiller é um astro esquisito. Sem graça e de um talento duvidoso, seria um galã perfeito se não fosse esquisitão, tão fora de esquadro daquele jeito. Pois esse cidadão aí em cima tem atraído milhões de espectadores para seus filmes. Stiller, aliás, é a cara do cinema americano atual. Esquisito, feio, sem graça. Uma Noite no Museu está fazendo um sucesso burlesco, místico, batendo recordes de bilheteria no mundo inteiro, inclusive aqui na oca. É mesmo o prenúncio do final dos tempos, tudo acabou. Berrai profetas, soem as trombetas. As tigelas da ira de Deus foram derramadas. O apocalipse cinéfilo chegou!

O cronista exagera, é claro. O filme não é nenhum dilúvio de ruindade, não mesmo. É bem feito, os efeitos são de classe e há até participações bacanas como a dos coroas Mickey Rooney e do eterno saltimbanco Dick van Dyke, legendas vivas. A produção é um sub-Jumanji que rende uma sessão da tarde de luxo, pode até divertir. Porém nada justifica essa barulheira, esse frenesi, essa hecatombe cósmica. Outdoors do tamanho de edifícios (literalmente!) e filas maiores que as de centro de macumba em dia de Cosme & Damião.

Mas a grande culpa dessa insanidade é nossa, do público. Público que solta fogos com a transformação de Leonardo DiCáprio em um ator de verdade. Público que enxerga Babel como uma obra-prima quando o filme não traz nenhuma novidade, nenhum avanço, nem estético, nem narrativo, nem de nada. Aliás, o mesmo Babel onde a atuação de Brad Pitt está nossa... um... um... primor! (apenas correta, morna. Mas pro ator-fim-de-festa que ele é...). Andamos nos contentando com pouco, com vibradores e mulheres infláveis de celulóide. É nossa mediocridade, nossas pernas abertas, nosso senso crítico permanentemente desligado que fazem de Uma Noite no Museu um campeão de bilheteria e transforma Ben Stiller em astro. A culpa, repito, é nossa. Sua, minha.

* * *

Ouvindo um velho LP do Supertramp na vitrola, o cronista divaga. Tubarão, Os Caçadores da Arca Perdida, Platoon, Conduzindo Miss Daisy, Forrest Gump, As Bruxas de Eastwick (delicioso!), Guerra nas Estrelas, Tootsie, A Dama de Vermelho, O Poderoso Chefão... enfim... olhando para os campeões de bilheteria do passado dá até vontade de chorar, de saudade.

* * *

Um dos poucos programas que me interessava na tv aberta era A Grande Família, se não pela originalidade (o treco todo é um remake) pelo menos pelas interpretações dos atores. Até a terceira temporada acompanhei, gostei da brincadeira, depois as situações, as piadas, as gags viraram foram se repetindo ad nauseum, o elenco, cansado e deitado nos louros da boa audiência, ligou no piloto automático e foi dar um cochilo. O bagulho ficou doido, como dizem aqui no Rio.

No cinema a A Grande Família - O Filme foi atacado pelo mesmo caruncho que broca todas as adaptações televisivas (Os Normais, Casseta & Planeta...). É a política mutreteira da Globo Filmes. Simplesmente pegaram um episódio do seriado, deram uma esticada no roteiro e o filmaram em película. Fácil, barato, indigente. Nunca há a preocupação, mínima que seja, de uma adaptação de linguagem, de estética, de enquadramentos, de nada. Pode até ser legal ver Lineu, Agostinho - Pedro Cardoso sempre nos cascos, divertidíssimo - e cia. na tela grande. Mas dá pra esperar sair o DVD tranqüilo e calmo. Não se perde nada.

* * *

Jorge Amado, o Pelé da literatura brasileira, vivia escrevendo orelhas, lombadas e apresentações elogiosas de livros alheios. Escreveu literalmente centenas de contracapas que sempre davam uma valorizada no livro. Em uma entrevista perguntaram ao grande escritor como ele arrumava tempo para ler tantos livros. Jorge, com sua sapiência baiana, mandou na lata: Eu não leio nada, sou adepto do "não li mas já gostei". Pois é, ainda não conferi a atuação de Forest Whitaker em O Último Rei da Escócia, mas só pelo trailer posso invocar Jorjão e dizer que já gostei. No mais, na próxima coluna o mais inútil, picareta e esperado prêmio do cinema mundial. Que venham os carecas dourados.

 
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