As Mulheres e o Riso
Angelina Jolie está em todas. Onipresente, a moça tem levado a mídia na coleira feito um cachorrinho basset. Das revistas de fofoca que até hoje fazem futrica com seu casamento com Brad Pitt ao Fantástico, que outro dia teve como destaque uma entrevista com a atriz-e-madre-teresa-de-calcutá. A bem da verdade a filha mais beiçuda de Jon Voight sempre soube se colocar em evidência. Primeiro tratou de escolher papéis polêmicos como em Gia - Fama e Destruição e Garota, Interrompida. Depois Jolie esplanou pra Deus e o mundo as esquisitices e bizarrices que dividia com o então marido Billy Bob Thornton (tatuagens à granel com juras de amor, cordões onde um levava um frasquinho com o sangue do outro, enfim, coisas de artista) e depois em uma entrevista-bomba se declarou bissexual. Não antes de afanar o marido de Jennifer Aniston.
Agora Angelina encarna a boa moça. Morando entre o Camboja e a África, adotando criancinhas e doando dinheiro (três milhões de dólares exatamente, meu puxadinho) pra Unesco, Unicef, sei lá. Esse negócio de astros fazendo boas ações soa sempre suspeito, a apelação, a autopromoção. Mas no caso de Jolie parece que a coisa é séria, sincera de verdade, até porque ela não é uma boa atriz para fingir tão bem. No mais, é sempre saudável ver alguém fazendo alguma coisa pra melhorar essa bomba-relógio chamada de futuro, ao invés de ficar deprimida - esse povo adora ficar deprimido - largada em alguma mansão em Malibu, enchendo as fuças de caviar Beluga, usando coisas e promovendo orgias sensacionais. Tudo bem, que se faça tudo isso, mas olhar pros lados também não faz mal a ninguém, pelo contrário. Nunca gostei de Angelina Jolie como atriz, fraca, fraca, deplorável. Mas ultimamente a moça anda merecendo o Oscar.
* * *
Parece que, graças aos céus, esse vai ser o ano das mulheres no cinema. O ano só começou, mas se depender de Kate Winslet em Pecados Íntimos, da atuação mediúnica de Helen Mirrem, que baixa a cabocla Elizabeth II em A Rainha, da sempre competente Cate Blanchett em O Segredo de Berlim e da performance da novata - dizem que a mulher é um fenômeno - Jennifer Hudson no musical Dreamgirls já estamos bem servidos. Podemos mandar os marmanjos plantar batatas. Todos.
* * *
Aliás, a espera por Dreamgirls anda ressuscitando a minha úlcera. Além de contar com o Roteirista de Chicago Bill Condon na direção, trazer a gostosérrima Beyoncé Knowles, o sempre bom Jamie Foxx e a já citada Jennifer Hudson no elenco, literalmente afinado, o filme vem prometendo ser A volta de Eddie Murphy ao Olimpo do cinema. Tanto o filme quanto o ator acabaram de ganhar o Globo de Ouro.
Não há como negar que dos humoristas surgidos nos anos 80 Eddie foi o mais talentoso, o mais inovador e o mais imitado de todos (sem ele provavelmente não teríamos hoje Chris Rock, Chris Tucker e Martin Lawrence, todos alunos de sua escola). Até um vendedor de bananadas tem consciência que 48 Horas, Um Tira da Pesada, Trocando as Bolas, Um Príncipe em Nova York e O Professor Aloprado formam um cartel respeitável para qualquer ator. Murphy fez bonito. "O que ele faz naquele filme, ninguém consegue" elogiou um impressionado Jack Nicholson na época de O Professor Aloprado. Afinal, qual ator havia antes interpretado uma família inteira? Ou todos os fregueses de uma barbearia, como Eddie fez em Um Príncipe em Nova York? É claro que ator não segurou a peteca. Sucesso, grana, limusines, mulheres, drogas... ninguém segura. Emburacou numa seqüência de filmes catastróficos que não valem nem a pena serem citados e nunca mais fez algo relevante. Mas torço pelo cara, torço por quem é bom no que faz, quem dá a volta por cima.
Em Dreamgirls Murphy interpreta James "Thunder" Early, um cantor de soul estiloso, temperamental, uma figura meio James Brown, ou seja, um prato cheio pro ator. E o melhor de tudo, se trata de um papel dramático, sério, seríssimo. Vocês já imaginaram Eddie Murphy em um papel sério? Pois bem, imaginem. Dizem que a estatueta já está na mão do gênio do Brooklyn.
* * *
Mentira, mentira, mentira. Minto descaradamente. Há sim um comediante infinitamente mais versátil que o já versátil Eddie. Jerry Lewis? Os irmãos Marx? Se a história fosse justa Chico Anysio seria considerado o maior comediante do mundo, talvez de todos os tempos. O homem dos 209 personagens, o ator que não interpretou só uma família, viveu uma cidade inteira, do prefeito à mãe-de-santo. Quem já passou dos quarenta e assistiu ao programa Chico City sabe que não estou exagerando, Chico Anysio é mesmo o que há. E se sua carreira não priorizou o cinema - fez pouco mais de meia dúzia de filmes, a maioria nos anos 50 - Chico atacou no rádio, na televisão e na literatura com uma maestria, uma força, uma criatividade inigualável. Já ouvi muita gente dizer (eu mesmo já aventei a possibilidade): Ah, se o Chico nascesse nos Estados Unidos! E quer saber? Ainda bem que isso não aconteceu, ainda bem que Chico é da humilde, mas nobre Maranguape, Ceará, Brasil. É produto interno bruto de talento. Há alguns anos atrás o humorista ainda tentou, se mandou pra Hollywood com uns roteiros debaixo do braço. Chico Anysio em Hollywood? É claro que isso não podia dar certo! Desde quando alguém talentoso dá certo naquele lugar?