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por Rodrigo Fernandes

Começamos Bem?


Como comecei o ano? Putz... sei lá... decidam aí vocês. Aproveitando um imperdível pré-lançamento aluguei O Sacrifício, produção com Nicolas Cage que há uma semana estava em cartaz e já pulou para as prateleiras das locadoras. Que filme, amigos, que filme. Literalmente inacreditável. Bateu logo um arrependimento. Devia ter ido ver no cinema. Telão, som stéreo dolby surround, essas coisas. Meu Deus.

A história, deliciosamente inverossímil e mal costurada e mal contada é um tributo à criatividade humana. Um policial (Cage, cada vez pior e com um figurino três vezes seu tamanho) vai a uma espécie de ilha de Paquetá comandadas por mulheres - lindas, loiras, mais machas que eu - procurar uma menininha desaparecida. As mulheres não querem colaborar, Cage é um idiota e começa a se meter em problemas. O filme é basicamente isso. Sustos que não assustam ninguém, cenas de ação mixurucas, Nicolas Cage com cara de bocó e cabelo tingido de henê correndo o tempo todo atrás da moleca sumida. E como corre o infeliz, corre, corre, corre. Até que à beira de um infarto decide assaltar uma moça.

"Fique longe dessa bicicleta!!!"

Grita o policial apontando uma pistola para a pobre no melhor estilo Dirty Harry. Um dos pontos altos do filme.

Não posso deixar de falar dos diálogos, é o que há de melhor na película. São tantos e tão bacanas que me sinto injusto, um canalha, em citar só um, perdoem-me. Esse é de Cage se apresentando a uma das moradoras da ilha.

_ Eu sou um tira.

_ O que isso significa?

_Sou um policial, faço o que posso para ajudar as pessoas.

Queria falar do roteiro, o mais estúpido, preconceituoso e cheio de furos dos últimos mil anos. Mas é melhor parar por aqui pra não estragar as surpresas. O Sacrifício, vejam. Depois não vão dizer que o crítico é egoísta, que fica guardando os filmes mais divertidos só pra si. Vocês não sabem o que estão perdendo. Vejam!

* * *

Edward Zwick nunca foi um cineasta modesto, e nunca fez questão de esconder isso. Sutilezas passam longe do diretor. O negócio do cara é fazer filmes grandiloqüentes, bombásticos, épicos, sem miséria. Tempo de Glória, Lendas da Paixão e O Último Samurai seguem a receita.Diamante de Sangue não foge à regra, também é espetaculoso.

Confesso aos senhores que fui assistir ao filme um tiquinho ressabiado, não pelo diretor, que me agrada, mas por ser mais uma produção das franquias Leonardo DiCaprio. Depois de fazer tantos filmes tenebrosos atuando daquele jeito, toma-se um certo receio ao se ver a cara do rapaz em um pôster. Mas apesar do marketing em cima do ator, o filme é mesmo de Zwick. Bom filme, um tema relevante (a exploração de diamantes na África) tratado como filme de ação. Útil e agradável é isso aí. A carpintaria visual do diretor segue com o apuro de sempre, tomadas acachapantes, centenas de extras, cenas de encher os olhos, enfim, uma orquestração de força, empolga.

Tirando a atuação exagerada de Djimon Hounsou e o desperdício de Jennifer Connelly (ainda mais linda no meio do miserê, baita contraste), o filme deslancha. O único porém é a velha e boa mensagem edificante do final, típico americanismo ingênuo, enjoa. DiCaprio se não convence como mercenário cansado de guerra também não compromete a produção. O que já é grande coisa.

Por tudo isso não recomendo Diamante de Sangue, absolutamente, em hipótese nenhuma. Até um vendedor de limões sabe que ver um filme bom logo no começo do ano é um ato impensado, a maior roubada. Vai que o ano é fraco, é murcho, que as produções que vão vir por aí são umas porcarias? (você confia em Homem-Aranha 3? Transformers? No novo Harry Potter?). Você vai estar vendo o único filme bom do ano em... Janeiro! Desperdício imperdoável, coisa de principiante. Pense bem. Aconselho a ir ver o filme do Didi, ainda em cartaz em todos os melhores cinemas da cidade.

* * *

Gosto de receber e-mails. Os que falam bem, os que falam mal, os que elogiam, os que esculhambam. E-mails são bons parâmetros, são bem-vindos, respondo a todos, com prazer. O povo anda me perguntando por que não citei Os Infiltrados na minha listinha dos melhores de 2006. Bem, não sei se o filme é esse Everest todo (pra mim Scorsese perdeu a mão há muito tempo), mas a verdade é que ainda não vi o filme. Mesmo aqui no Rio de Janeiro de São Sebastião, cidade pacata e auto-decretada capital cultural do país, ir ao cinema virou um autêntico safári africano. Cinema é caro, cinema é longe, cinema é desconfortável, o caminho é perigoso. Então quando a luz se apaga e você, tranqüilo e ingênuo, pensa que está livre de todas as penitências, é que o verdadeiro martírio começa. A maioria das pessoas que freqüentam as salas não têm a mais básica noção de educação, pelo amor de Deus, parece que estão na praia. O povo vai para conversar, rir, comer, falar alto no celular (ninguém respeita os avisos, ninguém), se estiverem em bando então... multiplique isso tudo pelo número de cabeças da manada. Ir ao cinema virou programa de índio, com selva, bichos, tudo.

* * *

Me pergunto onde foram parar os grandes cinemas do Rio. Aqui todo bairro tinha um, às vezes mais de um, Madureira, bairro eminentemente sambista, tinha cinco. E o melhor, eram cinemas de verdade. Amplos, espaçosos, tetos altos como catedrais, poltronas tão bacanas que dava vontade de levar para casa. E agora? O que ficou? Cinema de shopping center. Caixinhas de fósforos, os bancos tão apertados que se você se senta ao lado de um casal de namorados é capaz de sobrar uma mão boba pra cima de você, como já aconteceu comigo, e a mão nem era da menina. É complicado ir ao cinema hoje. Poucos, concentrados em uns poucos bairros, os filmes distribuídos sem a menor lógica... enfim... o cinéfilo de hoje é, antes de tudo, um forte.

 
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