Cinema Nacional: Estética do Cárcere
Qual é o maior inimigo do cinema nacional?
a) A onipresença do cinemão americano.
b) A falta de independência, já que todas as produções nacionais são dependentes das magras verbas do governo.
c) O histórico preconceito do público: "Ih, rapaz (expressão de desânimo)... É nacional é ?"
Quem marcou alguma, ou todas, das opções acima passou perto, mas errou. O maior inimigo do cinema nacional é ele mesmo. Mesmo com diretores e atores sendo reconhecidos internacionalmente (Fernando Meirelles, Walter Salles, Carlos "era do gelo" Saldanha, Rodrigo Santoro...), mesmo com uma invejável produção de bons filmes - ficção, documentários e animação - o cinema brasileiro se autoflagela. Se chicoteia, se amarra a preconceitos mofados, à uma "pureza" ingênua, e não decola.
É triste, muito triste assistir a um debate como o promovido pelo Recine - Festival de Cinema de Arquivo em meados de Dezembro aqui nesta ordeira cidade do Rio de Janeiro. No balaio de chorões teve de tudo. Gente reclamando da narrativa convencional do cinema feito no Brasil. Diretor execrando a suposta produção de filmes comerciais voltados para o mercado (!). Diretores acusando a "máfia dos editais". E outros, mais delirantes, conjurando o cansado fantasma de Glauber Rocha. O santo guerreiro, o Dom Sebastião que um dia vai voltar para liderar os cineastas independentes pelo vale da sombra da morte até a vitória contra os blockbusters da maldade. Sinceramente não dá pra entender essa gente (todos, aliás, com filmes lançados, alguns premiadíssimos). Ao invés de se tentar uma união, uma harmonia, os realizadores do audiovisual se fecham em várias panelinhas regionais e ficam de picuinha uns com os outros. Como pistoleiros cegos atiram nos próprios pés e trocam tabefes pelo pires furado do subsidio federal. Não há conjunção de forças, não há reconhecimento do sucesso alheio .E isso não é coisa nova, quando Anselmo Duarte ganhou a Palma de Ouro em Cannes ninguém do tal Cinema Novo lhe reconheceu o feito. Muito pelo contrário, o ator e diretor sofre um embargo cultural (seu último filme é de 79) que dura até hoje. Falta aos nossos homens do cinema a noção básica que quando um filme faz sucesso é todo o cinema, é toda a cultura brasileira que ganha. Enquanto a gente mediocremente se estapeia cresce o cinema indiano, cresce o cinema chinês, o argentino...
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Apesar do belo florescimento dos últimos tempos o cinema brasileiro ainda se auto-engessa. É hora de pensar pra frente, chutar as santas, queimar os ícones. O Cinema Novo já era. Referência falida, datada. Não dá mais, é um poço de água salobra, um vazamento químico permanentemente poluindo um rio limpo. Aliás, acho incrível a intocabilidade da coisa. Cinema Novo é como a Bossa Nova ou o Roberto Carlos. Vacas sagradas, instituições sobrenaturais. Nunca, jamais, em hipótese nenhuma pode-se falar mal, tantinho que seja. Corre-se o risco do herege-pagão-infiel ser encoberto pelas sete pragas do Egito.
É inegável que o movimento teve sua importância, até um vendedor de churros tem consciência disso. Grandes nomes foram revelados, o Brasil passou a aparecer nos mapas, criou-se uma estética no mínimo original (apesar da matriz neo-realista italiana). Mas hoje, 2007, o Cinema Novo é uma herança maldita. Todo aquele approach militante, político e aquele hermetismo cabeça já saíram de moda há muita raça de tempo, não têm razão de ser. Hoje tudo soa muito chato, datado, burocrático, cerebral. É coisa para estudante de filosofia da USP, só. O conceito - caríssimo aos cinemanovistas - do "verdadeiro Brasil", sertanejo, exótico, místico e miserável já não cabe mais, não comunica, não diz a verdade. Não estamos mais nos anos 60. A maioria do povo vive nas cidades, somos uma maioria urbana. O tempo é outro, as linguagens são outras, as alegorias já não fazem mais sentido. Glauber Rocha e toda sua corja de Rossellinis frustrados viraram uns chatos.
Mas ai daquele pobre-diabo que se recusa ao beija-mão do coronealismo estético do Cinema Novo! O infeliz é logo taxado de colonizado, anti-patriota, americanizado... como aliás vivem acusando Fernando Meirelles, que com seu Cidade de Deus soube mandar a real sem ser panfletário, complicado ou enfadonho. Segundo alguns, Meirelles (que ainda cometeu a heresia de dirigir o ótimo O Jardineiro Fiel), é um vendido ao sistema internacional. Só esquecem de dizer que o sujeito é o melhor diretor brasileiro da atualidade. O lance é se assumir pobre e subdesenvolvido, mostrar as mazelas, a desgraça, o Brasil errado. Fazer filmes baratos e feios para meia-dúzia de intelectuais. E o principal, que ninguém entenda nada, quanto mais incompreensível melhor. Assim reza a cartilha e assim tem sido desde sempre. De Central do Brasil a O Céu de Suely não faltam ao menos as referências, os tributos à retrógrada estética do Cinema Novo. Assim a gente vai longe, com as benção de São Glauber da Rocha Fervente, amém!
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Não é preciso consultar o relógio, os fogos lá fora antecipam o fim da festa. 2006 aos poucos vira passado, nos sorri de um jeitão diferente, pelo retrovisor. Esses dias em que ainda não jogamos fora nossos calendários velhos e tampouco nos acostumamos com os novos têm uma cor, um tom, um cheiro de angeluz. Angeluz é aquele momento do dia, mais ou menos às seis da tarde, em que não se sabe ao certo se ainda é dia ou se já é noite. O sol foi iluminar outras terras, outras gentes e a escuridão vêm tímida. É uma hora indecisa essa, de mudança. Virada do ano é assim, meio angeluz, o mesmo zeigeist, o mesmo espírito.
Nesses dias indefinidos. De barulho, correrias, fumaça e abraços de ocasião fica a sincera torcida que tenhamos ao menos um 2007 mais justo. Se for já tá bom demais.