2006
Já vai tarde
Dezembro chegando ao fim. 2006 indo para as cucuias. A perguntinha se faz inevitável: E aí, qual foi o melhor filme do ano? Geralmente a resposta vem de bate-pronto, pegando na veia, mas nesse ano confesso que não tenho nenhum grande favorito. Gostei de alguns. Achei Crash - No Limite muito bom (apesar de ser do finalzinho do ano passado só assisti esse ano, faltou curiosidade). Roteiro de verdade, faz pensar nessa porcaria maravilhosa que é o ser humano, yin e yang, mereceu todos os prêmios que ganhou. O Segredo de Brockeback Mountain surpreendeu, apesar do preconceito nosso de cada dia acender a luz amarela em alguns momentos. Filme forte, corajoso, evolutivo. Há alguns anos seria impensável uma produção assim, polêmica, concorrer às grandes categorias do Oscar.
Valeu a volta dos pesos pesados. Spielberg fazendo de novo filme de gente grande em Munique e Brian de Palma retornando ao mundo dos gangsteres em Dália Negra. Ainda deu pra se divertir com alguns filmes, nada demais. Foi bom ver A Dama na Água, o alegre Pequena Miss Sunshine e O Código da Vinci, que se não foi a hecatombe esperada também não foi tão intragável como muitos fãs do livro acharam. Fonte da Vida, outro belo filme, pra não esquecer. A volta do capitão Jack Sparrow em Piratas do Caribe - O baú da morte, também foi bem-vinda. Grande papão mundial de bilheteria do ano, teve seus méritos mesmo trazendo um Johnny Deep meio apagadão. Produção superlativa, percebe-se que o estúdio investiu alto, e se deu bem. Apesar de se ficar um tanto quanto injuriado... Na melhor parte o filme acaba. Não tem jeito, o negócio é esperar pelo terceiro. Malditos produtores! Ô racinha.
Apesar de todo esse blá-blá-blá aí em cima achei 2006 um aninho bem ordinário. Maçante, repetitivo, preguiçoso, gasto os adjetivos ruins e não chego lá. Nenhuma Grande surpresa. Nenhum lançamento que abalasse a mesmice. Em anos anteriores tivemos Matrix , O Senhor dos Anéis ... putz! Filmes, acontecimentos, que te deixavam ansioso, davam gastura. E em 2006? Nada. Tudo decepcionou. Superman - O retorno, Missão Impossível III, As Torres Gêmeas , e por aí vai, a lista é grande. Filmes de encher os olhos, tecnicamente estonteantes, mas... só... muito glacê pra pouco bolo. Que 2007 seja ao menos um ano mais original, menos óbvio, com mais sustança. Nós, consumidores, viciados que alimentamos esse tráfico legal de celulóide, merecemos.
* * *
Se há algo a se comemorar em 2006 foi a produção nacional, bela, polpuda, bem feita. No meio da enxurrada de bons filmes destaco Zuzu Angel e Vestido de Noiva. Filmes exemplares, dois paradigmas do ótimo momento do cinema verde-amarelo. Zuzu, produção impecável, coisa fina, de primeiro mundo, reconstituição fiel, boas atuações. Vestido, uma narrativa originalíssima, cinema-teatro, fora dos padrões, cinema realmente novo. Golaços.
* * *
Já tivemos muitos James Bonds. Respectivamente, o Bond-charmoso, o Bond-de-um-filme-só, o Bond-engraçadinho, o Bond-sem-sal e o Bond-super-homem. Daniel Craig é o Bond-porrada. Misericórdia, como bate o homem no Cassinão Royale. E como o sujeito apanha... leva porrada até de mulher, essa aliás a mais doída.
Pouca gente acreditava na escolha de Craig para o papel do agente secreto da rainha. Loiro, marombado e com cara de imigrante paranaense plantador de café, a cotação do ator era baixa nas mesas de apostas. Assistindo Cassino Royale fica claro que quem apostou contra perdeu dinheiro. Bem mais contemporâneo e realista que os outros, o personagem ganha fôlego de criança. Esqueçam todas aquelas palhaçadas; armas mirabolantes, vilões saídos do circo, cenas impossíveis e um James Bond que nunca amassa o terno. O novo James Bond sangra, perde, leva volta e, vejam só... chora por causa de mulher! Mais real impossível. E vocês? O que estão fazendo aí lendo essa crônica inútil? Vão ver o filme! Agora!!!
* * *
Bonds à parte, aquele bom, velho e deliciosamente estereotipado herói de filmes de ação é hoje uma criatura à beira de extinção. Quem anda segurando a onda de machão-que-resolve-a-parada é o inglês Jason Staham. Sisudão, sempre de terno, bom de mira. Foi descoberto por Guy Ritchie e agora deslancha no filão da pancadaria, vêm fazendo um filme atrás do outro. Vin Diesel e The Rock não emplacaram, Wesley Snipes anda meio cansado, Bruce Willis nem se fala e o Van Damme... bem, o belga sempre foi um herói do Paraguai. Onde já se viu um herói ex-bailarino? Staham não, o inglês é ponta firme. Antes de se aventurar no cinema o sujeito foi - vejam só - nadador olímpico e modelo profissional.
Dia desses joguei meu pouco usado cerebelo pela janela e fui assistir Adrenalina, puta filme de ação descerebrada. Produção com aquela estética copiada de Hong Kong. Explosões, mentiras e um assassino profí (Statham) que envenenado têm de manter seus níveis de adrenalina sempre lá em cima senão babau, vai pro vinagre. Recomendo totalmente essas sessões abaixo da crítica. Faz bem à pele, queima calorias, elimina os radicais livres, dá até pra sair do cinema mais corado. É só não levar a coisa a sério, o que, francamente, não é muito difícil.
* * *
Às moças e rapazes de boa vontade que visitam o AdoroCinema, meus sinceros votos de alegrias nestas festanças de fim de ano. Protejam o fígado, aproveitem e lembrem-se que nem sempre o cinema é a melhor diversão. Bem, vocês sabem do que estou falando.