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Diários Cinéfilos
por Rodrigo Fernandes

Diários Cinéfilos
Promessas & promessas

Se sou chamado para fazer parte do governo recém-eleito, além de embolsar alguma mutretinha básica (também sou filho de Deus), ia implantar as campanhas "Fome Zero, Cinema Dez" e "Cinema Popular a um Real" , onde os flagelados da cultura iam passar o bandejão escolhendo que filmes iriam ver, porque o importante não é só dar o peixe, é dar o ingresso também. Ia ser o maior sucesso, reeleição certa. Como não sou baiano, músico e nem sei cantar, com certeza ia ter muito tempo pra implantar e fiscalizar esses projetos fundamentais ao bem-estar da população cinéfila, tenho dito. Porém, como nem tudo são flores, em um regime democrático também seria obrigado a ter que tomar medidas duras e instaurar um rodízio cinematográfico. Seguindo o belo exemplo de São Paulo, bucólica, aprazível e ordeira cidade que criou um eficientíssimo rodízio de carros, também implantaria no país um rodízio cinematográfico. Os freqüentadores dos cinemas só iam poder ver filmes intercaladamente. Um nacional, um estrangeiro, um nacional... E por aí vai. Isso se eu não cismasse de nacionalizar de vez as refinari... digo as produções gringas.

Falando sério. É de se impressionar a quantidade de bons filmes brasileiros em exibição. Tivemos o ano Central do Brasil, o ano Cidade de Deus, o ano Olga. 2006 está sendo o ano de O Céu de Suely, Wood & Stock, Vestido de Noiva, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Canta Maria. .. todos ainda em exibição, e ainda vem uma enxurrada de coisa boa por aí. Baixio das Bestas, Querô, Batismo de Sangue, O Engenho de Zé Lins... produções que acabam de ser devidamente premiadas no Festival de Brasília. Bons vinhos de uma boa safra. Faz bem trocar um pouco os donuts e nuggets pelos bolinhos de bacalhau e pelo bacana vatapá brasileiro. É saudável. Vamos encher as fuças de gordura trans e colesterol nacional.

* * *

Em se falando de cinema nacional, se liga nas palavras de Glauber Rocha explicando (!), no Festival de Veneza em 1980, seu recém-lançado A Idade da Terra, depoimento sacado do DVD Fantástico - Grandes Reportagens: "O filme realmente não tem nenhuma história. O filme é um barato áudio-visual e fala do Brasil. Do Brasil de todos os tempos e todas as eras, e é um poema, não é um teatro, não é um romance, então não conta uma história do jeito que se conhece, como é tudo invertido as pessoas ficam assim... Quer dizer, o filme é isso aí. Mas é pra ver e ouvir, não dá pra contar, porque não tem o que contar. Cinema é pra ver e pra ouvir. O diretor não deve falar do filme. O filme tem outro tempo, um outro espaço de montagem, o barato é outro, os caras não podem entrar mesmo" . Lucidez é isso aí.

* * *

Finalmente assisti Instinto Selvagem 2, filme que prometia A VOLTA de Sharon Stone - a mulher que fez carreira com uma cruzada de pernas - ao Olimpo das musas boazudas da sétima arte. Aí eu me pergunto onde foi parar Stone, aquela manipuladora de fluidos, a loura-má que fez muito marmanjo suar frio no imbatível Instinto Selvagem. A modelo-e-atriz que pelas mãos calejadas de Martin Scorsese quase fatura um Oscar por seu papel em Cassino (Ganharia o Globo de Ouro! Grande atuação!). Onde foi parar o maior símbolo sexual de Hollywood dos anos 90?

Sei lá, beirando as cinco dezenas é até cretinice esperar sex appeal de La Stone. A mulher já deu o que tinha que dar. Mas a gente é cretino, a gente espera, a gente cobra assim mesmo. Afinal desde o primeiro Instinto Selvagem, de 92, tem gente fazendo promessa ao padre Cícero para sair uma continuação da fita, mas... Que desencanto, amigos, que filme boboca. Frio, sem uma fagulha de sensualidade, uma gotinha de tesão sequer. Caidaça, Sharon Stone parece aquela sua tia encalhada. Nem glamour, nem charme - que não tem nada a ver com rostinhos bonitos ou lombos turbinados - a mulher tem mais. Aí você entende o controle, o sigilo que cercaram a produção (fotos proibidas, sets inexpugnáveis...). Não queriam deixar vazar o segredo que, além de ruim, o que o filme oferece é uma estrela apagada, querendo uma merreca pra pagar o aluguel do seu puxadinho em Palm Springs. Curiosamente o que salva a produção de ser uma perda de tempo total é a boa interpretação do desconhecido inglês David Morrissey, o psiquiatra e alvo da vez da ninfomaníaca-e-escritora Catherine Tramell, vivida por Stone. Não estivesse nas mãos do diretor meia-bomba Michael Caton-Jones até que o roteiro poderia dar um filme interessante. Desde que também trocassem Sharon Stone por Danielle Winits. Aí sim, teríamos ação de verdade. Eu não pediria de volta o dinheiro do aluguel do DVD e o atendente da locadora não iria me mandar, em alto e bom som, à PQP. Um mundo perfeito.

* * *

No mais, a mulher mais bonita do cinema internacional atende hoje pelo nome de Rachael Weisz. De uma beleza simples, nada agressiva e um sorriso deslumbrante, Weisz, como a maioria das mulheres, ficou ainda mais bela depois da maternidade. Encantadora. É de largar a família.

 
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