Totalmente Apaixonados
Escrever uma história de amor diferente e igual a todas ao mesmo tempo. Essa deve ter sido a louca linha de raciocínio de Bart Freundlich, diretor, roteirista e marido de Julianne Moore na vida real. E o resultado, mesmo chegando com atraso, deu certo.
Abertura moderninha, boa trilha e pano rápido para apresentação dos protagonistas Tom (David Duchovny), Rebecca (Julianne Moore), Tobey (Billy Crudup) e Elaine (Maggie Gyllenhaal). Tom é um dono de casa meio que taradão, viciado em sexo, e que está passando por um momento turbulento em sua relação com a esposa Rebecca. Na outra ponta, Tobey está enrolando a namorada Elaine há uns oito anos e ela - claro - não vê a hora de casar e ter filhos.
Pensa rápido: quem não ouviu falar - ou viveu - algo semelhante? Esse é o maior mérito de Totalmente Apaixonados.
E qual é graça? Bem, dependendo do seu estilo você pode rir muito com os diálogos visivelmente inspirados no estilo bizarro dos irmãos Farrelly (Quem Vai Ficar com Mary? e O Amor é Cego). Do começo ao fim você se depara com um verdadeiro festival de flatulências, obsessão pela palavra "bunda", alusão a sexo com cavalos, sites pornôs, pastor tarado, entre outras doideiras. E isso numa história de amor. É divertida a cena em que Tom, doido para dar uns "pegas" na esposa, tem que dividir o tempo com uma vontade de ir ao banheiro incontrolável e na seqüência a vontade de vomitar. Escatologia total.
As mulheres são histéricas, é verdade, mas o desfile de loucuras maior é dos personagens masculinos. Tobey, por exemplo, encontra uma ex-namorada (Eva Mendes, extremamente sensual) e na hora de dar o e-mail não titubeia: loucoporbunda204@blábláblá.com . E ainda explica que o número foi motivado pela existência de outros 203 donos igualmente loucos pelo derrière feminino. Depois dessa abundância exagerada (com trocadilho) e se tratando de um filme americano, terra dos psiquiatras, não deixa de ser interessante a psicanálise ter presença constante - e bem humorada - ao longo da história. Os diálogos nas sessões são ótimos, assim como a conclusões de Tobey: "O mundo não está contra você." E o que dizer da paranóia dele de não pagar para estacionar o carro na rua? Mais urbano impossível. Loucura total.
E você vê que não é preciso nascer na terra de Nelson Rodrigues ou de um Veríssimo para viver uma verdadeira comédia da vida privada. Está tudo ali neste filme despretensioso: encontro com ex-namorada afim de um affair, mãe atraente de amiguinhos da escola, amante no ambiente de trabalho, namorado atual "P" da vida com o antigo namorado. Enfim, nada que você não tenha vivido ou ouvido falar. Destaque para o diálogo carregado de sexo na mesa de jantar e fora dela, com direito a participação de babá eletrônica.
Algumas cenas, pelo estilo que foram filmadas e até interpretadas, daria para dizer que são citações, homenagens, ou como queira chamar, a ícones do cinema. Não dá para pensar diferente, por exemplo, da seqüência de dança de Tobey que remete a John Travolta e Os Embalos de Sábado a Noite. O mesmo acontece quando Tobey e Tom saem do banheiro e entram em cena como se estivessem protagonizando um bom e velho capa e espada. E o mesmo acontece com a seqüência pastelão típica de clássicos do passado.
O final, claro, é feliz. Para eles da história e para você, da poltrona.