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| Panorâmica |
por
Roberto Cunha |
A Paixão de Jacobina
Muita gente acha que sobra má vontade com o cinema
brasileiro e que muitas vezes a crítica é cruel.
Pode ser verdade. Pode não ser. A questão é
que A
Paixão de Jacobina é fraco. Deixando de
lado o fato de que resgatar uma parte de nossa história,
de nossa cultura, o que é digno de mérito, o
filme é de uma superficialidade que chega a incomodar.
Desde a atuação do elenco, encabeçado
- de cabeça raspada - por Letícia Spiller, até
a edição, fica difícil selecionar bons
momentos. O sotaque não existe, o merchandising da
Azaléia foi sofrível e os cortes bruscos com
o excessivo uso de fade/black são ruins. Mas uma coisa
que chama a atenção é a qualidade do
som, que está boa.
O filme começa com um "cartão" revelando por
escrito o que o espectador irá ver. A começar
pela escolha das letras, do fundo e pela opção
de aplicar somente um cartão, a produção
errou muito. Primeiro porque força o espectador a ler
rápido com medo de que a tela possa sumir e ele perca
a leitura, depois porque fica muita informação
concentrada numa imagem única e sem vida. Por que não
exploraram mais esse detalhe com o visual atraente do título
do filme?
A história começa com a mãe de Jacobina,
que ainda é uma criança, falando "de passagem"
sobre o Brasil e a Guerra do Paraguai. De uma hora para outra
- numa passagem de tempo brusca - Jacobina já é
Spiller e os olhos arregalados - marca registrada durante
toda a produção - começam a impressionar.
Mas somente aos que estão vivendo a história.
Para quem está apenas assistindo da poltrona não
existe o menor impacto. Tudo é vago como o olhar. Como
a passagem de tempo foi rápida demais, a mãe
de Jacobina "aproveitou" para não envelhecer e resolve
levar a filha para um curandeiro da região. O objetivo
é curá-la de um insistente desmaio seguido de
sono profundo. Aproveitando o ritmo da história, o
curandeiro não cura a moça, mas casa com ela
e emplaca logo uma filha. Santa fertilidade! Depois do nascimento,
uma nova visão. A paranormalidade começa a aflorar.
Um dia, Jacobina nadava tranquila numa cachoeira até
que seu primo, por quem ela nutria uma paixão velada,
fica louco com o corpo da moça. A cena - não
precisa ser paranormal para adivinhar - é pretexto
pra explorar rapidamente as curvas da atriz. A atuação
da dupla é bem morna, sem intensidade e com um diálogo
para lá de tosco. Verter lágrimas não
é problema para os olhos azuis arregalados, mas faltam
palavras para dar peso às cenas. Em outra sequência,
Jacobina está ajudando seu marido no ambulatório
e num corte relâmpago já está no seu quarto
chapadona na cama. As cenas em que ela se levanta no melhor
estilo "possuída" denotam que o abdômen está
em forma, nada mais. A mãe, que conseguiu superar o
tempo, não fala mais nada desde o primeiro quarto do
filme. Só aparece. E Jacobina segue em frente, andar
de múmia e olhar de zumbi, rumo ao ambulatório,
vestida de branco, cabelos bem tratados soltos ao vento. Ela
beija a boca dos cidadãos combalidos, presentes em
sua casa e dá início a uma nova adoração:
o cristo em forma de mulher. Em outra sequência pretensamente
mágica, Jacobina caminha e é rodeada por borboletas,
lembrando Almas
Gêmeas, de Peter Jackson, este sim fantástico
e com conteúdo. As tomadas de batalha são muito
fracas e o destaque fica apenas para a cena em que Jacobina
e o amado primo estão envoltos em fogo. Essa foi de
tirar o chapéu.
A biografia do diretor Fábio Barreto revela uma certa
inclinação para fazer filmes onde as mulheres
tomam as rédeas da situação. Foi assim
com Índia,
a Filha do Sol, Luzia
Homem, O
Quatrilho e "Bela Donna". Talvez esse não tenha
dado certo porque Jacobina não era mulher. Beijinho,
beijinho. Tchau, tchau.
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