Demolidor
- O Homem Sem Medo
Para quem
conhecia um pouco - ou muito - da história desse herói
mais obscuro da Marvel, é uma grande satisfação
vê-lo transportado para a telona. Mesmo sabendo que
o orçamento foi mais modesto que os outros heróis
receberam - ficou em cerca US$75 milhões - a sensação
não é de decepção quando se senta
na sala escura para assistir Demolidor - O Homem Sem
Medo.
São
inevitáveis as comparações com o recente
Homem-Aranha, tremendo arrasa-quarteirão
que faturou algumas centenas de milhões de dólares
somente nos Estados Unidos e outros tantos mundo afora. Mas
o que o espectador precisa levar em conta é que diferente
de outros heróis, o Demolidor - talvez por viver no
lado escuro do dia - sempre ficou mais à margem que
os outros personagens em termos de exploração
de sua imagem. Quem hoje passa ou está próximo
da casa dos 40 anos vai lembrar que os desenhos animados que
eram exibidos em nosso País na TV aberta eram apenas
do Capitão América, Hulk, Homem de Ferro, Namor,
Thor, Homem-Aranha, entre outros. O Demolidor era mais conhecido,
de fato, por quem colecionava gibis.
Sendo assim,
é hora de se entreter com a interessante figura do
vingador criada pelo gênio dos quadrinhos Stan Lee.
O mestre da Marvel, que em entrevista já dissera ter
entrado nesse mercado meio por acaso, teve inclusive uma pequena
participação no filme - como também acontecera
em Homem-Aranha - e seu sobrenome também
foi citado umas duas vezes durante a história. Outra
curiosidade é a participação do diretor
Kevin Smith, outrora roteirista do próprio herói
nos gibis e por isso fã declarado do gênero.
Uma das
características que podem diferenciar Demolidor
dos heróis mais famosos é o fato de ele ser
um vingador no melhor estilo Charles Bronson na saga Desejo
de Matar. De dia ele representa a justiça
na figura de um advogado idealista e à noite ele é
um justiceiro. Ele ficou cego por acidente, mas não
por acaso a sua visão foi perdida quando confrontado
com uma dura realidade: seu pai não era o herói
que ele imaginava. Matt Murdoch não tem super poderes
oriundos de alguma mutação. Ele é um
ser humano que desenvolveu de uma forma mais intensa os outros
sentidos de seu corpo e apanha muito de seus oponentes. As
marcas pelo corpo evidenciam seu sofrimento, mas ele vai em
frente na luta pela justiça, mesmo que seja a sua.
O roteiro
deixou um pouco a desejar. O fato de ele se apaixonar de cara
pela bela e misteriosa Elektra pode deixar alguns espectadores
incomodados já que ele não pode enxergar. Mas
é preciso que se leve em conta que seus sentidos mais
apurados podem muito bem servir para manter em dia suas características
de indivíduo do sexo masculino. O lado ruim dessa "paixão"
repentina fica para a sequência em que o casal se "conhece"
através dos golpes de artes marciais. Esse encontro
poderia ser mais bem resolvido e explorado mas acabou ficando
surreal. Uma cena de um assalto, embora clichê, ficaria
mais degustável do que os tapas trocados por eles na
frente de um monte de crianças querendo ver briga.
Mais politicamente incorreto impossível. Algumas situações
criadas para gerar conflito e movimentar a trama para a frente
foram fracas, como aquela em que o vilão Mercenário,
interpretado pelo ator em ascensão Colin Farrell, mata
o pai de Elektra e a culpa recai sobre o Demolidor. Ali o
roteirista carregou na tinta e forçou uma situação
totalmente inverossímil. E fica pior ainda quando mais
adiante, sem um diálogo esclarecedor, a bela boa de
briga pede desculpas simplesmente porque descobriu que quem
ela achava que era o algoz de seu pai, era na verdade sua
paixão. Coisas do cinemão americano que poderiam
ser mais elaboradas.
A escolha
do elenco foi bastante feliz. Com nomes já consagrados
junto ao público alvo, como Ben Afleck e outros em
plena expansão como o já citado Farrel e a exótica
e sinuosa Jennifer Garner, fica difícil não
se deixar seduzir pelos personagens. Apesar de ter algumas
sequências violentas para o tipo de filme, o bom humor
está presente em toda a produção. É
provável que muita gente lamente o fato de o filme
se passar grande parte do tempo no escuro, mas é importante
que se tenha em mente que o Demolidor só "trabalha"
na escuridão da noite e o escuro faz parte de sua vida
já que ele é cego. O figurino que caprichou
nas roupas de couro do herói e de Elektra remetem para
o universo sadomasoquista, mas isso deve passar despercebido
do grande público que quer mesmo é diversão.
Destaque para as bonitas e bem resolvidas sequência
em que ele "enxerga". Um bom exemplo dos efeitos
especiais a serviço da criatividade. Não tenha
receio, Demolidor - O Homem Sem Medo é
um bom programa. Que venha a sequência!
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