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por Roberto Cunha

Crash - Uma grande porrada... no limite

Quem gosta de filme de verdade, deveria ter a obrigação de acompanhar de perto os futuros trabalhos de Paul Haggis. Com uma carreira sólida construída na TV, mas incipiente no cinema, esse canadense promete dar trabalho - isso, claro - se derem oportunidades para ele no mundo da sétima arte. Seu talento como diretor e roteirista em Crash - No Limite ficou evidente.

É praticamente impossível assistir a esta obra polêmica e não lembrar de Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky, com suas imagens fortes e edição frenética e também de A Outra História Americana, de Tony Kaye, que numa cena antológica conseguiu não mostrar a violência e sim deixar você imaginá-la. E Crash tem um pouco também do comercial - mas também interessante - Um Dia de Fúria, de Joel Schumacher.

E lembrar destes filmes bons não é demérito algum para o diretor. Pelo contrário, é a constatação que o seu caminho pode ser diferente do trilhado por seus antecessores que sumiram. Agora é esperar para que isso não aconteça ou - pior - para que Paul Haggis não caia na maldição dos "punhados de dólares a mais" que já destruíram tantos outros.

O roteiro é um primor e a construção de cada personagem coloca você diante da realidade de uma forma tão visceral que - em algum momento do filme - você "entra" na tela. Vive a história. É um desafio, por exemplo, se conter na cena do carro capotado onde algoz e vítima trocam olhares e sentimentos tão difusos e profundos. E o que dizer do diálogo de pai e filha sobre a fada? Tão puro e tão trágico. E acontece ao redor do mundo, por toda a parte, das mais diversas formas, a todo momento. Essa questão de pais e filhos, aliás, é uma constante no filme e surge contundente, mostrando as dificuldades de relacionamento entre parentes, amigos e pessoas de um modo geral.

Fotografia e som perfeitos. Elenco afinado com a proposta da produção. Trilha sonora precisa e comovente. Os recortes finais mostrando o que "restou" para cada um dos personagens remete a Réquiem mais uma vez.

Em tempos de Oscar, a superioridade de Crash em relação ao badalado BrokeBack Mountain é notória. E o maior destaque de Crash talvez seja o fato de ter conseguido atrair a atenção, fugindo dos padrões normais de narrativa. E mais, sem ninguém ocupar posto de queridinho da mídia especializada, ter verbas milionárias ou campanha de marketing agressiva. Crash é agressivo de sobra e resumir como um filme que trata do preconceito é chover no molhado. Crash dá uma verdadeira porrada na cara de quem já vê e na de quem se recusa a ver que a vida é - na maioria das vezes - reflexo de suas opções, de suas escolhas.

Programa garantido. Filme obrigatório em qualquer coleção.

 
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