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por Roberto Cunha

Baixio das Bestas
Besta é Tu

O título acima remete a um grande sucesso de 1972 dos "Novos Baianos", grupo que tinha entre seus integrantes os também nordestinos Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby - na época - Consuelo. Se você não tem idade para lembrar disso não tem problema, porque se você for assistir Baixio das Bestas pode ter certeza que "besta é tu".

Dizem que o cineasta pernambucano Cláudio Assis gosta de chocar. E parece que consegue. Eu, por exemplo, fiquei chocado de ver o monte de empresas que botou dinheiro nesta produção e também os atores (alguns famosos) que aceitaram participar do filme. Existem muitas maneiras (e já usaram várias delas) de se abordar o universo nordestino e suas entrelinhas para lá de bizarras que ainda acontecem em pleno século 21. Mas até para ser tosco é necessário talento. Falta ritmo e toda hora você pensa exatamente isso: tá lento, tá lento... Trocadilhos pobres a parte, esse lançamento para lá de badalado do cinema nacional é um festival de imagens cruas, jogadas de qualquer jeito, e de palavrões. Muitos palavrões. Onze em cada dez vocábulos são palavrões saindo da boca de alguns protagonistas. E é bem provável que o personagem de Matheus Nachtergale, por exemplo, tenha proferido mais FDPs ("fela da pu..") do que palavras normais no filme inteiro. E para que?

Em uma das cenas iniciais do filme, uma jovem nua e iluminada em destaque sendo admirada por homens na penumbra, parece algo meio Fellini, mas na seqüência tudo se dissipa. Assim começa Baixio, rasteiro que só ele. E aí você só tem duas possibilidades: fazer parte da "inteligentzia" para entender a proposta da história ou ser perseverante e ter paciência para agüentar até o fim.

Com exceção de uma tomada do alto interessante (se bem que usaram o recurso o tempo todo e perdeu a graça), Baixio das Bestas não apresenta "chongas". E teve gente que reclamou de Cidade de Deus, produção nacional que também abordou a violência de uma maneira diferente e conseguiu atingir tanta gente ao redor do mundo.

A fotografia é bacana e das mãos de Walter Carvalho, que optou pelo CinemaScope, você verá algumas externas belíssimas e registros noturnos igualmente interessantes. A edição lembra os curtas dos tempos da Embrafilme e esse longa de 80 minutos (ainda bem!) é curto e chato.

Para os taradinhos de plantão (ainda tem brasileiro que se amarra em ver gente sem roupa em filme nacional), tem mulher pelada e homem pelado. O destaque (para o deleite dessa turma) fica por conta do momento "galisteu" em que uma prostituta raspa sua "xanha" em close. E o desprezo fica para a cena que um personagem pisa sucessivas vezes na cabeça de uma prostituta após consumar um estupro "fast food". O diretor Tony Kaye, em A Outra História Americana, mostrou como fazer uma cena forte, chocar o público, sem mostrar. Confira a diferença.

A curiosidade é ver na cabeça de um personagem uma touca do grupo de rock australiano AC/DC em plena levada de Maracatu. E a bobeira é alguém querer tirar onda de Hitchcock aparecendo no próprio filme. Haja criatividade. O personagem de Matheus Nachtergale diz no filme que "o bom do cinema é que nele você pode fazer o que quiser". Realmente, Assis levou ao pé da letra o diálogo de sua obra e fez o que quis: cinema para poucos. Se essa era a proposta, conseguiu. Essa síndrome de Cinema Novo (de novo) não é fácil. Difícil, para o grande público, é não sair da sala com a sensação de que não entendeu patavina. Não é má vontade com o cinema nacional. Vá e confira você mesmo. Não é uma recomendação, mas pelo menos já ajuda na bilheteria.

 
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