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Cena de Cinema
por Renato Martins

Presente de Natal
Novo filme de ação (?) de John Frankenheimer é osso (jogo?) duro de roer


Por que nos filmes de ação e suspense americanos:
    1. O vilão está louco para matar o herói mas nunca o faz;
    2. Os bandidos deixam o mocinho preso - mas sozinho e com tempo suficiente para se livrar das correntes;
    3. O criminoso conta todo o plano e seus motivos vilanescos em detalhes na cena final, antes de matar a vítima;
    4. O roteiro não consegue se sustentar sem uma boa virada de identidades e caráteres???

O novo filme de John Frankenheimer, "Jogo Duro", tem todos esses clichês e muito mais. Chega até a irritar. Ben Affleck, o bom-mocinho de "Forças do Destino" e "Gênio Indomável", é um ladrão de carros que ganha a liberdade depois de 5 anos de cadeia, e resolve tomar a identidade do colega de cela que morreu na prisão. O colega se correspondia, através de cartas, com uma futura namorada: uma mulher linda e desde já estranhamente apaixonada pelo detento que nunca tinha visto. Seduzido pela beleza da moça ingênua e benevolente (Charlize Theron, de "Celebridades"), o personagem de Affleck resolve levar a história adiante até que se envolve em encrencas maiores: um grandioso assalto a um cassino.

O competente Gary Sinise (eu sempre lembro dele como o veterano de guerra digitalmente sem pernas em "Forrest Gump") é o vilão da trama. Cuspindo raiva e extremamente caricato, ele surge embaixo da luz de um abajour, sem que se veja o rosto, num primeiro momento (outro clichê). Ele acumula a função de irmão da moça e quer o novo namorado dela para ajudar no assalto. Puxa, mas o galã de "Shakespeare Apaixonado" e "Dogma" vai mesmo ajudar a cometer esse crime? Só porque está com uma arma apontada na cabeça. Do contrário, ele está apenas tentando se reabilitar na sociedade e só quer participar da ceia de Natal com seus pais. Sinise é ótimo ator ("Missão Marte", "Olhos de Serpente", "À Espera de um Milagre"), mas aqui está apenas ganhando dinheiro. Charlize Theron se esforça para livrar-se do estigma de "mulher do Keanu Reeves no filme O Advogado do Diabo", mas com este filme anda três casas pra trás. E Ben Affleck...bem, Ben Affleck é Ben Affleck. Ainda mais sem Matt Damon por perto.

O diretor Frankenheimer fez o discutível "Ronin" - tem gente que gostou e tem gente que não, eu estou mais pro segundo time -, que tem uma antológica cena de perseguição, ótimo elenco e roteiro atrapalhado. Mas o cineasta novaiorquino também fez - ou melhor, cometeu -  "A Ilha do Dr. Moreau". Todo mundo se lembra desta produção nas listas de piores filmes de toda a história da sétima arte. Neste "Jogo Duro" mais uma vez John se complica. O roteiro carece de mais elementos, desde diálogos até ações. Quando o roteirista Ehren Kruger se dá conta disso, começa a provocar no terço final do filme sucessivas viradas de dar inveja à "Os Suspeitos" e "O Suspeito da Rua Arlington" (aliás, Kruger também escreveu este último e mais "Pânico 3", outro show de viradas). Claro que,por serem muitas, as surpresas perdem os efeitos e o espectador não sabe quando tudo isso vai acabar - único ponto não previsível do filme.

Sabe-se que os suspenses com mocinhos, vilões, perseguições e viradas de roteiro estão saturados em Hollywood. Há pouca gente hoje em dia que consegue dar um tom diferente para esse gênero e ao mesmo tempo atingir um grande público. Vários diretores já optaram por experimentar outras linhas, como romance, drama e até ficção científica. Mas a pressão da indústria é grande: colocar um casalzinho bonitinho numa aventura como esta, é indício de bom faturamento - embora nem sempre se concretize dessa forma nas bilheterias. E nós pobres cinéfilos sedentos de bom material, enfrentamos todo dia esse Jogo Duro...
 
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