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Cena de Cinema
por Renato Martins

Para ver em Duas Partes
O filme do franco-argentino Gaspar Noé quer chocar. E consegue, com maestria


Confesso que fui ver Irreversível, do diretor franco-argentino Gaspar Noé, com muito atraso. Li muito sobre o filme antes de mesmo de chegar ao Brasil, e a curiosidade ficou atiçada imediatamente. Acompanhei as diversas reações - negativas e positivas - que o filme teve em festivais internacionais, incluindo o choque geral no público de Cannes. Foi um dos poucos filmes que me dei ao trabalho de localizar os sites relacionados e baixar o trailer para assistir na internet - coisa que queria ter mais tempo para fazer, diga-se de passagem. Já ali, na minúscula e falhada tela do computador, as claustrofóbicas cenas da fita de Noé funcionaram mais ainda como um aperitivo para a misteriosa produção.

Depois de igual repercussão polêmica no Festival Rio BR, restou aos gaúchos esperar chegar o ''tal filme com a tal cena de estupro''. Imagens povoaram o imaginário dos cinéfilos e tarados de plantão. ''Dizem que é muito violento'', alguns comentaram. ''Parece que o estupro é agressivo demais para passar algum erotismo'', outros especularam. Com tudo isso, mais as notícias de uma câmera nervosa que o cineasta provocativo mantinha na primeira parte do filme, as expectativas se redobraram para ver a maravilhosa Monica Belluci em cena (e não vamos ser hipócritas: tem Monica Belluci sendo estuprada!). O filme passou em São Paulo, mas no Rio não chegou, segundo me diz o Francisco Russo aqui do Adoro Cinema. No resto do Brasil também demora para chegar. Aqui no Rio Grande do Sul também esperamos mais pela estréia, o que aumentou mais ainda esta ansiedade.

Mesmo depois da estréia, Irreversível nem sempre foi minha prioridade, apesar da curiosidade: sempre havia um filme mais importante, um lançamento mais interessante, e o filme de Noé ia ficando na fila. Quando chegou num determinado domingo, eu e minha esposa fomos conferir enfim. Donos de uma certa autoridade, cinéfilos que somos, debochamos silenciosamente de casaizinhos de mauricinhos e patricinhas que devoravam sacos de pipoca antes da sessão. Imaginamos que provavelmente eles iriam vomitar aquela pipoca. Pois bem, caí do cavalo: aos 30 minutos de sessão, pouco depois da chocante cena em que um rosto é destruído pelas pancadas de um extintor (e pouco antes do tal estupro!), tive que abandonar a sala porque minha companheira não agüentava mais. Atordoada pela câmera estonteante, Silvia, minha cara-metade, muito menos hollywoodiana do que eu e admiradora de filmes europeus, pediu água (literalmente) e depois abandonou o barco. Entre a paixão pelo cinema e pela mulher, preferi a segunda.

Num primeiro instante, um certo rancor: eu estava adorando o filme. Acima de tudo, Noé me apresentava uma experiência cinematográfica sublime, com seu interminável jogo de câmera balançada, com seu roteiro às avessas ao estilo Amnésia, com sua brutalidade explícita, roteiro minimalista e argumento intrigante. Qualquer um, por mais que se enojasse, queria ver o que ia acontecer depois (ou antes, no caso desta história). Mas infelizmente não deu.

Mais duas semanas se passaram e faltou gás para encarar o filme de novo, mesmo com salvo-conduto para encará-lo sozinho. Depois de compromissos e negociação do tempo para, definitivamente, conferir o falado francês, chego na sala já com o mesmo em andamento (por sorte eu tinha os 30 minutos iniciais como crédito). Não tinha muito mais público do que a primeira vez, algo em torno de 40 pessoas numa sala de 300 poltronas. Uma pena. O que eu e os outros 39 testemunhamos, desta vez com direito a toda violência exacerbada do cineasta, foi uma obra cinematográfica. Por mais ousada e gratuita que seja, a fita é original por si mesma, carregando consigo uma autonomia indissolúvel, encantando admiradores da sétima arte e alvejando estômagos mais sensíveis. Um casal se levanta e sai. Mais dois que não suportaram. Vem o estupro interminável de 12 minutos - sim, eu cronometrei no relógio a cena toda -, que começa erotizante e termina enojante. As cenas mais atras, somadas à trilha sonora suja, às cores desgastadas como se fosse um filme velho, à ausência de luz, aos cortes inexatos e a câmera (de novo ela) que não se aquieta, tudo isso nos causa um desconforto sem tamanho.

À medida que as idéias e as imagens se apresentavam, um conceito se formava: de admiração e de coragem. Coragem pelo diretor, por Belluci e seu ex-marido (eram casados na época) Vicent Cassel, pela dose de realidade que exalavam em todos os momentos do filme, pelo desprendimento de regras e supostas preservações que um ator às vezes pode ou quer exigir dos filmes que faz. Vicent chega a errar seu próprio nome em cena, saindo do personagem. E o diretor não cortou. Em Irreversível há pouco de representação, e muito de atuação. A entrega é total. A tal ''construção'' do personagem, por assim dizer, passa longe da produção. Quase tudo é alma do grupo de trabalho.

Minha declaração pode ser exagerada, mas ainda assim a sustento. Quem vence a primeira parte do filme ganha várias coisas: uma experiência, como eu disse acima; e ganha a segunda parte, mais estável e mais ''comportada''. A câmera vai parando e encontrando a normalidade. Mas que dói quando imaginamos que toda a calmaria e romance apresentados são apenas o prelúdio de uma grande tragédia urbana já vista.

Não sei com que intenção Gaspar Noé fez este seu quarto filme. Mas atingiu meu coração de cinéfilo. Arrebatou meu cérebro e meu raciocínio, que tem por norma, definido que originalidade, impacto e criatividade fazem parte de um grande filme. Posso estar confundindo tudo. Noé pode estar rindo à toa da polêmica sensacionalista que causou nos festivais e das críticas ensandecidas que dilaceram o filme, mas que falam dele igual. Pode estar conferindo os borderaux das bilheterias que crescem devido ao boca-a-boca de gente que ainda não viu e fala mesmo assim. Ele pode ter jogado na tela um emaranhado de sexo, gratuidade e violência, mas o fez com talento. E contou com o apoio do resto do elenco. E do pouco público que sobra na sala de cinema, vem o aplauso.
 
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