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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Mandando o Instinto pras Cucuias
A continuação do thriller erótico é uma bomba, mas isso não é novidade
Terrível! Terrível! Mas a gente já sabia. Por tudo que se leu, se esperou, se segredou e vazou sobre a dramática produção da continuação deste thriller erótico de sucesso dos anos 90, todo mundo já estava avisado que Instinto Selvagem 2 seria uma grande bomba. E ela vem rotunda, consistente, derrubando paradigmas e escancarando ruindade em cada fotograma. Só não é pior porque não tem como piorar. A linha é tênue entre o desastre e o caos completo. Só que, no meio disso tudo, dá até pra se divertir um pouco. Seja pelo perfume de filme B permanentemente no ar ou pela tempestade de confusões armadas pelo sofrível roteiro, que desorienta os personagens e os espectadores, provocando um desejo irrefreável de que aquilo tudo tenha uma resposta. Vamos aos fatos.
David Morrissey é uma péssima escolha, é um ator despreparado, de face estranha e completamente desajustado em cena. O seu papel também não lhe ajuda, nem suas falas, nem as circunstâncias que os sádicos roteiristas (Leora Barish, que escreveu Procura-se Susan Desesperadamente nos anos 80, e Henry Bean, que a acompanhou em vários projetos) vão lhe colocar - assim como todo o resto do elenco. O mais incrível é que o filme tem leves melhoras quando Sharon Stone - isso mesmo, a protagonista - se afasta. A relação do psiquiatra vivido por Morrissey com o detetive que investiga os crimes que acontecem em seqüência - David Thewlis, o menos pior do cast - é o que começa a segurar o filme (ou o público na sala) a partir dos primeiros 30 minutos constrangedores. A trama é esforçada, tentando unir detalhes inspirada em policiais intrincados, mas sem timing, cai na solução artificial e simplista, além de abusar muitos clichês que só poluem a história. Mesmo assim uma ponta de curiosidade reside sobre o espectador, pois pessoas estão morrendo e a escritora centro das atenções é a principal suspeita, uma figura dúbia que pode ser a chave de todos os crimes - ou não.
Inverossímil, porém, é a palavra-chave que define as situações fabricadas pelo glorioso script, desde a cena inicial com Catherine sendo masturbada por um astro do futebol drogado num carro a 160 km/h (puxa que início, hein? Deu vontade de ver?) até a absurda acolhida do psiquiatra, que depois de condená-la em pleno tribunal com uma avaliação psicológica negativa resolve tratá-la como paciente número 1, desafiando as leis da ética, da normalidade e da auto-preservação. E, desorientado pela sua própria cliente, passa a ligar diariamente para o celular e procurá-la incansavelmente, perseguindo-a nos lugares mais sórdidos de Londres. Parece até que ele é que está em tratamento e precisa desesperadamente de ajuda psicológica. No meio disso tudo a loira, cheia de decotes, caras e bocas, joga na tela uma ou duas transas sem sal, não oferece nenhuma cruzada de pernas estonteante que nem na primeira versão e, pior do que isso, ninguém sente falta. O erotismo é fake, não se cria clima nenhum para haver alguma atmosfera sexual. Um naufrágio sem fim. Stone, por exemplo, era para ser sexy e charmosa, mas soa com uma prostituta de cabaré de segunda linha. A produção peca até na maquiagem, que só desfavorece a musa madura, que vê sua beleza transformar-se em mera vulgaridade. Uma pena.
O filme do escocês Michael Caton-Jones, um cineasta bastante irregular (O Último Suspeito, com Robert de Niro, talvez tenha sido seu melhor resultado), é como um carro velho, empacado, afogado, daqueles cuja ignição custa a pegar, anda pouco pra frente aos solavancos, pára, engasga, volta um pouco. O ritmo da narrativa é mais ou menos assim. Falta pouco para passar de ''mal-feito'' para ''irritante''. Tudo depende da boa vontade de quem assiste.
Bem, ainda tem mais na segunda metade, quando os personagens correm sôfregos atrás de uma história, Sharon se ausenta mais, o simplório papel de Charlotte Rampling cresce (uma dama inglesa não merecia isso...) - ela interpreta uma médica amiga do psiquiatra que vai ficar amiga da perigosa escritora, e o esmalte estético é incrementado: Londres é pouco explorada em seus pontos turísticos triviais (bom), mas aparece soturna, escura e mal aproveitada (ruim). Um jogo constante de contraste entre o clássico e o moderno (o edifício do dr. Glass, que mais parece um ovo de páscoa metálico). Um grande caldo que ameaça a entornar, e acaba procurando - pra variar - lugar comum pra terminar, com direito a surpresinha e viradinha de roteiro, encaixando as peças no final. Talvez sejam os acontecimentos finais o único momento lúcido da obra, que óbvio, deixa a brecha aberta para o terceiro filme que Sharon já anunciou que quer dirigir (?!?!?!). Pelo jeito, ela não aprendeu mesmo...
O mais incrível é que ficamos sentindo falta de Michael Douglas. Que loucura. Que nonsense. O detetive interpretado por ele no primeiro filme, tal como o dr. Glass aqui, se desequilibra por causa da mulher ameaçadora e misteriosa, sedutora e fatal, mas tinha uma certa hombridade, não se desesperava tanto, não se fragilizava excessivamente saindo do prumo e conferia ao personagem uma confusão natural, própria do policial que enfrentava uma indecisão e um dilema moral, psicológico, ético, amoroso e sensual. Mas não temos nem mesmo o charme canastrão de Douglas. Não temos nada, poderíamos ter um pouco de sexo, então. Mas cadê o sexo? E o picador? Só aparece uma vez, e... picando gelo! Que anti--clímax.
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