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Cena de Cinema
por Renato Martins


Os Dinossauros Estão Vivos
Novo filme de Martin Scorsese é um excelente policial com um ótimo Jack Nicholson

Os Infiltrados é mais do que um bom filme policial. É um bom filme. Pois seria muito fácil fazer um competente thriller policial botando alguém como Martin Scorsese (cineasta americano, 64 anos, 46 filmes) na direção de uma obra do gênero, adicionando nomes consagrados da mídia como os jovens Matt Damon e Leonardo Di Caprio e, de quebra, garantindo o sucesso da realização com o nome de Jack Nicholson (ator americano, 69 anos, 12 vezes indicado ao Oscar). Com todas essas ferramentas, soma-se mais um roteiro bem escrito a partir de um (já interessante) original de 2002, produzido em Hong-Kong, chamado Conflitos Internos (disponível em DVD). Bem, a partir daí fazer um policial razoável não é nada mais do que a obrigação, mas ganha-se ao assistir Os Infiltrados um bom filme, independente de seu gênero. É uma produção redonda, robusta, sem arestas para aparar, com elenco afinadíssimo e diálogos fortes e inteligentes. A história e a construção de cada personagem é natural e imediata. Poucos minutos de Nicholson, Damon e Di Caprio na tela e pronto: ali está o trio de peso que vai levar o resto da trama até o fim com qualidade e atratividade sem nenhum problema. Scorsese sabe como ninguém ocultar alguma coisa - como a face escondida nas primeiras cenas de Frank Costello, o chefão mafioso interpretado por Nicholson - e ressaltar outras na mesma medida, como a similaridade física e conceitual de Billy Costigan e Collin Sullivan (Damon e DiCaprio, respectivamente). Resultado: excelente.

Mesmo estando o mercado meio saturado dessa onda de adaptações de originais orientais, é certo que aqui a coisa andou bem. No mundo do suspense e do terror é que não dá para agüentar mais o esgotamento do filão (O Chamado, O Grito, The Eye, Água Negra e tantos outros). Já aqui o roteirista William Monahan - que antes só tinha feito o script de Cruzada - garantiu que nem assistiu o original para adaptar o enredo de Os Infiltrados. E fez um bom trabalho. O jogo de caça de gato e rato é mais intenso do que o comum, com troca de focos de ação constante e cortes rápidos de diálogos de bandidos para os diálogos de mocinhos, e assim por diante. Aliás, a infiltração do título, que é o mote para todas as intrincadas relações entre as pessoas e as ''corporações'' de Boston (considerado a máfia irlandesa uma delas), passam a ser um verdadeiro show de quebra-cabeças, caindo na tradicional - mas não previsível - confusão de papéis. Quem é o bom e quem é o mal? Di Caprio, que se torna um verdadeiro ator nas mãos de Scorsese (vide Gangues de Nova Iorque e O Aviador), interpretando o ex-policial com problemas na ficha que vai preso propositalmente para entrar no mundo do crime e ganhar a confiança da máfia que domina a cidade. Damon é o garoto que recebe ajuda desde pequeno do mentor chefão do crime. Acaba virando um condecorado policial, a serviço dos criminosos. No entanto, o espectador se divide para escolher ao lado de quem ele fica. A troca de posições segue constante até o final, quando o filme trata de resolver tudo muito bem, sem surpresas, mas sem lugares-comuns.

Embora a direção seja qualificada (afinal o homem assinou Os Bons Companheiros, Cassino, Taxi Driver , etc) e o roteiro perfeito, o elenco é realmente o grande destaque: coadjuvantes de primeiro quilate entram em cena, um a um, com força e impacto. Alec Baldwin, gordo e desajeitado, é o diretor da Unidade de Investigações Especiais, onde vai parar o infiltrado de Costello. Martin Sheen, reaparecendo nas telas, é o capitão que contrata o policial para ser infiltrado na quadrilha dos mafiosos. Sheen diz ter aceitado o papel antes mesmo de ler o roteiro. Anthony Anderson não se destaca muito, mas não faz feio como um tira do departamento, para quem trabalhou toda a vida em comédias escrachadas. A boa atuação da pouco conhecida Vera Farmiga (vinda do cinema independente e escalada para uma série de produções ainda não lançadas), uma psicóloga da polícia que acaba se envolvendo com os dois espiões - Sullivan e Costigan, num triângulo light que não havia no filme original. Também não constava em Conflitos Internos o personagem do sargento interpretado por Mark Whalberg, aliás, talvez o único erro da escolha de elenco. O personagem é bom e necessário: um chefete arrogante que quer exigir dos infiltrados o melhor, provocando-os ao máximo, mas o ex-astro da música não é qualificado para o papel. Era melhor um ator daqueles que encarnam bem os ''nojentões'', como Harvey Keitel, Sean Penn ou Steve Buscemi. Até talvez Jason Statham, econômico nas palavras, poderia ser mais adequado.

Há que se abrir um parágrafo especial para o mestre Jack Nicholson, que consegue se recuperar e mostrar que é grande demais para ser condenado por recentes bobagens como Tratamento de Choque. Ele é definitivo em si mesmo, construindo um chefão irlandês inescrupuloso, repugnante, violento e magnético. É a reunião de diversos personagens, parecendo mesmo que o veterano ator coletou alguma coisa de cada um de seus grandes papéis. Meio louco, como em Um Estranho no Ninho e O Iluminado, ele também tem algo do desalinhado de As Confissões de Schmidt, do neurótico de Melhor é Impossível, a crueldade do assassino de A Honra do Poderoso Prizzi e a personalidade malévola do diabo em pessoa, como em As Bruxas de Eastwick. Além da soberba natural que lhe é intrínseca. Com as mãos ensangüentadas no meio de uma execução, brincando com um ''consolo'' dentro de um cinema pornô ou fazendo uma festinha particular com uma bacia de cocaína, não poderia haver ninguém melhor do que este novaiorquino de Manhattan para viver o pivô desta história. E curiosamente, é a primeira vez que ele e Scorsese (outro novaiorquino, mas do Queens) trabalham juntos.

Com uma trilha saborosa que vai de Beach Boys a Rolling Stones, passando por outras menos conhecidas, o filme ainda cresce com a ambientação na cidade de Boston, uma cidade populosa e antiga, com prédios decadentes e ruas desertas. Numa rápida cena aparece um bairro residencial que nos remete a outro bom policial, Sobre Meninos e Lobos, passado no mesmo lugar. Mais um bom punhado de homenagens, citações (até mesmo ao original Scarface de 1932, que mais tarde Brian de Palma refilmaria) e viradas no roteiro com classe, o filme é daqueles que tem vários finais, mas todos interessantes e superiores um ao outro. Não é o melhor do cineasta, mas não deixa por menos. E mais: ele realizou mais um filme sobre máfia desta vez sem Robert De Niro!

 
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