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Cena de Cinema
por Renato Martins

Intragável
Agora entendo porque Stallone ficou cinco anos sem filmar


Já estava tudo acertado: eu iria escrever sobre "O Jantar", primoroso filme do italiano Ettore Scola, uma pequena obra-prima do cinema, como era de se esperar do mesmo diretor de "O Baile". Até porque há meses que queria escrever aqui no ADORO CINEMA sobre um filme bom, ao invés de só descer a ripa em produções "cachorras". Foi então que cometi o delito: fui pela última vez ao cinema em 2000, ver "O Implacável", novo filme de Sylvester Stallone. E então venho a público alertar os espectadores para mais uma bomba cinematográfica: o filme é, certamente, uma das piores coisas já vistas. Quase desbancou "A Reconquista", a ficção classe Z de John Travolta. E tornou-se mais uma vez impossível não escrever sobre um filme ruim, de tão terrível que é. Um certo sentimento samaritano tipo "cuidado, pessoal" que eu tenho e não consigo frear.

O mesmo homem que eternizou no cinema (e ficou rico) as figuras de "Rambo" e "Rocky" nunca esteve tão mal. Até porque já vimos Sylvester atuando razoavelmente em filmes fracos ("Pare, senão mamãe atira" ou estou sendo muito condescendente?) ou representando terrivelmente em produções mais interessantes ("Copland"). Tudo bem, não vamos citar "O Especialista" para não piorar a situação. Mas depois de amargar mais de cinco anos em estúdios, com roteiros debaixo do braço e sem fazer um filme sequer, o fortudo entrou numa furada. Será que foi desespero? De qualquer maneira, levou muita gente junto. "O Implacável" é uma refilmagem de um policial de 1971 que tinha Michael Caine ("Regras da Vida") e que conta com o próprio numa ponta, no papel de vilão. Pior: o filme ressuscita Mickey Rourke ("Nove e meia semanas de amor"), revivendo seus tempos de boxeador, fazendo – claro – o tipo briguento. Bem, num filme com dois bandidões, Stallone é o mocinho, certo? Errado. Ele é Jack Carter, uma espécie de "quebra-galhos" de um poderoso ladrão de Las Vegas, usando armas e músculos para lembrar os clientes de cumprirem suas promessas. Quando o seu irmão morre, Carter vai a Seattle para o enterro e começa a investigar o caso, sob protesto da família, que o culpa por ter abandonado o lar para se graduar na faculdade da banditagem. Será que o roteiro até aqui está complicado demais para Stallone?

O molho estético do filme até é interessante, com o diretor Stephen Kay ("Mod Squad") usando influências de Quentin Tarantino e David Fincher (de "Seven"), mas o resto é lixo. Stallone não tem culpa de ser mau ator: se ele é bom na porrada (e as cenas menos sonolentas são essas), então que se dedique a isso, ou se cerque de gente melhor – ou os dois! O problema é o roteiro, que une todos os chavões possíveis do cinema com diálogos inverossímeis e cenas inacabadas. Frases evasivas como "pois é", "eu também" ou "eu não sei" são freqüentemente utilizadas para fechar as conversas e passar para a tomada seguinte. Abominável. Um super-8 de estudantes de cinema em qualquer lugar no mundo dá de dez a zero. O tal de Carter a certa altura diz para Rhona Mitra, que interpreta uma misteriosa prostituta: "eu vou quebrar cada osso do seu corpo". Romântico, não? Mais outra: a relação com a sobrinha não é das melhores, pois o pai dela morreu e o tio é um bandido que sempre desprezou a família. Ele se dá conta disso, e tenta ser amigo. Não consegue. Na cena seguinte, a garota vai visitá-lo no hotel. Não era tudo que ele queria, já que estava tentando se aproximar? Não. Ele diz: "não é uma boa hora para conversarmos".

Chega o momento em que o policial vira comédia. Os diálogos são risíveis, de tão ridículos. Mickey Rourke dá um pau em Stallone, mesmo com a metade dos braços do segundo. E ainda diz: "você continua sendo o mesmo perdedor de sempre? Eu sou bem-sucedido". Em tempo: Rourke "trabalha" com pornografia na internet – elemento contemporâneo da refilmagem. E assim vai...

Coitado do garanhão italiano. Depois do ostracismo, qualquer um que precise pagar a prestação da limusine em Hollywood deve cometer esse tipo de tragédia. E ainda colocaram-no num modelito de amargar: um terno brilhoso com gravatas coloridas, cavanhaque e franja (!!!). Mais: o rosto do ex-lutador já exibe as marcas do tempo. Suas feições estão massacradas. Não se sabe se é pelo tempo que ficou sem trabalhar ou se é pelo sacrifício que está fazendo. Para completar, "Get Carter" estréia sem estardalhaço algum, com marketing fraco e quase despercebido ao lado de produções como "O Sexto Dia", de Arnold Schwarzenegger, seu principal concorrente.

E assim encerrei mal o ano, talvez porque tenha nutrido alguma expectativa por essa "volta" de Stallone. Quem sabe ele retorne aos tiros e porradas com mais classe? Lembram de "Tango e Cash", por exemplo? Foi divertido! Mas tudo bem: vem aí mais doze meses de muito cinema pela frente. E bom 2001 para os leitores e visitantes do ADORO CINEMA.
 
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