Presente
Finlandês
A simplicidade e
a despretensão auxiliam o verdadeiro cinema
Nós,
comentaristas de cinema e webmasters de sites especializados
em cinema, adoramos fazer relações entre os
filmes. Alguns de nós chegam a sugerir ''se você
gostou desse filme, vai gostar também de...'' - a velha
tática de indicar ''filmes relacionados''. O
Homem Sem Passado, exibido no Brasil durante o Festival
do Rio BR e colhendo estranha recepção, não
pode ser comparado a nada. De tão despretensioso, não
lembra nada antes feito nem mesmo se assemelha a uma cinematografia
X ou Y. Poderíamos, com muito boa vontade, dizer que
lembra em algum momento o ritmo do cinema francês mais
recente - e igualmente sem pretensões. A história
parte de uma violência, mas com simplicidade narra as
desventuras de um homem (Markku Peltola)
que acaba de chegar de trem na estação de Helsinque,
vindo de uma outra pequena cidade finlandesa, e que é
assaltado e espancado por três bandidos, perdendo a
memória e o orgulho. É por causa das fortes
pancadas na cabeça que ele fica totalmente desmemoriado,
sem lembrar nem do próprio nome e de sua história
- nem sequer o nome daquela pequena cidade de onde veio. Esse
início quase noir parece nos levar para uma história
de mistério, de um homem sem rosto, num cenário
de pouca iluminação e cores pardas. Mas não
é nada disso que acontece. Aliás, em todo quadro
da película finlandesa do cineasta Aki Kaurismäki
não se sabe o que vai acontecer. E o melhor é
que não acontece mesmo. Não deu pra entender?
A trama é natural, simplesmente flui, um acontecimento
depois do outro. Como na vida real.
O passado
do protagonista que não conseguimos desvendar passa
a ser o menos importante: o homem sem nome acaba sendo gentilmente
acolhido por família de sem-tetos (que na verdade vivem
em contâneirs, revelando o lado pobre da capital finlandesa).
Quando aos poucos vai tentando reconstruir sua vida, se envolve
vagarosamente com uma ativista do Exército da Salvação,
a retraída Irma, interpretada pela ótima Kati
Outinen. A história viaja por situações
inusitadas, desde o romance dos dois, passando pela engraçada
revitalização do grupo musical do Exército,
até os conflitos daquela comunidade de miseráveis
que lutam contra a fome, a violência e a burocracia
do país onde vivem. A sobriedade do velho mundo somada
à falta de referências de um povo sofrido se
traduzem na tela de O Homem sem Passado.
Um retrato de poucas cores mas muito significativo de uma
nação dividida entre o desenvolvimento e o atraso,
entre o rico e o pobre, entre o desprendimento e a tradição.
Em última instância - e talvez o cineasta Kaurismäki
nem tenha pensado nisso -, a história do homem desmemoriado
é também a história de seu país,
incrustado na região nórdica da Europa, que
eternamente luta para alcançar suas posições
de destaque econômico, social e político dentro
da comunidade européia.
O fato
de Cidade de Deus ter sido eliminado da competição
do Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro, parece
explicar uma rejeição natural aos outros candidatos.
O filme de Kaurismäki sofreu isso na pele, principalmente
nas críticas brasileiras. Li em algum lugar que o filme
não se define entre a ''comédia, drama, sátira,
alegoria ou simplesmente um filme ruim''. Injustiça.
Há muito tempo que não precisamos mais assistir
filmes com fórmulas prontas, com gêneros definidos
e orientações definidas.
A indefinição
é principal ingrediente de O Homem Sem Passado.
E esta é delícia de assistir o representante
finlandês. O elenco tem maravilhosos momentos, que inclusive
rendeu os prêmios de atriz para Kati Outinem. A fita
também recebeu o Grande Prêmio Especial do Júri,
prêmio Ecumênico (dado por grupos religiosos),
além de na própria Finlândia ganhar seis
Oscars locais (inclusive filme e atriz). O ''pecado'' do diretor
foi mostrar (a dura) realidade, e para isso usou histórias
simples e atores sem beleza para filmar. O fato de usar um
elenco a partir de um povo com traços crus, sem modelos
e estrelas de Hollywood, ajuda crescer o preconceito contra
a produção.
As críticas
internacionais é que saudaram o diretor, que está
sendo festejado por mais essa realização. Desprovidos
do preconceito tupiniquim e da aura americanista que está
impregnada em nosso modo de ver cinema, talvez os colegas
lá fora tenham sido mais justos com a obra. Este filme
vale muito mais do que foi gasto com ele, em valor financeiro
e artístico. Ao contrário de tantos, que nos
deixariam ricos se pudessem se comprados pelo que realmente
vale e serem vendidos por quanto seus realizadores - e principalmente
produtores - acham que vale. Saúdo, também,
a chegada do filme no Brasil. Fazia tempo que não víamos
algo tão despretensioso em exibição.
Talvez essa seja a maior qualidade de O Homem...,
ou o pior defeito dos outros filmes que tomam conta das bilheterias:
são pretensiosos demais. E aí falta talento
para tanta promessa.
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