|
 |
|
| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Como é Duro ser Super-herói
Sam Raimi consegue fazer uma boa aventura sem as obrigações
de um primeiro filme
Há
filmes que afundam na continuação. Tem outros
- mais raros - que superam o original. Há uma terceira
categoria que consegue repetir a mesma qualidade em suas continuações,
quase sem diferenças. Há um detalhe, porém
que beneficia o segundo episódio: tudo o que temos
que saber sobre os personagens já foi colocado, deixando
livre a segunda parte para contar uma história sem
amarras, com todo o tempo de um longa-metragem para apresentar
ao espectador novas emoções. Foi o caso de O
Senhor dos Anéis - aquele polêmico filme
que eu não gostei -, que em seu segundo capítulo,
As
Duas Torres, a trama foi bem mais eficiente e menos teórica
do que o primeiro, naturalmente obrigado a mostrar a comunidade
Tolkieniana aos avisados e desavisados.
Assim
é Homem-Aranha,
que tal como J.R.R. Tolkien, tem um pai (Stan Lee) por trás
e toda uma legião de fãs nutridas de informação
vinda dos quadrinhos. Não é preciso dizer muito,
só mostrar o herói pulando de edifício
em edifício e prendendo criminosos. No entanto, o diretor
Sam Raimi foi inteligente e optou por mostrar desde o princípio
os muitos detalhes do surgimento do herói, e de todos
os personagens e seus traumas. Por isso, em 2002, o filme
foi eficiente, contendo ação e efeitos, mas
ainda assim preso a ter que contar o nascedouro de todas as
situações. O mesmo Raimi livra-se deste compromisso
com louvor na produção que ganha as telas de
todo mundo agora: Homem-Aranha
2 tem a mesma técnica de direção
eficiente e precisa, mas sem muito arroubos - e eles parecem
não fazer falta.
Os pulos
do herói parecem menos exagerados e menos digitais
- mérito da equipe de efeitos especiais. O drama que
vive Peter Parker, dividido em exercer o combate ao crime
e ser uma pessoa normal, entregando-se ao amor de Mary Jane,
é acentuado e passa a ser a tônica do segundo
filme. Num certo momento, o jovem fotógrafo chega a
jogar fora a roupa de herói.
Eu continuo
achando que Tobey Maguire não é nem nunca foi
o melhor ator para o papel, mas neste segundo filme a gente
se acostuma - ou ele está mais à vontade. Consegue
defender com leveza a necessidade de mais humor, exigida pelo
roteiro bem mais irônico. A cena do elevador, quando
o Aranha perde os poderes e tem que descer vários andares
como uma pessoa comum, arranca gargalhadas da platéia.
O trocadilho de "I'm Back" ("Eu estou de volta!) e "My back"
(Minhas costas) também funciona inteligentemente a
certa altura, embora em inglês. É bom esse desprendimento
dos roteiristas de ridicularizarem, por vezes, a condição
de super-herói. Isso aconteceu superficialmente em
adaptações como Superman
e Batman,
e mais recentemente em trechos pontuais do roteiro de X-Men
1 e 2. É bacana que seus autores, como Stan Lee, entendam
essa necessidade de auto-crítica e passam a ser cúmplices
diretos - no caso de Lee, até pontas faz no primeiro
e segundo filmes.
Kirsten
Dunst é insípida como a mocinha do filme, mas
não é sua culpa. O papel não lhe dá
muitas asas pra voar. Ela já provou ser versátil
no excelente As
Virgens Suicidas e no recente O
Sorriso de Mona Lisa, onde interpreta a menina má
da sala de aula. Aqui, comportada e contida, não deixa
sua beleza simples (que eu chamaria mais de "graça")
aparecer. Bom mesmo é Alfred Molina, que eu já
elogiei aqui mesmo no site por Túmulo
com Vista, e quem diria, vira um vilão competente.
Há mais espaço para os coadjuvantes, como Harry,
o amigo de Parker, interpretado por James Franco. O chefe
da redação do Clarim Diário (J.K. Simmons)
também está mais perfeito, com texto afiado.
E os efeitos, como sempre bons coadjuvantes, aqui estão
menos exagerados, fixando-se mais nas garras do Dr. Octopus
e em carros voando pela rua de Nova York.
O que
fica, ao sair de exibições lotadas de filmes
de aventura como este, é uma reflexão sobre
a magia dessas histórias de heróis. Uma raça
de gente abençoada por poderes mas amaldiçoada
por excesso de deveres. Deprimidos e pensativos, agem quase
que por instinto e vivem uma vida triste. Nesta continuação,
Parker quer confessar à sua amada que é, secretamente,
o Homem-Aranha. Mas teme que se seus vilões descobrirem
sua relação com Mary Jane, ela pode estar em
perigo. Por outro lado, ignorar a condição de
salvador da pátria e assistir passivo a criminalidade
aumentar 75% em Nova Yorké impossível. Que vida
terrível, essa, hein? |
|
| |
|
| |
| |
| |
|
|
 |