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Cena de Cinema
por Renato Martins

Quero Ser Harvey Keitel
Porque o ator é um dos melhores de sua geração


Há atores que fazem sempre o mesmo papel, e são sempre bons. Funcionam. Tarcísio Meira ou Bruce Willis, por exemplo, são eficientes, e nunca arriscam outro tipo de interpretação. São canastrões carismáticos. Jack Nicholson, Anthony Hopkins e Lima Duarte, por outro lado, já são de um outro time: também insistem numa mesma fórmula, porém, criada por eles - e não faz a mínima diferença que não variem de estilo. Dão um show completo quando entram em cena e só nos damos conta que algo grandioso faz falta do filme quando eles desaparecem da tela. É um tipo raro de gente que faz a tela brilhar, ao mostrar uma interpretação tão natural, segura e ao mesmo tempo incrivelmente caricata. Afinal, nem todos os dias nos deparamos com pessoas como Zeca Diabo ou o demônio de As Bruxas de Eastwick. Elas existem, têm componentes humanos, mas não são óbvias nem comuns.

Um sujeito nada óbvio é Harvey Keitel, novaiorquino de 61 anos, que teima em aceitar papéis diferentes do trivial, evitando uma carreira repleta de mediocridades e mesmices. Pra começar, Harvey não para: nos últimos dois anos, esteve envolvido em 16 projetos para televisão e o cinema. Hábil para interpretar papéis discrepantes, ele já foi juiz, policial, ladrão, mafioso, exorcista, assassino, desempregado... Em muitos filmes, interpreta ele mesmo, em aparições às vezes nem creditadas, como foi o caso de O Nome do Jogo (1995), filme que falava justamente dos bastidores de Hollywood. O fato de ter sido elogiadíssimo por sua atuação em O Piano (1993), não o fez recusar papéis relativamente menores, como em Cop Land (1997) e O Mistério de Lulu (1998). Seu jeitão calmo, durão e quase sempre aparecendo como um fumante inveterado, se repetiu ao longo de obras não previsíveis. Wayne Wang o captou em Smoke - Cortina de Fumaça (1994) e em Sem Fôlego (1995), Quentin Tarantino teve a honra de tê-lo em Pulp Fiction (1995), o controvertido Abel Ferrara o colocou ao lado de Madonna em Dangerous Games (1993). Filmes que não podem ser taxados de comuns. Nem todos foram sucessos, muitos se tornaram cults, outros estão na prateleira dos "perturbadores". Mas todos com a marca indelével de Keitel.

Harvey foi Judas em A Última Tentação de Cristo (1988), atuou em Taxi Driver (1976), trabalhou como figurante com Marlon Brando e Elizabeth Taylor no início de carreira e nunca precisou ganhar um Oscar, e tem procurado, em seu currículo, fugir do círculo vicioso que Hollywood impõe e transforma tanta gente boa em cyborgs de 20 milhões de dólares (muito mais caros do que Steve Austin, diga-se de passagem). Com uma predileção pelos road-movies, esteve no cult Thelma & Louise (1991), Um Drink no Inferno (1996) e mais recentemente, no excelente Um Estranho Chamado Elvis (onde ele interpreta um homem que diz ser o próprio rei do rock) e no delirante Fogo Sagrado (Keitel novamente dirigido por Jane Campion, de O Piano), películas onde o sessentão também come muita poeira. Pra confirmar seu hábito de filmar fora do circuito americano, também estrelou neste ano a produção vietnamita (!!) Três Estações.

Bem...atualmente ele está em cartaz nos cinemas brasileiros com um filme mediano chamado U-571 - A Batalha do Atlântico, e amigos como Jack Nicholson já o levaram para indiadas como A Chave do Enigma (1990). E também há duas grandes perdas em sua carreira: Martin Sheen o tirou da jogada em Apocalypse Now e Sidney Pollack fez o mesmo em De Olhos Bem Fechados. Coppola e Kubrick - os diretores - assim quiseram. Mas isso é muito pouco para desfazer Harvey. Um ator que deve ser admirado pelo seu trabalho, respeitado pela sua força e no mínimo, pela idade avançada, que é totalmente culpa dele: esperou 26 anos para responder um anúncio no jornal da New York University colocado por um diretor caça-talentos. Seu nome? Martin Scorsese. Por essas e por outras que estou enviando um e-mail para Spike Jonze, diretor do divertidíssimo Quero ser John Malkovich, para lhe dar uma sugestão de continuação.
 
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