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Tô
Com Sono, Pai!
Único
erro de Chris Columbus foi exagerar na dose
As
primeiras críticas que li da imprensa sobre Harry
Potter estavam certas: o grande erro - e talvez o único
- da adaptação cinematográfica do livro
de sucesso da escritora escocesa J.K.Rowling seja a
duração. É longo demais. Duas horas e
meia, ou quase isso, são demais para qualquer criança
agüentar numa sala escura sentada numa poltrona observando
as estripolias do menino mago. E a restrição
vale para gente de 8 a 80 anos, pois o filme também
é longo demais para adultos suportarem uma história
infanto-juvenil recheada de fantasia e efeitos, por mais bem
feita que ela seja. Há aqueles que acham ser arrastada
a parte inicial do filme, outros cansam rápido ao final.
A verdade é que Chris Columbus (Esqueceram
de Mim) e sua turma não precisavam de tudo isso
para marcar presença. Tinham uma boa história,
dinheiro e talento para fazer uma grande produção
- e não uma longa produção. Um verdadeiro
pecado, se lembrarmos que Chris começou sua
carreira como roteirista de filmes como Os Goonies.
Mas sejamos
complacentes. Harry Potter é um bom filme. Ótimo
para deleitar-se, entregar-se às fantasias juvenis,
que lembram Peter Pan, Sininho e o Capitão
Gancho, até nossas fábulas modernas como
O Tigre o Dragão e Matrix, referências
de aventura de 9 entre 10 adolescentes hoje em dia. É
claro que 80% do resultado do filme se deve ao fato de que
a escocesa Rowling escreveu, com maestria, uma bela
história. Aliás, escreveu cinco delas e a segunda
já está na mão do mesmo diretor para
seguir sua senda de vitórias. Os livros - os quatro
que chegaram ao Brasil - fizeram um sucesso estrondoso e preparou
a cama para a versão de celulóide contabilizar
números igualmente assombrosos: 93 milhões de
dólares no fim-de-semana de estréia, por exemplo,
batendo fitas como Parque dos Dinossauros 2, detentora
do recorde até então. O filme continua, em sua
terceira semana em primeiro lugar de bilheterias rumo aos
150 milhões de dólares, o custo de sua produção.
Na pele
do menino-mago do título está Daniel Radcliffe,
que veio de séries de TV da BBC e mostra um belo desempenho
de interpretação e um potencial para fazer frente
a outros de sua geração, como Haley Joel
Osment, de O Sexto Sentido (que foi o primeiro
a ser cogitado para o papel). Selecionado entre vários
candidatos, o menino foi vencedor e se saiu bem na história
do bebê abandonado, filhos de pais magos, que acaba
sendo criado por outra família e, aos 11 anos, recebe
o convite para freqüentar a escola de bruxos, onde comprova
ter os poderes que sempre sonhou. É óbvio que
a história, além de encantar qualquer criança,
materializando os desejos de viver uma aventura juvenil, vai
agradar adultos também, que no íntimo alimentam
desejos de transformação, de mudança,
de ousadia.
O livro - e por conseqüência o filme - também
funciona porque misturam ingredientes básicos de qualquer
conto de fadas, desde o mais clássicos como o Patinho
Feio e Pinóquio até os elementos
de pseudo-violência de Guerra nas Estrelas, por
exemplo. O quadribol, o jogo disputado pelas crianças
da escola de magia é nitidamente um filão para
o lançamento de games e jogos de computador e se caracteriza
como a parte bélica da aventura. A concorrência,
a luta e a disputa estão presentes também em
Harry Potter, por mais singelo que ele possa se apresentar.
O diretor
Chris Columbus não teve muito trabalho com seu
grupo de atores, pois trabalhou com atores ingleses experientes
e camaleônicos como Richard Harris - sereno e
competente aos 71 anos -, Maggie Smith, de filmes como
Assassinato por Morte, Hook e Mudança
de Hábito, John Cleese - oriundo da turma
de Monty Phyton - no papel de fantasma, e Alan Rickman,
que recentemente foi o brilhante anjo decaído de Dogma.
Sem falar no elenco infantil, que já revela no mínimo
mais um trio com futuro na sétima arte: o vilãozinho
Tom Felton, a mocinha Emma Watson (teatral demais,
mas uma graça) e o cara-de-babaca Rupert Grint.
Aliás, quase todos estão confirmados para acompanhar
Columbus em Harry Potter e a Câmara Secreta,
a adaptação do segundo livro de Rowling
para o cinema.
Feitiços,
magias, vassouras que voam, fantasmas engraçados, monstros
horrendos que saem de livros e todos os ingredientes possíveis
e imagináveis estão encaixados com maestria
no roteiro de Harry Potter e interagindo muito bem
entre si. Sem quedas nem ápices, o ritmo segue eficiente
até o seu final, só pecando mesmo em sua extensão:
tudo poderia ser resumido e um programa de uma hora e meia
ou uma hora e quarenta seria muito mais perfeito. Mesmo assim,
Steven Spielberg deve estar se perguntando se fez mesmo
a coisa certa ao desistir de dirigir o filme para abraçar
o projeto Inteligência Artificial... |