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Cena de Cinema
por Renato Martins

Humor com Manual
Adaptação dos livros de Douglas Adams traz universo muito específico


É de bater palmas para a criatividade da história, superando em muito tudo o que normalmente se produz no gênero comédia-ficção científica - que, aliás, é um gênero extremamente raro. Mas deve-se à genialidade do falecido escritor Douglas Adams, e não aos produtores do filme. Foi ele quem escreveu os livros e inspirou as séries (inclusive de rádio) que sustentaram os personagens em torno do tal guia. É óbvio que ao vermos na tela grande toda a baboseira divertida escrita por Adams (a quem o filme é dedicado), o entretenimento é garantido. Os tipos são tão consistentes que arrancam aquele riso gostoso, sutil, nada escrachado nem gargalhado.

Esta comédia diferente traz um tipo de humor contido e diferente, bem próximo do grupo inglês Monty Phyton - mas muito distante dele. Há cenas no ambiente futurista que lembra, por exemplo, Brazil - O Filme. Mas é apenas uma referência. O inglês ''bundão'' (Martin Freeman) sacado de seu mundo para ganhar os sistemas solares ao lado do amigo extraterrestre que lhe salvou (o rapper Mos Def, muito bem em cena), e que só quer um bom chá, contrasta com alienígenas malvados, como o insano presidente das galáxias vivido por um afetadíssimo Sam Rockwell. Mas bom: irritante e desprezível, mas bom. Mas os risos mais proeminentes virão das falas de Marvin, um robô depressivo com um cabeção desproporcional e com a voz do ótimo Alan Rickman. Outras pontas interessantes são de John Malkovich e Bill Nighy.

Mas o humor criativo e inteligente dos livros poderá ser a morte de O Guia do Mochileiro... no cinema. Não são piadas comuns que o espectador encontra ao longo do filme. Quem quer humor fácil e digestivo não vai entender as piadas. Umas parecerão bobocas demais, outras sem graça. Quem procura cinema pipoca entre estrelas e naves espaciais, por exemplo, vai se dar mal. O filme é mais do que isso, busca entre pitadas de filosofia e de ciência bagunçar com o pensamento da humanidade e satiriza a própria Terra. Talvez seja inteligente demais, mas não creio que esse seja um problema para o filme. O problema é ser criativo em excesso, e perder em si mesmo o fio da meada. Da metade em diante tudo parece perder o fôlego e já não se torna tão interessante.

Outro problema que incomoda um pouco o espectador é a solução encontrada para não se perder nada na tradução - e talvez não houvesse alternativa - mas temos um José Wilker como narrador, falando em português, enquanto os personagens falam inglês britânico com legendas. O tom de Wilker irrita um pouco. É uma mistura estranha, mas que realmente talvez não tivesse outra saída, para evitar legendas muito longas na tela. Mas com a dublagem perdemos a voz do londrino Stephen Fry (da música de Zeca Baleiro Por onde Andará Stephen Fry?, ele está por aqui...). Enfim, o filme é bem intencionado. Mas de boas intenções a galáxia está cheia, não é?
 
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