Gramado
- Um Olhar Crítico
Latinos demonstram leve
vantagem sobra a produção brasileira
Não
parece ser um ano muito bom para os brasileiros em Gramado,
cidade da serra gaúcha onde acontece todos os anos
o mais importante Festival de Cinema Brasileiro - por mais
que ele duele essa posição com o Festival de
Brasília. Na edição de 2003, os filmes
latinos demonstraram uma superioridade visível (e assistível)
sobre os brasileiros. Decorrência, talvez, da profícua
produção tupiniquim, que apresenta tantos produtos
ao mesmo tempo ao mercado que não sobre muito mais
para os festivais. Muitos diretores e produtores optam por
ir aos cinemas logo, ao invés de manterem seus filmes
inéditos para os certames. Decisão financeiramente
acertada, mas que esvazia os grandes eventos como Gramado.
Querem exemplos? O ótimo e elogiadíssimo Amarelo
Manga, de Cláudio Assis, não pôde
estar no Festival, comprometido com outras disputas nacionais.
Outro: O Homem que Copiava, do gaúcho
Jorge Furtado, pronto desde o primeiro semestre desse ano
e que não conseguiu esperar o festival da sua própria
terra.
Aliás,
o representante gaúcho em Gramado 2003, Noite
de São João, direção
de Sérgio Silva (Anahy de Las Missiones),
foi uma decepção: adaptado de uma peça
teatral sueca de 1888, o filme conta histórias de amor
e paixão em meio a tradições das festas
de São João no sul. Calcados nos estereótipos
da tradição gauchesca e protagonizado por Marcelo
S, Fernanda Rodrigues e mais um grande elenco gaúcho,
capitaneado por Araci Esteves, o filme não empolgou
crítica e platéia. Só ficou acima do
decepcionante Dom, adaptação
moderna do clássico de Machado de Assis, "Dom
Casmurro", que foi vaiado no meio da projeção.
Pudera, o diretor embora com uma grande idéia na mão,
não estreou bem no cinema: Moacyr Góes, que
veio do teatro e da televisão, tinha dirigido antes
a novela Laços de Família (!). O triângulo
amoroso clássico do livro foi vertido para tela com
Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido e Bruno Garcia,
mas deixando os atores pouco a vontade.
Simpático
e divertido (mas só isso), Apolônio Brasil
foi apresentado em Gramado pelo seu diretor Hugo Carvana,
que já ganhou kikitos bem no início da história
do Festival, em 1972, com o clássico Vai Trabalhar
Vagabundo. Carvana levou o filme mais alegre da competição
e acabou ganhando um prêmio de "consolação",
ao receber o prêmio especial do Júri. A fita
mostra a história de um jovem escritor que tenta resgatar
o cérebro do próprio pai já falecido,
um música famoso dos anos 50 e 60 (vivido por Marco
Nanini). O filme traz uma bela trilha de músicas dessa
época de ouro da MPB e é também o último
trabalho do gaúcho José Lewgoy, que interpreta
um cientista maluco, e talvez tenha sido o motivador do prêmio
especial para a produção. Tipicamente carioca,
o filme diverte por Nanini e também pela presença
de Louise Cardoso, Antônio Pitanga, Jonas Bloch, Marcos
Paulo, Silvia Bandeira, etc.
Do paulista
Ricardo Elias veio a melhor surpresa do Festival: o longa
De Passagem. Assim que foi exibido, críticos
e especialistas já entraram num clima de "já
ganhou" e a cada dia da mostra competitiva a certeza
que algum kikito iria para o filme. Elias cunhou uma espécie
de Cidade de Deus sem ser videoclipado, apresentando
o mesmo tema de uma forma mais sutil num filme mais reflexivo
e contemplativo. Passado na periferia de São Paulo,
a produção mostra histórias de três
garotos com o nome de ex-presidentes americanos (Washington,
Kennedy e Jefferson), suas histórias de infância
e juventude e seu envolvimento com o tráfico de drogas,
criminalidade e morte. É incrível como um filme
sem gente famosa no elenco ficou cotadíssimo e acabou
sendo confirmado com o kikito de melhor filme, diretor e roteiro.
O público ainda apostou no paranaense O Preço
da Paz, exibido no último dia da mostra, enfocando
a revolução federalista, mas que não
agradou tanto o júri como De Passagem,
mesmo tendo Lima Duarte, Zé de Abreu e outras estrelas
no cast.
Vou me
alongar demais se destacar individualmente os latinos. Mas
o que se pode dizer é que realmente o nível
de qualidade dos concorrentes foi superior aos brasileiros,
e o filme premiado, Los Lunes ao Sol, que
curiosamente também abriu o Festival. O cineasta Fernando
Leon de Aranoa retratou a crise do desemprego no norte de
seu país com uma fotografia e ritmo impecáveis.
É claro que a presença de Javier Bardem (kikito
de melhor ator), um dos mais completos intérpretes
do cinema contemporâneo espanhol (fez Antes
do Anoitecer e Carne Trêmula,
entre outros filmes sensacionais) colabora em muito para o
engradencimento da película. Mas todo o resto também
é bom, e foi considerado levemente superior do que
os seus fortes rivais, como o mexicano Cuentos de
Hadas para Dormir Crocodilos, o competente argentino
Lugares Comunes, e o lindo português
A Selva (do diretor Leonel Vieira, que já
ganhou em Gramado com A Sombra dos Abutres
em 1988) com presença de muitos brasileiros no elenco,
como Maitê Proença, Chico Diaz e Gracindo Júnior.
O uruguaio Coração de Fogo,
exibido no final da mostra, também recolheu simpatia
do público mas sensibilizou o júri, ganhando
apenas um prêmio especial.
Entre
as baixas do Festival, foi uma pena o público não
ter assistido o documentário sobre Paulinho da Viola,
retirado da competição dias antes do evento.
Aliás, a categoria foi mais uma desprestigiada, forçando
a coordenação do certame a fazer mudanças
para o ano que vem (ainda não anunciadas) para que
os documentários se destaquem mais. Também outro
ponto negativo foi a exibição hors-concours
do longa Concerto Campestre, baseado na obra
do escritor Luiz Antônio Assis Brasil, adaptado com
competência pelo cineasta gaúcho Henrique de
Freitas Lima, mas que ficou escondido no Festival com uma
projeção à uma e meia da manhã
e que terminou às três e meia na véspera
da entrega dos kikitos. O melhor teria sido exibí-lo
na noite de premiação, mas há dois anos
que a transmissão de televisão faz "expulsar"
o filme da última noite. Lembro de ter visto ótimos
filmes fora de concurso como Bicho de Sete Cabeças
e Eu Tu Eles, na mesma noite em que os vitoriosos
foram premiados, sem atrapalhar nada - a não ser o
interesse das emissoras de televisão.
Ótimas
e bem-vindas as homenagens para o diretor Cacá Diegues
(do sucesso deste ano nos cinemas Deus é Brasileiro,
e de outros como Tieta do Agreste e Bye
Bye Brasil) e para o ator Milton Gonçalves,
(de filmes como Macunaíma, Eles
não usam Black Tie, Lúcio Flávio,
O Que é Isso, Companheiro? e, mais
recentemente, Carandiru), que no auge dos
seus anos encantou a todos, emocionado, ao receber o troféu
Oscarito. Curiosidade: quem quiser ver o Milton dirigido por
Cacá, que pegue nas locadoras o filme Um Trem
Para as Estrelas, de 1987.
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