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Cena de Cinema
por Renato Martins

Por Trás da Tela
Alguns dos bastidores do 30º Festival de Cinema de Gramado


Estamos no quarto dia de festival, uma quinta-feira ainda com tempo bom, sol durante o dia, temperaturas acima de 18 graus. Mas quando o sol se esconde... o frio volta. E tudo recomeça, mais cedo ainda: a rotina dos jornalistas se altera porque o compromisso é a sessão fechada para imprensa de A Paixão de Jacobina, do diretor Fábio Barreto e produzido pela família Barreto, a mais bem sucedida do cinema brasileiro. O filme passaria à noite, para a grande platéia, em sua primeira exibição nacional pública no Brasil. A produção se baseia no livro Videiras de Cristal, do escritor gaúcho Luiz Antônio Assis Brasil, e que conta a história da líder espiritual Jacobina, que realmente existiu e ocasionou a revolta dos Muckers, no morro do Ferrabraz, na região de São Leopoldo, no Vale do Sinos no Rio Grande do Sul. Letícia Spiller interpreta o papel-título e no elenco ainda estão Thiago Lacerda, Caco Ciocler, Leon Goés e os gaúchos Werner Schunemann, Zé Victor Castiel, Júlio Conti, Antônio Carlos Falcão, Felipe Kannemberg, entre outros. Todo mundo saiu falando mal e foi a notícia do dia. O filme é muito fraco. Problemas de roteiro e direção de atores, onde só se salva a fotografia e a trilha de Jacques Morelenbaum. Uma fonte segura me garantiu que nem o autor do livro gostou, mas ele foi elegante frente às câmeras e aos microfones. Mas deixemos Jacobina para um artigo especial, antes que ele estréie nas telas brasileiras em 30 de agosto.

A tarde ficou pequena depois da entrevista coletiva. Houve a projeção dos curtas gaúchos em 16mm na competição paralela, aos quais não pude ver nenhum, mas me falaram muito bem de Docinhos, de Frederico Pinto e José Maia. Depois do lançamento do projeto do novo filme de Carlos Gerbase, que terá Camila Pitanga e será filmado no ano que vem, tive que ir voando ao cinema. O pit stop? Fiz mais cedo, entre a coletiva e os compromissos de fim de tarde. Só pra variar, cheguei no final do primeiro curta, o paulista O Tempo dos Objetos. Mas na seqüência tivemos a divertida animação O Limpador de Chaminés, que tem a assinatura de produção do já famoso Gustavo Spolidoro. O filme prova que o gênero de animação também precisa, em breve, uma categoria separada de julgamento, como ocorre no Oscar. Cada vez mais aumenta o número de desenhos inscritos no Festival.

Vem a grande surpresa do Festival: Durval Discos, um filme do qual eu não esperava absolutamente nada e me conquistou abrupta e completamente. A obra da diretora paulista Anna Mulayert começa como se fosse um Alta Fidelidade brasileiro, com texto recheado de ótimos diálogos, humor e referências à cultura pop da MPB dos anos 60 e 70. Na excelente trilha sonora produzida por Pena Schimidt desfilam antigas relíquias de Tim Maia, Jorge Ben, Gilberto Gil, Moraes Moreira e Novos Baianos em geral. O Durval do título é dono de uma loja de discos de vinil, vivido pelo ótimo Ary França, que vive com sua mãe (Etty Fraser, forte candidata ao Kikito de atriz ao lado de Débora Falabella) no bairro de Pinheiros, na capital paulista. O filme deixa de ser uma simples comédia com inspiração no mesmo clima do filme de Stephen Frears para virar uma complicada trama policial, com toques de Fellini, David Lynch e Tarantino. E a comédia não pára. É um grande filme.

Depois do intervalo, ainda veio o curta gaúcho O Príncipe das Águas, que passou fora de concurso. Primeiro filme dirigido por Werner Schunemann (o Netto de Netto Perde sua Alma) e narrado por Carlos Alberto Ricelli, sofreu problemas de som em sua projeção mas provou sua boa intenção. Simples, simpático e sem grandes genialidades, o filme lembra o clássico Ilha das Flores, de Jorge Furtado, sem o mesmo talento. Zé Victor Castiel faz uma participação especial e Ricelli escorrega bonito na narração. Não dá força ao enredo, com sua voz pequena e contida. O filme faz-me lembrar que não há curtas geniais em Gramado neste ano até agora, como foi Palíndromo no ano passado e os curtas de Spolidoro há alguns anos. Um jurado segredou que a qualidade estava péssima e a comissão apenas conseguiu selecionar os “menos piores”.

A decisão de passar O Príncipe das Águas e A Paixão de Jacobina fora de concurso demonstra um certo desprestígio de Gramado. Filmes como esses dentro da mostra competitiva dariam mais crédito ao festival, que sempre teve a fama de lançar grandes fitas para o mercado. É certo que deixar um filme engavetado até o Festival significa perder dinheiro. Por isso Gerbase não mostrou seu Tolerância no Festival e nem Furtado com seu Houve uma Vez Dois Verões, que está na mostra paralela. Mas não era o caso de Jacobina, que ficou pronto justamente para o Festival. A família Barreto não quis correr este risco, nem mesmo apresentou-se para debater a produção no dia seguinte, como fazem todas as equipes de filmes concorrentes. A paranóia andou solta durante as exibições-teste. O filme foi exibido em Porto Alegre alguns meses atrás, secretamente, para um grupo seleto de 20 pessoas. Depois disso, sofreu modificações. Uma cena que Letícia Spiller subia aos céus como Jacobina foi cortada. Na quinta, na sessão fechada da imprensa, o colega jornalista Paulo Moreira saiu da sessão no meio não porque não gostava mas sim porque tinha que dar um boletim ao vivo para a sua emissora, a Rádio FM Cultura, de Porto Alegre. O próprio Fábio Barreto tratou de barrá-lo na volta: quem sai, não entra. Lucy Barreto mandou desligar o motor de um gerador, porque estava interferindo no áudio da sala de projeção. E também ordenou que fosse passado óleo de máquina em todas as maçanetas e dobradiças das portas do cinema de Gramado para que não rangessem. Excesso de zelo? Talvez. O público vai decidir quando o filme ganhar o circuito comercial.
 
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