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Gramado
Balzaquiano
Festival de Cinema
Brasileiro e Latino completa 30 anos
São
14 longas, entre 5 brasileiros de ficção, 4
no gênero documentário e mais 4 de origem latina
participando do Festival nesse ano. Mais 14 curtas em 35mm,
10 em 16mm e mais um média-metragem em 16mm. Tudo isso
movimenta a serra gaúcha até o próximo
sábado, quando cineastas, produtores, jornalistas especializados,
atores e atrizes estarão vendo, respirando e discutindo
cinema. Reclamar da crise e falar mal da distribuição
é até um pensamento obrigatório, quase
que uma palavra de ordem. É claro, o Festival é
o momento propício e o fórum adequado para isso.
Vai se lembrar aqui, todo dia, dos primeiros tempos, da censura,
do Cinema Novo, da era Collor que matou o cinema, o ressurgimento
no final dos anos 90 e da fase atual, que é de muita
produção e pouco público. Neste ano a
festa em Gramado vai ser ainda maior e mais nostálgica:
o Festival completa seus 30 anos e vai tentar reunir a maior
parte de seus premiados nesse tempo, no palco do Palácio
dos Festivais. Revivendo filmes polêmicos e marcantes,
premiações históricas, justas e injustas,
a pequena cidade com clima europeu do Rio Grande do Sul vai
virar a meca do cinema por alguns dias.
O Festival
começou com pé direito, com uma segunda-feira
mais quente do que em outros anos. Assistimos um média-metragem
em 16mm, que passa fora da mostra competitiva, chamado Ismael
e Adalgisa, da diretora paulista Malu Martino,
que resolveu retratar as vidas do pintor e filósofo
Ismael Nery, que viveu no início do século XX,
e sua mulher, poetisa, escritora, socialite, política
e jornalista Adalgisa, que faleceu em 1980. Misturando depoimentos
verdadeiros dos filhos do casal e cenas filmadas com primorosa
direção de arte, Christiane Torloni
preenche a tela em suas poucas aparições
e Murilo Rosa impressiona com sua atuação
dedicada. A dupla estava sentada nas primeiras filas do cinema
durante a projeção. O filme cumpre um dever
primordial do cinema: ajudar a contar a história brasileira
e descobrir personagens interessantes para serem mostrados.
Torloni me disse que existem ainda muitas
mulheres para serem retratadas no cinema.
Veio o
curta do gaúcho Alan Sieber para animar
a festa e chocar a platéia. Através da técnica
de animação, sua especialidade, o cineasta radicado
no Rio de Janeiro lança dardos diretamente para os
críticos de arte e os próprios artistas, que
se consideram de vanguarda e experimentais. Com humor negríssimo,
auxiliado pelas vozes e trilha de Edu K,
o homem do De Falla, Sieber
divertiu com Onde Andará Petrúcio Felker?
mas arrancou aplausos pensativos e hesitantes da platéia.
Menos provocador, simples e até ingênuo, foi
o paraense Açaí com Jabá,
de boa qualidade técnica e objetivo certo e definido:
entreter. E conseguiu. E foi bom também ver uma cinematografia
vinda de um estado com pouca tradição na área.
A primeira
parte da noite fechou com o longa chileno Táxi
para Três, uma boa comédia dramática
com roteiro arrasador, mostrando o que vira a vida de um homem
que é coagido a promover assaltos em seu táxi.
De vítima ele passa a cúmplice, terminando em
mente criminosa, até o desfecho bem resolvido. O filme
é de Orlando Lubbert, que largou a
faculdade de arquitetura para se dedicar ao cinema. Depois
de um intervalo, veio a bela Orquestra Brasileira
de Cinema, que foi idealizada pelo maestro gaúcho
Celau Moreyra - que ganhou o Kikito de trilha
sonora no ano passado por Netto Perde sua Alma
- e que executou, além do hino nacional num arranjo
ousado e estranhíssimo, trilhas de alguns marcantes
filmes do cinema brasileiro representado em Gramado: O
Quatrilho, Dona Flor e Seus Dois Maridos,
Eu te Amo e tantos outros.
Veteranos
no palco para receber um troféu dos 30 anos de Gramado,
como José Lewgoy, Walmor Chagas,
Darlene Glória e John Herbert
e os filmes recomeçaram, já bem tarde da noite.
Veio o curta do multi-premiado Gustavo Spolidoro,
que apresentou o seu dramático e sem experimentações
(como ele mesmo definiu) Domingo, com destaque
para a boa trilha, mas que parece ter ficado abaixo de suas
produções anteriores Os Outros
e Velinhas, já “kikitados”
em Gramado. Mas pode ser a sina do cineasta ter sempre que
se superar.
A noite
fechou quase às duas da manhã, com a exibição
do carioca Querido Estranho, do diretor Ricardo
Pinto e Silva, baseado em uma peça de Maria
Adelaide Amaral e com atuação soberba
de todos os atores: Daniel Filho, desde já
sério candidato ao Kikito de melhor ator em longa nacional,
Suely Franco, Ana Beatriz Nogueira,
Mario Schoemberger, Emílio
de Mello e Claudia Netto. É
praticamente a peça filmada, mas o texto e a atuação
fazem a gente esquecer disso. Daniel, que
me disse estar envolvido em vários outros projetos
atualmente, como diretor e produtor, surpreende por estar
tanto tempo afastado das telas e de repente surgir com essa
interpretação impecável. Marque na sua
agenda para ver quando o filme – exibido aqui em Gramado
e ainda não finalizado em seu processo digital –
estiver no circuito comercial.
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