As
Cores de Frida Kahlo
A empreitada de
Salma Hayek valeu a pena ao homenagear sua conterrânea
Pode-se
dizer que o filme Frida saiu vitorioso no
último Oscar. Produção ousada, furou
o bloqueio dos grandes blockbusters e produções
americanas, como Chicago, e chegou a ser
indicada em importantes categorias, como melhor atriz para
Salma Hayek, que está muito bem no papel-título
da pintora mexicana que revolucionou a arte em seu país
e no mundo. Salma, também mexicana, mereceu a indicação
e isso por si só já é um prêmio.
Ainda uma artista menor aos olhos da Academia, a atriz também
mexicana perdeu para Nicole Kidman, o que era previsível,
que figura no aclamado As Horas. Os prêmios
para Frida acabaram indo para maquiagem e
trilha sonora.
O filme
da diretora Julie Taymor (que antes só fez para o cinema
a versão de Titus, de Shakespeare,
com Anthony Hopkins, em 1999) conta fielmente a história
da pintora mexicana Frida Kahlo e sua conturbada relação
com o também pintor de murais Diego Rivera, brilhatemente
interpretado por um gordo e inchado Alfred Molina (ator inglês
de Chocolate), tal como era o famoso muralista.
Frida foi rebelde, misteriosa, de opção sexual
duvidosa e polêmica, e se tornou, depois de sua morte,
um dos principais nomes da história artística
do México. Conceituada e aclamada como pintora, só
pintou retratos seus, em diferentes momentos de sua vida,
quase todos muito tristes, a começar pelo acidente
em um bonde quando adolescente, que a deixou com uma perna
manca para o resto da vida. O filme mostra também que
uma dessas dores era o propagado casamento aberto com Diego,
que na verdade nunca foi algo tão assimilado por ela.
A lente capta de forma admirável o sofrimento de Frida
na busca para ser feliz e a expressão dessa tristeza
através de seus quadros.
O controverso
caso com o político Leon Trostky rende uma ponta de
Geoffrey Rush, transformando a passagem numa seqüência
charmosa do filme, como se fosse um bônus, pois a história
do casal Diego e Frida já rendia um bom filme. Aliás,
o filme é cheio de ''pontas de ouro'': Antonio Banderas,
como um boêmio provocador; Ashley Judd, que aparece
numa dança lesbo-provocativa com Frida, Edward Norton,
como o Rockfeller que contrata Diego no famoso caso do mural
em Nova Iorque, além de Valeria Golino, excelente como
a ex-mulher do pintor mulherengo. Outra boa surpresa do filme
é a quebra da narrativa convencional, utilizando animações
de figuras e fotografias para ilustrar - ou resumir - determinadas
passagens. Destaque para a criatividade do roteiro feito a
quatro mãos, incluindo Gregory Nava, responsável
pela cine-biografia de outra artista mexicana, a cantora Selena,
no filme de mesmo nome em 97.
A trilha
sonora do filme, premiada em Los Angeles com um dos Oscars,
é de autoria de Elliot Goldenthal - que compôs
a bela "Burn it Blue", defendida pelo brasileiro
Caetano Veloso na festa de entregas das estatuetas
Hollywood. A canção (apresentada no Oscar e
gravada na trilha em dueto com a cantora mexicana Lila Downs,
que faz uma ponta no filme) não ganhou o prêmio,
mas o conjunto da trilha foi agraciado, e merecidamente. A
música de Goldenthal é uma molho apimentado
maravilhoso, que pontua a história de Frida e Diego,
quase sem parar (e sem chatear), misturando vários
climas calcados nos ritmos e instrumentos latinos.
O prêmio
que Salma deveria ter recebido é mais por seu esforço
do que por sua interpretação. Ela não
peca em cena, reproduz no rosto a figura masculinizada de
Frida (com exceção da perna manca e retalhada,
que parece ser esquecida ao longo do filme) e ainda nos brinda
com suaves cenas de nus, coisa que os fãs de Salma
irão se locupletar. Mas como eu dizia - sim, o corpo
da baixinha é de tirar qualquer um do caminho -, o
fato dela ter comprado os direitos da história da pintora
e durante os últimos anos ter lutado para concretizar
esse filme, abrindo mão de dirigir ou escrever, dando
lugar a quem sabe, é que merece um prêmio. Se
não fosse por Salma (que vimos menos brilhante em filmes
como As Loucas Aventuras de James West e
Um Drink no Inferno), não estaríamos
assistindo no cinema uma biografia tão fiel de uma
artista tão visceral - por sua obra e sua vida.
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