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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Fantasia, Humor e Diversões no Natal
Filmes de fim de ano apostam nos mais variados estilos
para atrair espectadores
Como em
todo final de ano, pipocam nos cinemas filmes no clima natalino.
Neste ano, embora menor, o cardápio está variado.
Um dos primeiros a estrear foi o drama Anjo
de Vidro, filme de estréia do ator Chazz Palminteri
como diretor, que não se saiu mal nesta eficiente e
curta história ambientada em meio a temporada das festas
de final de ano. O enredo gira em torno de um grupo de amigos
que, por suas dificuldades pessoais, não conseguem
vivenciar o espírito natalino na dose certa, buscando
agenda entre os compromissos nas vésperas do Natal
para poder repensar suas vidas. O próprio Chazz está
em cena, que se cercou bem em sua primeira produção
e escalou muita gente conhecida - e amigos pessoais - como
Penélope Cruz, Paul Walker, Susan Sarandon, Robin Williams
e Alan Arkin no elenco.
Revolucionário
é O
Expresso Polar, de Robert Zemeckis, que se gaba de exibir
uma nova tecnologia, a tal da captura de performance. Em tempos
de O
Senhor dos Anéis e Capitão
Sky, a novidade não é tão grande
e acabou causando menos propaganda do que se esperava. Mas
o resultado é fantástico. Aliado ao roteiro,
de extremo bom gosto e criatividade, a fábula digital
faz as crianças viajarem neste trem com absoluta tranqüilidade
e delicadeza. A animação é um filme bonito,
sensível, recheado de aventura e beira o conceito de
espetacular. Quando a locomotiva mágica que vai levar
as crianças ao Pólo Norte chega, o cinema estremece.
As crianças enlouquecem. De felicidade. As mil caras
inspiradas em Tom Hanks empolgam os mais velhos, que saúdam
a tal técnica inovadora. A dança dos garçons
é outro momento interessante, seguido de tantos outros
que encantam os espectadores com louvor. Pra descer do pedestal
e embarcar na história como se fosse uma criança.
É
no clima de fim-de-ano e festas natalinas que mais uma vez
começa este novo filme da personagem Bridget
Jones, criado pela inglesa Helen Fielding, que teve uma
sacada interessante ao comentar com mais detalhes os dramas
de uma mulher britânica fofinha, passada dos 30 anos
e meio desesperada, como devem ser milhões de mulheres
pelo mundo. As almas femininas se identificaram - não
com suas vidas, mas certamente com alguns momentos já
vividos - e o primeiro filme foi um sucesso. Nesta continuação
caça-níquel, o triângulo principal está
novamente refeito e representado pelos mesmos atores: Renée,
Firth e Grant, o que dá credibilidade à produção.
O triângulo tenta se tornar amoroso, ao longo de confusões
e situações constrangedoras bem ao estilo literário
de Fielding e do primeiro filme. Fica devendo muito, porém,
ao seu original, embora ultrapasse com tranqüilidade
o nível das comedinhas românticas que pipocam
por aí.
Renée,
talvez mais gorda do que no primeiro filme, encarna o personagem
com grandeza e naturalidade, ganhando o espectador em cada
seqüência, seja do público feminino ou masculino.
Afasta, com esta interpretação, qualquer rejeição
que tenha colhido por desempenhos inferiores ou mesmo antipáticos
em outros filmes - Renée parece atrair uma certa aversão
do público feminino, desde Chicago.
É claro que ela já provou ser boa atriz em filmes
discretos e menores como o excelente A
Enfermeira Betty, onde certamente ela encontrou referências
para viver a solteirona Bridget. Colin e Grant enchem os olhos
das mulheres da platéia, mais magros e alinhados do
que em outros filmes, e desempenhando exatamente o que o roteiro
pede, mas muito em segundo plano. São praticamente
acessórios. O resto, é roteiro: piadas boas
e ruins, situações inusitadas e ridículas
para a personagem principal (como o jantar na Ordem dos Advogados
ou o chá de cogumelos), e uma derivação
maluca no roteiro que acaba tendo seu resultado: Bridget acaba
numa prisão da Tailândia. Um destaque especial
para a trilha sonora, que usa e abusa principalmente de anos
70 (Barry White, 10 cc, Marvin Gaye), faz referências
engraçadas a Madonna, ícone dos 80 e citações
mais atuais aos anos 90 e 2000. Releituras interessantes e
inéditas de canções conhecidas como ''Everlasting
Love'' (duas versões diferentes no filme) e de ''Your
Love is King'' (sucesso de Sade), ajudam a embalar o filme
e deixar tudo mais divertido. Mas as boas sacadas na adaptação,
incluindo uma simbologia semelhante à dos quadrinhos
(como a contagem das águas-vivas, por exemplo, ou a
lápide com o cargo de ''solteirona''), poderiam ter
sido mais exploradas. Elas se perdem no meio de um roteiro
que se esforça, mas realmente não chega aos
pés da obra literária e nem seu filme inicial.
É uma boa diversão, e só. Todo mundo
sai um risinho de cantinho de boca.
Com texto
mordaz, pique interessante, desempenho do casal principal
a contento e um mote diferente para tratar o desejo incontrolável
de festejar de maneira piegas as festas natalinas (especialidade
dos americanos, por sinal), esta comédia acima da média
- perdão pela rima - diverte enquanto o argumento principal
se sustenta: eles não querem festejar o natal, preferem
o cruzeiro. Desde a interpretação de Allen e
Curtis, o casal desesperado e acuado em sua própria
casa de Um
Natal Muito, Muito Louco, como se fosse um bunker, até
a engraçada fuga dos vizinhos e da pressão psicológica,
espiritual e física para desistir da idéia inconcebível
sob os olhos da igreja, da moral e da família americana,
tudo é eficiente no filme de Joe Roth. O misto de pastelão
com uma discussão que até procede, sobre massificação
e alienação - afinal, ninguém tem o direito
de pensar diferente? - resulta num bom produto na tela, com
altos e médios, quase sem baixos. O destaque fica para
as cenas do botox e do bronzeamento artificial, idéias
e preparações do personagem de Allen que quer
ir para o cruzeiro já pronto para o sol e o mar.
Infelizmente,
e isso parece ser culpa do best-seller, e não do roteiro
cinematográfico, a história cai na mesma pieguice
- não tem como não repetir o adjetivo - de sempre,
com moral da história, vizinhos se dando as mãos
e o casal cumprindo seu papel na sociedade, sem direito a
muitas escolhas. Não vale a pena detalhar para não
estragar o andamento da trama cômica, mas também
não precisa ser muito esperto para não desconfiar
o que vai acontecer ao longo do enredo. Se o livro ''Esquecendo
o Natal'' vendeu tanto, certamente deve ter sido por essa
mistura de rebeldia com humor seguida e lição
e final feliz, obviamente escrito muito bem. A transposição
parece ser fiel e competente, causando na platéia os
mesmos efeitos e sentimentos. No entanto, no final das contas,
não chega aos pés de outros filmes de Natal
destes e outros anos, mais charmosos, inteligentes e interessantes,
como o próprio O
Expresso Polar, e produções do ano passado,
como Simplesmente
Amor.
Nada de
novo no front, nem mesmo na temporada de Papai Noel.
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