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Gramado
em Crise de Personalidade
O
Festival, com nova diretoria, transita entre o cinema e a
badalação
Gramado,
a 107 km de Porto Alegre, é uma cidade da serra gaúcha
como qualquer outra cidade pequena: tem uma praça,
uma igreja e duas facções políticas.
As correntes oriundam da antiga Arena e MDB, do tempo em que
só existiam a direita e a esquerda na política
brasileira. Nesses pequenos municípios, o multi-partidarismo
não aconteceu, e a população basicamente
se divide em duas, quando se fala em preferência política.
Nada de mais se a cidade de 26 mil habitantes não sediasse
anualmente aquele que é o maior Festival de Cinema
do país e um dos maiores na América Latina.
Tal como um bebê, o evento troca de mãos cada
vez que acontece a chamada dança das cadeiras na política.
Claro, tanto um lado quanto o outro se esforça ao máximo
para que o cinema seja o astro principal, fazendo o festival
se firmar e ser respeitado no cenário artístico
internacional. O que varia, porém, são as pequenas
nuances que nos últimos anos vêm salientando-se
cada vez mais.
Esdras Rubim, mantido por prefeitos do PMDB em 14 dos 29 anos
de Festival, foi responsável em 1992 por transformar
a competição - que era única e exclusivamente
nacional - em internacional, abrindo para os filmes de língua
latina. A decisão, embora criticada, salvou o evento,
que agonizava em meio à política de morte à
cultura de Fernando Collor de Mello. Com a retomada do cinema
nacional a equipe de Esdras reforçou ainda mais a idéia
de que a qualidade dos filmes era o mais importante no certame.
Nos dois últimos festivais, chegou a se afirmar que
"a badalação ficaria de lado", obviamente
que tudo isso combinado com a falta de recursos e redução
de investimentos para trazer artistas periféricos -
aqueles do mundo "fashion", que pouco têm
a ver com o cinema. Saudada pelos críticos e cinéfilos
em geral, a proposta fez o Festival crescer no conceito mas
caiu na preferência do público. Embora a cidade
triplique sua população na semana do evento
cinematográfico, cada vez menos Gramado atrai gente
de fora do estado nessa época, e cada vez há
menos rostos hiper-conhecidos para as tietes gritarem no gélido
frio na porta do cine Embaixador (em frente à praça,
ao lado da igreja).
Paralelamente, Enoir Zorzanello, que já foi presidente
do Festival em outras épocas de prefeituras do PPB,
criou durante o reinado de seu opositor um evento chamado
"Gramado Cine e Vídeo" que acontecia sem
muita força nos mesmo dias do Festival de Gramado,
em outro grande hotel luxuoso, na mesma cidade. Trazendo por
vezes um nome conhecido da televisão e/ou do cinema,
Enoir não cansava de fazer críticas à
orientação adotada por Esdras, muitas vezes
afirmando que o evento estava perdendo seu charme. Neste ano
de 2001, o presidente do Festival de Gramado se chama Enoir
Zorzanello. Ele reassumiu o posto quando mais uma vez houve
a troca das facções políticas na cidade
turística. E pelo que já se notou desde as primeiras
entrevistas coletivas, a competição voltará
a trabalhar com estrelas e muita fama. Por um detalhe, porém,
a nova diretoria enfrenta as mesmas condições
de seus antecessores: as dificuldades financeiras continuam.
As mamatas e mordomias para jornalistas foram reduzidas (isto
não é um protesto, é apenas um registro)
e as passagens aéreas estão sendo escolhidas
a dedo. A turma de Esdras já sofria isto, tendo que
reduzir ao máximo o número de convidados de
cada filme.
Desculpem-me se esses detalhes de bastidores tiram um pouco
do "glamour" de Gramado, mas é interessante
acompanhar como as mudanças de direção
influenciam no estilo do acontecimento. Não há
certo nem . A nova equipe tenta recuperar algo que o
Festival realmente perdeu, e trará mais artistas de
novela e nomes como Luciano Szafir e Luciana Gimenez (que
vai ser a mestre de cerimônias), que nunca chegaram
perto de uma película. Dessa maneira, olhos (lê-se
mídia) se voltam ao mais ao encontro na serra gaúcha,
ajudando a sustentar a continuidade do projeto. Também
assim mais público e mais dinheiro vêm para o
município. Ou seja, uma coisa não vive sem a
outra. Claro que nós cinéfilos, preferimos um
festival voltado exclusivamente para o conteúdo, mas
ninguém é burro de saber que a tietagem e tudo
que circunda o mundo do showbizz é essencial para um
evento como este. Em quase 30 anos de Festival, ainda há
pessoas que vão até Gramado para ver namoricos,
quem fica com quem e de repente algum strip-tease no meio
de uma bebedeira. Esse mundo periférico é quase
que inerente ao evento.
Mas há tentativas. Cannes, por exemplo, sofrendo a
mesma crise de personalidade, separou a ala do "frou-frou"
nas duas últimas edições, deixando a
sala de projeção da competição
principal bem longe de onde os parparazzi procuram os tais
strip-teases. O Festival de Brasília, segundo certame
mais importante do país, está nos calcanhares
de Gramado sem grandes tietagens à vista. Qual é
a fórmula certa? Não se sabe. Cada um que assume
o posto de coordenação do Festival gaúcho,
tenta acertar, conciliando interesses políticos, financeiros
e cinematográficos. Há, nas duas facções,
um esforço visível para o crescimento da cidade
e do evento. E um incrível talento para administrar
essas vontades, necessidades e estrelismos.
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DE 6 A 11 DE AGOSTO. |