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Cena de Cinema
por Renato Martins

Memórias Boas de Gramado
Festival distribui prêmios política e artisticamente corretos


Ao chamar Marcus Vilar, do curta "A Canga", para receber o kikito de melhor diretor em curtas, o ator Zé de Abreu, mestre de cerimônias do 29º Festival de Cinema de Gramado, chamou "A Canja". Risos. A atriz Nívea Stelmann, chamou os vitoriosos cineastas do curta "Palíndromo", dizendo "Palindrômo". Risos disfarçados. Um microfone estragou durante a premiação. Risos generalizados. Zé de Abreu conta uma piada racista. Desconcerto geral. O ator argentino Jean Pierre Noher, de "Um Amor de Borges", agradece o prêmio especial e diz que vai levar um chocolate para su mama, já que sua estatueta não ficou pronta a tempo. Risos de vergonha. Se a desastrada noite de entrega dos prêmios do festival gaúcho foi mais parecido com um show de humor venezuelano - já que o palco, poluído, apresentava dez imagens do kikito, com fogos e fumaça brotando das estatuetas -, pelo menos a premiação foi justa e equilibrada.

"Memórias Póstumas", de André Klotzel - ganhador em Gramado em 1985 por "A Marvada Carne"-, foi o grande vencedor, tendo recebido o kikito de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro, prêmio da crítica e atriz coadjuvante para Sônia Braga, que não esteve lá para receber. A adaptação da ironia de Machado de Assis para o cinema deu certo e teve boa receptividade na quarta noite de exibição do festival, mesmo com o adiantado da hora. "Bufo & Spallanzani", de Fernando Tambelini, o menos brasileiro dos filmes, decepcionou o público na penúltima noite de competição, mas agradou o júri. Bufo trazia no currículo o prêmio de melhor filme do Festival de Miami, mas foram os atores que saíram premiados. Toni Ramos foi o melhor ator da competição e Isabel Gueron, estreante no filme de Tambelini, a melhor atriz. Do mesmo Bufo, Juca de Oliveira, ausente na festa, ganhou coadjuvante. Os gaúchos receberam uma premiação adequada e o festival não pode ser chamado de bairrista: o épico "Netto Perde sua Alma", baseado em uma figura histórica da revolução Farroupilha, dirigido também por estreantes, Beto Souza e Tabajara Ruas, levou um prêmio especial do júri, o prêmio de melhor filme escolhido pelo público, e ainda montagem e música.

Injustiças? Nada grave, apenas pode se discutir algumas coisas: Celau Moreira recebeu o kikito pela trilha de Netto merecidamente, embora o trabalho do ex-Legião Dado Villa Lobos também foi muito bom em Bufo. Neste filme, a novata Isabel, melhor atriz do festival, esteve ótima, mas Christine Fernandes merecia mais por sua interpretação em "Duas Vezes com Helena", filme de que saiu sem prêmios. E a fotografia dada a "Urbania", de Flávio Frederico, também é discutível, pois - sem bairrismos - Roberto Henkin fez um trabalho excepcional no épico gaúcho Netto.

Gramado neste ano proporcionou uma mostra pequena mas de alta qualidade de filmes estrangeiros. O destaque foi o cinema argentino, que trouxe dois filmes fora de competição excelentes: "Aparências" e "Nove Rainhas" - ambos sucesso de público em Buenos Aires. O país vizinho também contribuiu com uma pérola chamada "Um Amor de Borges", de Javier Torre, este que esteve na disputa e saiu vencedor com o prêmio de júri oficial e um prêmio especial para o protagonista (este, que inventaram de última hora e não tinha estatueta para entregar ao ator Jean Pierre). Já o público de Gramado, na serra gaúcha, escolheu o espanhol "Yoyes", de Helena Taberna, como o melhor, numa escolha sensata e correta: o forte do concorrente argentino é mesmo o ator, e não o filme. Já "Yoyes" é um primor como obra cinematográfica em todos os seus elementos: direção, roteiro, produção, elenco, etc.

Os curtas gaúchos, que sempre são destaque do festival, ficaram em segundo plano neste ano porque os melhores títulos produzidos neste ano não eram inéditos e não podiam participar da competição. Na categoria 16 mm, o recordista de prêmios Gustavo Spolidoro (premiado por "Velinhas" e "Outros"), levou um kikito para o ator de seu curta "Final", Júlio Andrade. Mas o grande vencedor veio de um estado sem tradição cinematográfica: o Espírito Santo. A equipe de "Macabéia" saiu com os prêmios de melhor filme, roteiro e atriz. O melhor diretor foi outro gaúcho, Cássio Tolpolar, pelo seu discutível "Vênus", que nada mais é do que uma grande orgia sem pé nem cabeça com duas atrizes gaúchas de beleza indiscutível.

Na categoria curtas de 35 mm, o ótimo "Sinistro", de representante do Distrito Federal, recebeu merecidamente o prêmio de roteiro. "Palíndromo" (com acento no i, viu, Nívea Stelmann?), do paulista Philipe Barcinsky, inovando como nunca na técnica de filmagem, recebeu também com todo o mérito os principais prêmios, como o de melhor filme e prêmio da crítica. Tomara que estes curtas peguem carona com os longas e sejam exibidos nos cinemas brasileiros.

 
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