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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Simplesente o Máximo
Michael Moore se supera e faz um filme ainda melhor que
"Tiros em Colombine"
Parabéns
aos homens e mulheres que integraram o júri oficial
do Festival de Cannes deste ano. Eles elegeram como vencedor
da Palma de Ouro de melhor filme uma obra sui-generis, fora
do comum, grandiosa, necessária, obrigatória,
contundente, magnânima... Enfim, faltam adjetivos para
qualificar Fahrenheit
9/11, um documentário de primeiríssima grandeza,
feito pelo diretor Michael Moore, um gordo muito corajoso,
debochado, irônico e preocupado com o futuro da humanidade.
A fita é o primeiro documentário na história
do cinema a ficar no topo das bilheterias americanas, ultrapassando
filmes de ficção ao melhor estilo blockbuster,
e também foi o primeiro a passar a barreira dos 100
milhões. Em parte o sucesso se deve à popularização
do gênero cinema-verdade, divulgado pelo próprio
Moore e por outros grandes filmes-experiência, como
Na
Captura dos Friedmans, Sob
a Névoa da Guerra (Oscar de documentário
deste ano, prêmio que Michael ganhou em 2003 com Tiros
em Columbine) e o inédito no Brasil Super
Size Me, também entre as primeiras bilheterias
nos EUA.
Explico
os muitos adjetivos que usei nas primeiras linhas deste artigo:
Fahrenheit 9/11 é especial. SUI-GENERIS porque
mostra imagens e informações inéditas,
apresentadas pela primeira vez ao grande público, e
desnudadas com uma coerência e um encadeamento impressionantes.
A história que Moore nos conta transforma um simples
documentário em uma obra FORA DO COMUM, distante das
outras no gênero e mais distante ainda do resto do que
é produzido em termos de cinema. Um verdadeiro libelo
contra a guerra e contra a política feita e controlada
por ignorantes e egoístas explode na tela, através
de depoimentos extremamente críveis. Num determinado
momento, parece que mesmo que se tudo aquilo fosse mentira,
seria igualmente impactante. O filme é GRANDIOSO ao
mostrar que a guerra continua sendo desnecessária,
pobres continuam morrendo no lugar de ricos e gente inocente
continua morrendo sem ninguém explicar o porquê.
Ao alertar o mundo contra a política do presidente
americano George W. Bush, Moore é detalhista ao mostrar
os resbalos do chefe da mais poderosa nação
do globo nos episódios de 11 de setembro de 2001. O
documentário se tornou NECESSÁRIO para seu diretor,
que notou que através de sua arte poderia ajudar a
abrir os olhos de um mundo cristalizado pelo medo e pela opressão.
Por isso o filme se torna OBRIGATÓRIO, não só
para americanos mas para qualquer nacionalidade, religião
ou raça. É um filme universal. Não há
como ficar passivo na frente da tela. Trabalhando com humor
e muito sarcasmo, o documentarista nos dá choques de
verdades, transformando seu protesto fílmico num apresentação
CONTUNDENTE. Visivelmente superior a qualquer idéia
já elaborada antes neste mesmo sentido na sétima
arte, Fahrenheit
9/11 supera até mesmo o oscarizado e elogiado Tiros
em Columbine, o filme anterior do cineasta. Por isso também
é uma obra MAGNÂNIMA.
Não,
seguramente não estou exagerando. Se houver mais 200
adjetivos positivos, adicionarei à minha crítica
e explicarei todos eles. Qualquer elogio para o vencedor de
Cannes é justificável. Não há
magia em Fahrenheit
9/11, como em outros filmes, que nos evocam sentimentos
como alegria ou tristeza, identificação com
personagens, desejos de finais felizes ou risos provocados
por diálogos marotos. A beleza do filme de Michael
Moore é dupla e simultânea: primeiro, a divulgação
exacerbada e escancarada da podridão da política
americana, desde seu atual presidente até o congresso.
Posteriormente, a transformação do indivíduo,
que pode ir desde um simples espectador brasileiro que possa
sair do cinema mais indignado com fatos que até então
desconhecia até um eleitor americano que repense seu
voto nas próximas eleições para presidente.
Michael tem bem claro seus objetivos com o filme, e podem
ser eles bastante individuais e até egoístas.
Mas não importa. Não é intenção
que está em jogo, e sim o resultado na tela é
que vale. Também não interessa, pelo menos nesse
momento da história da arte, se o documentário
irá atingir os objetivos. Só importa que o que
foi produzido é de altíssimo nível, desde
conteúdo e forma, passando pela criatividade, talento
e ousadia - uma palavra-chave para definir o estilo de Moore.
Muito
já se sabe sobre Fahrenheit
9/11 antes mesmo de ser assistido: já foi noticiado
que o diretor consegue relacionar a família Bush com
os Bin Laden, que George W. Bush trapaceou nas eleições
para ganhar, que ficou inerte ao saber que os aviões
se chocaram contra as torres do World Trade Center e pouco
fez depois disso, que os congressistas americanos aprovaram
leis sem lê-las, que apenas um deles teve um filho alistado
no exército americano e combatendo no Iraque, etc.
etc. Todas essas e muitas outras passagens, no entanto, se
tornam incrivelmente calorosas e surpreendentes ao serem encaixadas
no roteiro de Moore, salpicadas com músicas, falas
e sons ironicamente editados. O sentimento pós-exibição
é inevitável. Se você não sentir
nada, não é humano. Ou não entendeu o
filme. Ou ainda, pode ser um partidário da guerra e
assinando embaixo da matança de inocentes. Mas tenho
certeza que esta é uma minoria. Não há
quem não vá se tocar de alguma forma pelas cenas
tristes, recheadas de realidade.
Embora
com um filme dessa estirpe não seja preciso julgar
a intenção, é interessante lembrar que
os motivos que movem Michael Moore a fazer o que faz desde
1989, quando filmou o provocativo "Roger & Eu"
(disponível em DVD), são, em boa parte, fruto
de seu nacionalismo. É porque Moore é um americano
da gema, e por isso ama sua terra e preza a liberdade, é
que ele filma esse tipo de coisa. Mas entre o americanismo
inerente e a defesa debochada da sua bandeira, seus filmes
também são movidos por sentimentos humanos,
atávicos, despercebidos e às vezes até
esquecidos. A grande lição que fica é
que estamos quase todos no caminho , na direção
no enclausuro e da auto-depredação. Documentários
como Fahrenheit
9/11 são apenas gotas de um soro da verdade que
precisamos tomar de vez em quando para não selarmos
de vez o túmulo que pode se transformar o globo terrestre.
Mesmo que você ache que eu virei um discípulo
de Michael Moore, assista o filme. |
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