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Cena de Cinema
por Renato Martins

Como É Difícil Ser Sempre Bom
Depois de Beleza Americana, tudo pode parecer medíocre

Depois que alguém faz algo sensacional e depois faz algo muito bom, a segunda coisa normalmente é considerada ruim. Este raciocínio simplório costuma funcionar com filmes, quando cineastas criativos surgem no cenário com um diferencial que embasbacam o público com suas belas realizações. Seja qual for o estilo, geralmente, de dois em dois anos, temos boas surpresas na tela que se eternizam por alguns meses e se tornam unanimidade. Perigosas, é bem verdade, pois podem exigir da próxima produção desse diretor que ele repita essa dose de talento. Assim acontece com Estrada para Perdição, novo filme do diretor - apenas o segundo, aliás - Sam Mendes. É um muito bom, tanto no aspecto técnico quanto de conteúdo, mas seria melhor se não houvesse antecedentes. É que Sam nos fez o favor de cometer Beleza Americana, um clássico contemporâneo, que ficará eternamente gravado em nossas mentes. A ácida crítica urbana dos seres humanos e seus traumas renderam à equipe muitas premiações, entre elas o Oscar de melhor filme, roteiro e direção. Mas os prêmios não são os mais importantes, todos que viram sabem que é um grande filme. O problema para o jovem cineasta britânico que veio do teatro (The Blue Room, com Nicole Kidman nos palcos, foi um sucesso) é enfrentar a si mesmo, competir com sua própria qualidade.

Voltemos a Road to Perdition: todos estão vendendo - e o público comprando - como o grande candidato ao Oscar do ano que vem, ou pelo menos o primeiro a surgir no atual cenário de grandes produções. Mendes optou de novo por mostrar os dois opostos da alma humana: a sua complexidade e a simplicidade humana ao mesmo tempo. O filme explora medos, angústias, desesperos, fidelidade e traição, temas básicos que são costurados por uma história de gângster dos anos 30. A mão firme e talentosa do diretor está bem presente ao lado das ótimas interpretações de Tom Hanks, no papel de assassino de encomenda, e de Paul Newman, o gângster contratante dos serviços do primeiro.

Tudo muda quando o personagem de Hanks, Michael Sullivan, é flagrado pelo filho pequeno fazendo o trabalho sujo. A culpa aparece e o medo se volta contra ele, que passa de predador à vítima. O filme é baseado na moderna graphic novel de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner, que emprestaram seus serviços para fazer o roteiro da adaptação cinematográfica ao lado de David Self. A estrutura da trama é simples, contando uma história básica de gânsgter, mas com um tempero diferenciado. Além da direção e da atuação com categoria, a fotografia e a direção de arte saltam aos olhos, como elementos de grande precisão e eficiência. Correm soltas na tela, reproduzindo o mundo sombrio do Anjo da Morte - o pseudônimo de Sullivan nas HQs - e calibrando na medida certa o clima dos fatos que estamos assistindo.

Com recursos técnicos invejáveis, atores conhecidos e desempenhando bem - destaque também para Jude Law, mais uma vez caricato -, o filme perde pontos mesmo é na narrativa. Leiam bem, eu não estou falando mal do filme, apenas estou dizendo que ele não é tão bom assim e não deve ser endeusado. Deve ser visto como uma obra respeitável, interessante e diferenciada das avalanches de filmecos comerciais sobre máfia e pistolas que são despejados anualmente no mercado. Estrada parte de um ponto profundo para provocar uma reviravolta na narração, convidando o espectador a embarcar na mudança de caráter e conflito de personalidade do Anjo da Morte. Cenas marcantes se alternam com outras não tão criativas, beirando o previsível, e isso dá o tom irregular que é o único pesar de toda a fita. Embora, repito, isso tudo não compromete seu todo: em nenhum momento ele se torne chato ou repetitivo. Minha preocupação é que a velha e boa expectativa que as pessoas carregam para o cinema, mais o antecedente de Beleza... e todas as críticas positivas empurrando a obra para o Oscar 2003, haja alguma decepção.

Voltando a falar das coisas boas, um destaque especial para a trilha sonora de Thomas Newman e do consultor John Williams se impõe da maneira correta, marcando presença forte mas sem atrapalhar o enredo. Também sombria, triste e pesada, a música não derruba o roteiro nem o joga pra baixo, risco que uma história de auto-revisão de um assassino sempre corre. Mas a dupla de músicos se sai muito bem. O primeiro é responsável por trilhas intimistas, como Entre Quatro Paredes e À Espera de um Milagre, só pra citar os exemplos mais recentes. Newman chega ao brilhantismo quando se junta com especialistas em outras culturas musicais. Williams que nada ter a ver com o autor de partituras clássicas como as de E.T, Star Wars e Indiana Jones. No filme, o consultor trabalhou na pesquisa de ritmos irlandeses - a origem do personagem principal Sullivan. Nestes aspectos técnicos, o filme tem nota dez. Ao lado da objetividade e pouco recurso cênico de Beleza Americana, este segundo filme dá um show. Mas ainda, assim, na comparação, Estrada... será apenas mais um filme de gângster, com uma história muito, muito, muito boa. Assim como é, por exemplo, a série O Poderoso Chefão. Obviamente que guardadas as suas devidas proporções, pois a série protagonizada por Marlon Brando, Al Pacino e Robert de Niro é um clássico imortal diferenciado, inigualável por seu tempo, sua representatividade, sua importância como divisor de águas no mundo do cinema - coisa que Estrada para Perdição está longe de ser.
 
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