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Cena de Cinema
por Renato Martins

Rabiscos no Fundo do Mar
História complexa e flertando com a violência afasta pequenos espectadores



A fórmula é conhecida, a execução é perfeita, mas corre o risco de encher o saco dos pequenos - e grandes - espectadores. Essa é a primeira impressão que tenho ao sair do cinema depois de assistir O Espanta Tubarões, o novo filme da Dreamworks, a produtora de Steven Spielberg. Passada no fundo mar (qualquer semelhança com o concorrente Procurando Nemo, da Pixar, é mera coincidência e a gente acredita nisso), a história de peixes, tubarões, lulas, lagostas, corais e outras criaturas oceânicas ganha a simpatia do público de primeira, reforçada pelo traço criativo, competente e com cenários brilhantemente cunhados. Já a história, que é contada presumivelmente para crianças, parte da morte de um tubarão, o que automaticamente eleva a faixa etária adequada para assistir a fita. Mesmo assim os elementos da trama são bem elaborados e encaixados de forma apropriada na primeira metade do filme, quando o ritmo é mais intenso.Espanta... ainda tem o diferencial de ter sido desenhado depois que os atores conhecidos gravaram suas falas, invertendo o processo de criação. Com isso, ficou muito mais fácil reproduzir animais marinhos com o rosto de seus intérpretes: o tubarão mafioso dublado por Robert de Niro (O Poderoso Chefão é a melhor referência aqui), por exemplo, é uma caricatura do próprio, engraçada e inteligente ao mesmo tempo. O peixe protagonista fica a cargo de Will Smith (Homens de Preto), que concede de forma incrível uma personalidade ao desenho. O cineasta Martin Scorsese, responsável por filmes como Gangues de Nova York, empresta sua voz a um hilário baiacu e também é facilmente reconhecível. Já Angelina Jolie, justamente por ter uma "boca de peixe" parece-se com vários dos personagens, até o momento em que entra em cena uma peixona atraente e vil, que o espectador acaba por identificar a morena de Tomb Raider.

Mas tudo isso não basta: apesar da boa execução, cores vivas e ritmo frenético, a história do peixinho que assume a autoria do assassinato de um tubarão para poder se afirmar em sua comunidade não supera a originalidade ingênua de histórias como o próprio Procurando Nemo, e de outras como Formiguinhaz (que também usou a técnica de assemelhar os personagens com os atores de carne e osso) e até mesmo o irônico Shrek 1 e 2. O roteiro, escrito a oito mãos, ressalta a morte, o desejo de vingança e glorifica a mentira num primeiro momento, para depois cair no inevitável discurso politicamente correto do "eu errei" do personagem principal, o que não representa novidade para os adultos, mas que pode soar uma pequena confusão de valores para os pequenos. A maneira como tudo isso é colocado na tela também pode cansar o espectador mirim, que não raciocina em cima das entrelinhas de uma história bem mais profunda que um simples conto de fadas. O resultado dessa experiência de estilo de narrativa é perigoso e pode provocar a evasão antecipada da sala deste tipo de público, que obrigará também os pais a abandonarem a sessão, como aconteceu com alguns conhecidos meus que ouviram reclamações dos próprios filhos.

A produção é impecável e só torna o gênero animação mais prestigiado ainda, ele que sofreu durante anos a discriminação e o preconceito e foi tratado como um cinema "menor". No mesmo ano em que vimos outras produções não-americanas de sucesso como A Viagem de Chihiro e As Bicicletas de Belleville, também do gênero desenho, o filme da produtora de Spielberg cumpre perfeitamente as metas de equilibrar uma história com bom humor e talento, não deixando a desejar quando se trata da indústria cinematográfica. O problema todo é no produto final, quando vamos analisar a linguagem, o argumento e a maneira como estes chegam ao seu público. E que tipo de público? Enfim, Espanta... comete o mesmo erro de tantos outras produções infantis recentes, que é a de tornar o texto e a temática adultos, tentando atingir mais os adolescentes e não tanto as crianças. Mas comete também o erro de não ter a perspicácia necessária de disfarçar essa"adultice" e fidelizar o seu cliente mais precioso: as crianças.
 
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