|
In
the Bedroom del Figlio
Filme
de Todd Field guarda muitas semelhanças com o de Nanni
Moretti
Os dois
filmes foram feitos em 2001 e contam uma história parecida:
a perda prematura de um filho adolescente. O italiano Nanni
Moretti mostra em seu O Quarto do Filho (La Stanza
del Figlio), que ganhou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado,
o trauma de uma família depois de um acidente do garoto
no mar. O silêncio invade a casa e o filme pasma pela
sua simplicidade e naturalidade. O espectador passa a se sentir
o membro de uma família presa em uma dor constante.
Assim devem ter se sentido os membros do júri no festival
francês. Em Entre Quatro Paredes (In the Bedroom),
também mostra o sofrimento de uma família após
a morte do filho adolescente, esta num contexto mais violento,
envolvendo brigas, traições, ciúmes e
desilusões amorosas. Não é o caso de
levantar suspeitas sobre plágio ou não, mas
é incrível as semelhanças entre os dois
filmes feitos no mesmo ano. O importante é que mesmo
versando sobre um mesmo tema, as duas produções
são excelentes e o público ganha portanto mais
dois ótimos filmes para assistir nesta temporada. E
só é isso que importa.
O filme
parte de um namoro descompromissado entre o jovem Frank
(Nick Stahl, de Além da Linha Vermelha)
e uma mulher mais velha, casada, interpretada por Marisa
Tomei (Oscar de melhor atriz coadjuvante por Meu Primo
Vinny, em 1992, e indicada novamente na mesma categoria),
que tem dois filhos e uma complicada relação
com o ex-marido, que não aceita a separação.
Entre churrascos e balanços no jardim, o diretor Todd
Field instala um clima de tensão dentro do ambiente
familiar, que leva o espectador e os pais do garoto a esperarem
pelo pior. E ele vem. O "ex" ciumento de Natalie
(Tomei) mata Frank depois de uma briga e o (in)esperado
vem à tona. Paralelo à trama judicial que se
desenrola, o filme mostra as relações entre
marido e mulher, dos pais com a nora, com o assassino solto
nas ruas e com a própria comunidade. Field,
mais conhecido por sua atuação como o pianista
que guiava Tom Cruise para a perdição
em De Olhos Bem Fechados do que por seus cinco filmes,
realiza uma obra sensível e primorosa, mostrando em
detalhes as nuances das transformações das relações.
Entre Quatro... também mostra a qualidade do
trabalho de quem passou pelos departamentos de som, roteiro,
cenografia e música no cinema, que é o caso
de Todd Field.
Sissy
Spacek e Tom Wilkinson são os pais sofredores
em questão, e os dois estão desempenhando seus
papéis de maneira soberba. Eles também estão
indicados para o Oscar deste ano, na categoria atriz e ator.
Wilkinson, especialmente, mostra um ecletismo em relação
a filmes anteriores, como Ou Tudo ou Nada, quando interpretou
um executivo desempregado que se iniciava no mundo do entretenimento
como stripper. Ele entra numa briga ferrenha, que inclui o
favorito Russell Crowe (que já ganhou com Gladiador),
o injustiçado Denzel Washington (que não
ganhou com Hurricane) e ainda Sean Penn - que
interpreta um debilitado mental em Uma Lição
de Amor, papel preferido pelos acadêmicos de Hollywood
- e Will Smith, o azarão da lista, mas que interpreta
ninguém menos do que Muhammed Ali no filme que
conta sua vida. Papéis biográficos: outra preferência
da Academia. Se o páreo é duro para Wilkinson,
para Spacek talvez a competição seja
igualmente difícil: suas concorrentes são menos
brilhantes, mas a própria Spacek repete papéis
de "mãe e esposa triste e chorona" que tanto
desempenhou repetidamente em filmes como Missing, De
Volta para o Presente, JFK e, claro, no clássico
Carrie, a Estranha.
A relação
mais importante do filme, a partir da morte de um dos personagens,
passa a ser a do casal (como Nanni Moretti também
mostrou, mas mais sutilmente), que se afasta aos poucos, que
se estranha no dia-a-dia e luta para redescobrir o carinho
e o amor entre eles. É a parte mais interessante do
filme, que ao contrário da tristeza e da depressão
- que podem ser pontos fortes de referência para os
desavisados - na tela, vai dando lugar aos poucos para essa
busca das coisas simples. Num terceiro ato, vem a faceta surpresa
do personagem de Wilkinson, que metaforicamente tem
uma ferida no dedo que só estará cicatrizada
ao final de tudo. As imagens da cidade do Maine, um simpático
município costeiro que sobrevive da pesca, completam
o cenário bucólico e misteriosamente policial
(a la Fargo, dos irmãos Coen, por exemplo).
Mas semelhanças
entre O Quarto do Filho e Entre Quatro Paredes
são intrigantes. Nos dois filmes os pais se calam após
a morte do seu filho, tentando evitar tocar no temido assunto.
A dor se transforma em silêncio - o que reflete bem
a realidade de quem perde um ente querido. Também nos
dois filmes chega uma carta para os pais em luto, endereçada
ao falecido. E a maior semelhança dos dois filmes é
o quarto do filho. Nas duas histórias, o pai adentra
rapidamente no recinto onde vivia o adolescente, admirando
seus objetos pessoais dentro de um quatro que ninguém
teve coragem de desfazer. O filme de Nanni Moretti tem
a cena no próprio nome. Já Todd Field
colocou a peça da casa no título original -
In the Bedroom - que não aparece no título
nacional. O quarto em questão só aparece uma
vez em cada filme, é visitado pelo pai do garoto -
e estou pra dizer que a disposição física
da porta e dos móveis é bastante semelhante.
Plágio? Espero que não. Prefiro pensar que foi
um caso raro de inspiração mútua e simultânea.
|