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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Sempre é Bom Ter uma Segunda Chance
Ficção-suspense com Ashton Kutcher explora
bem o filão da viagem no tempo
Os roteiristas
Eric Bress e J. Mackye Gruber são uma espécie
de irmãos Coen do cinema-pipoca. Ou Wachowski sem tantas
alucinações fashion. Ou ainda, filhotes de Tarantino
muito mais comportados e sem o mesmo talento. Mesmo assim,
dirigiram com competência uma ficção-suspense
chamada Premonição
2, continuação do sucesso de 2000 que, apesar
de "bestinha", era muito original. Bress
e Gruber não quiseram abandonar o quesito imaginação
e são responsáveis por uma das mais criativas
novidades no mesmo gênero: Efeito
Borboleta é uma viagem - literal - no tempo, no
espaço e na cabeça de seus roteiristas e de
seu personagem principal.
A dupla
conseguiu reinventar com competência o desejo humano
de voltar no tempo e mudar as coisas. O garoto Evan (Ashton
Kutcher, de Recém-Casados),
porém, só complica mais a sua vida ao fazer
isso. Sua vida vira um pandemônio, fazendo jus ao interessante
título Teoria do Caos, que chegou a ser divulgado aqui
no Brasil. A
história parte sempre do mesmo ponto, com desenvolvimento
e resultados diferentes e imprevisíveis. Toda a vez
que Evan volta no tempo para consertar alguma coisa, acontece
outra que ele não previu. É a lei da vida. E
do caos. Em sua infância, o menino tinha desmaios constantes
e perdia a memória do que poderia ter feito nesses
espaços.
Com um
roteiro surpreendente e inteligente, tudo vai se explicando
e tornando-se incrivelmente irresistível e impossível
de não querer chegar ao fim. Mas quando é o
fim? Qual é a melhor vida para Evan? Quais perdas e
ganhos ele deverá escolher para definitivamente estagnar-se?
Nem o espectador sabe. Tudo pode ficar melhor. Ou pior. A
ficção leva ao suspense, e flerta com a comédia
- de humor escurecidíssimo. Depois de cada "apagão"
do personagem, parece que um novo filme começa, com
os mesmos personagens e o mesmo argumento - não é
impressionante, que esta história, apenas lida, seja
tão criativa assim?
Se olharmos
com frieza, o filme é uma grande bobagem: mas a produção
modesta filmada no Canadá com apenas atores jovens
conquista porque, mesmo dentro de sua "impossibilidade", o
grau de dependência que o espectador desenvolve com
o roteiro é grande, com o passar do tempo. Nos EUA,
Efeito
Borboleta estreou no início deste ano, liderando
o ranking das bilheterias, arrecadando 17 milhões de
dólares no primeiro fim de semana de exibição.
Para uma produção de baixo custo, isso é
um bom indício.
A dupla
de roteiristas Eric Bress e J. Mackye Gruber também
dirige o filme e é praticamente iniciante em longa-metragens.
Os dois também foram habilidosos ao tratar de temas
fortes, como a pedofilia, como um ingrediente a mais na trama,
fugindo porém do banal. O astro das comédias
juvenis Kutcher vive um estudante universitário cuja
infância foi traumatizada pelo abuso sexual. Se Efeito...
não for lembrado pelo seu roteiro criativo, certamente
será marcado como "o filme em que Ashton Kutcher provou
que é bom ator". No elenco ainda o ex-jovem Eric Stolz
e Amy Smart, que tem se revelado igualmente uma boa atriz.
Ela está em Starsky
& Hutch, que estréia também neste mês
no Brasil.
Dentro
do cenário atual dos lançamentos cinematográficos,
onde temos blockbusters de um lado dominando o circuito e
sendo projetados em mais da metade do número de salas
das grandes cidades, e de outro lado pequenas produções
efêmeras e descartáveis, que surgem tão
rápido como desaparecem, Efeito
Borboleta é uma grata surpresa. Tímido sem
muita pretensão, conquista pelo tema e por seu desenvolvimento
competentes, escolha correta de atores e direção
segura. Não é uma obra-prima absoluta nem um
poço de criatividade para ser saudado como uma grande
descoberta, mas cumpre suas funções e deixa
o espectador intrigado com as possibilidades impossíveis
do ser humano e de seu mundo. Sem grandes pré-conceitos
e defesas armadas, vale a pena conferir a fita. |
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