E
Aí, Meu Irmão, Cadê a História?
Viagens alucinantes de roteiro não funcionam tanto
em A Cela quanto no novo roteiro dos irmãos Coen
Os roteiristas
de cinema lutam incessantemente para obter, a cada filme,
uma novidade para chamar a atenção dos espectadores. Dois
bons exemplos são os filmes "E AÍ MEU IRMÃO, CADÊ
VOCÊ?" e "A CELA", em cartaz
nas salas brasileiras. Os dois roteiros são verdadeiras viagens,
cada um dentro de seu estilo, é claro. No primeiro deles,
os irmãos COEN, hábeis em misturar o humor negro com histórias
dramáticas que geralmente apresentam conflitos de ética,
colocam um George Clooney - o eterno astro de Plantão
Médico - espantoso no meio da história dos três fugitivos
que cruzam as charnecas do Mississipi, numa inacreditável
jornada onde encontram dezenas de personagens cômicos e irônicos.
Uma surpreendente trama inspirada na Odisséia, de Homero
(dizem os autores), dirigida por Joel Coen, produzida
por Ethan Coen e escrita pelos dois irmãos. Na verdade,
pouco importa se realmente o poema grego escrito dez séculos
antes de Cristo foi ou não o inspirador do filme. O que
merece ser ressaltado é que "E Aí, meu Irmão..."
mantém as características básicas de um filme da dupla, como
o primeiro "Gosto de Sangue", o delirante
"Barton Fink", o mais popular "Arizona
Nunca Mais", o divertido "Na Roda da Fortuna",
o premiado "Fargo" e o mais recente "O
Grande Lebowsky", obras-primas do sarcasmo da família
Coen. Além do personagem de Clooney, que passa o tempo inteiro
preocupado com a brilhantina de seu cabelo (o que rende boas
piadas), os Coen repetem a dose com atores ótimos, como os
dois "Johns": o Turturro - que trabalhou
com os irmaõs Coen em "Barton Fink", "Ajuste
Final" e "O Grande Lebowsky"
- e o Goodman - que esteve em "Arizona Nunca
Mais", "Na Roda da Fortuna" e
também em "Barton Fink" e "Lebowsky".
Entre
as viagens do filme, os personagens principais encontram um
velho negro que profetiza o destino dos três; namoram sereias
cantantes que lavam suas roupas à beira de um rio; param para
gravar um disco (!!) com um empresário cego; enfrentam a Ku-Klux-Klan;
e assistem dezenas de latas de brilhantina boiarem numa
enchente do estado de Nova Iorque dos anos 30 - tudo isso
enquanto fogem da polícia. Delírios dos irmãos roteiristas
que exercitam com maestria a união da fina ironia com
a grosseria do politicamente incorreto. O que era pra ser
uma comédia, chega, em dado momento, se parecer com um musical,
acrescido ainda de ótimas atuações de Holly Hunter
(no início da carreira dos Coen em "Gosto de
Sangue" e "Arizona Nunca Mais") e
Charles Durning (velho conhecido dos
manos desde "Na Roda da Fortuna").
Um programa completo, porém, não para qualquer um: embarcar
na linha dos Coen não satisfaz um público médio, acostumado
a consumir um cinema de digestão fácil. Apesar dos toques
cômicos, "E Aí..." não é pra ser visto
despretensiosamente no sofá da sala. Mas pra quem gosta, delicie-se,
esperando ainda os três novos projetos dos dois: "Intorelable
Cruelty", acreditem ou não uma comédia romântica
com Hugh Grant, o drama clássico "The
Barber Project" e "To
the White Sea", um drama de guerra protagonizado
por Brad Pitt (!! - de novo).
Em
"A Cela", onde a latina do momento
Jennifer Lopez vive desconfortavelmente uma psiquiatra
com poderes a mais, igualmente assistimos a viagens. Desta
vez viagens puramente estéticas, cunhadas pelo estreante
diretor Tarsem Singh - vindo dos clips -,
que transformou o já fraco roteiro de Mark Protosevich
num desfile de efeitos visuais. Sim, Tarsem não conseguiu
livrar-se do estilo videoclip, como tantos que vieram desta
escola, desde David Fincher ("Seven
- Os Sete Crimes Capitais") e mais recentemente
McG (do ainda inédito "As Panteras").
Enquanto a protagonista tenta passar alguma apreensão que
o seu personagem necessita numa sofrível atuação, o espectador
assiste a verdadeiros espetáculos plásticos - muito bons,
diga-se de passagem -, como se fosse uma sucessão de
clips ou comerciais de cigarro. É que a doutora Catherine
(papel de Lopez, que já foi muito melhor em "Reviravolta"
e "Irresistível Paixão") precisa entrar
na mente de um serial killer que entrou em coma para descobrir
onde está sua próxima vítima - antes de que esta morra.
Neste momento, aí sim, a protagonista funciona, pois sua beleza
é indiscutível, e o diretor soube usá-la bem como elemento central
dos delírios apresentados. As cenas que apresentam o
interior da mente das pessoas são impecáveis, mas insistentes
e cansativas. Vinte minutos de filme e nos perguntamos "ok,
meu irmão, e cadê a história?".
Nem
Vince Vaugh, que mostra um crescimento desde
seu Norman Bates da refilmagem de "Psicose",
salva a pátria. Marianne Jean-Baptiste (do
ótimo "Segredos e Mentiras") não sabe
o que faz no filme, enfiada num avental e tentando desempenhar um papel
de assistente de cientista. A impressão é que o comandante
concentrou suas forças nas cenas estéticas e esqueceu
de dirigir os atores. O erro também foi da produção ao achar
que Jennifer Lopez segurava o elenco como nome principal.
Quebraram a regra principal do star-system de Hollywood,
onde a combinação de um nome masculino com um feminino é
regra para o sucesso. E convenhamos, essa história de entrar
na mente no serial killer, o batido "Os Olhos de
Laura Mars" já contava em 1978, com Faye
Dunaway. Copiado várias vezes, o tema foi trazido
de novo mais recentemente em "A Premonição",
com Anette Bening. Sem falar no clássico
"O Silêncio dos Inocentes", onde Jodie
Foster não apela para poderes paranormais, mas praticamente
visita a mente do bandido brilhantemente interpretado
por Anthony Hopkins. As viagens dentro da
mente exibidas, por exemplo, em "Quero ser John Malkovich"
são igualmente bizarras, como em "A Cela",
mas muito mais engraçadas e inteligentes. E com alguma
corência. E conteúdo, que é bom de vez em quando.
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