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Cena de Cinema
por Renato Martins

Alta Fidelidade Tupiniquim
A ótima comédia - se é que é uma - de Anna Muylaert


Ao final do Festival de Gramado do ano passado eu perguntei à diretora Anna Mulayert, criadora do roteiro de Durval Discos se a história tinha alguma inspiração em Alta Fidelidade, o livro do escritor inglês Nick Hornby que foi adaptado para o cinema em 2000, pelo diretor inglês Stephen Frears. A paulista, ex-crítica de cinema, foi categórica, negando qualquer semelhança ou ligação, limitando-se a dizer que Durval é uma grande homenagem ao seu avô, de mesmo nome. Talvez Anna tenha se sentido acusada de algum plágio ou falta de criatividade. Bobagem. Quis, na verdade, lhe fazer um elogio, pois estava extasiado com o desempenho do filme e contente pela premiação que o evento cinematográfico da serra gaúcha havia lhe conferido. E a comparação com a obra de Hornby é inevitável: Durval (brilhantemente interpretado por Ary França, de filmes como Amor & Cia) tem tudo a ver com Rob, o personagem vivido na tela por John Cusack. Os dois são donos de uma loja de discos e os principais momentos do filme acontecem dentro da loja. Maniáticos e ególatras, Durval e Rob, cada um à sua maneira, vivem suas vidas presos a um passado desnecessário - o paulista com sua paixão por vinil e o nova-iorquino com seus relacionamentos amorosos. Mas, ao mesmo tempo, essas heranças são o ''ouro'' dos filmes. Personagens carismáticos e estranhos habitam a loja, tanto numa obra como noutra. E por fim, as referências pop-culturais que temperam as duas histórias são um molho maravilhoso e diferencial, que tornam os dois filmes especiais.

Afora comparações, Durval Discos tem identidade própria sim, e além de ser muito bom, diverte e inova, misturando gêneros e destinos de personagens imprevisíveis. O anti-herói Durval já abre o filme em sua insólita loja de discos de vinil deixando bem claro a um desavisado freguês - e aos espectadores - que não existem CDs em suas prateleiras. A cena é impagável. Na seqüência, até onde pode se contar, ele contrata uma empregada (Letícia Sabatella, desglamourizada propositadamente) que acaba desaparecendo, deixando na casa uma menina de 5 anos de idade, com um bilhete de que estaria retornando em 3 dias. A mãe de Durval, numa outra brilhante atuação de Etty Fraser (essa sim, deveria ter ganho Kikito de melhor atriz coadjuvante em Gramado) é que acaba por se apegar à criança, impedindo que Durval tome as providências que seriam normais numa situação adversa como essa. A televisão acaba avisando aos dois, através do noticiário, que a empregada não voltará. A partir dali um surrealismo sensacional toma conta do filme da cineasta, que recebe pinceladas de Frederico Fellini, Salvador Dali e Peter Greenaway.

Com criatividade e humor, Durval Discos se transforma sem esquecer nas citações musicais que costuram o filme, de Jorge Ben (antes de ser Benjor) a Tim Maia, passando por Sá & Guarabyra e Novos Baianos, num trabalho excelente do produtor musical Pena Schimdt. Completam o cenário sonoro - fundamental para o êxito da obra, eu insisto - a música original trazida por André Abujamra, do semi-extinto Mulheres Negras que, aliás, faz uma participação especial como um hilário comprador de discos de reggae na loja do Durval. Também unindo música e atuação, a cantora Rita Lee faz uma aparição inusitada. E, fechando o elenco, uma competente Marisa Orth, no papel da ''vizinha'' da loja.

O filme foi justamente consagrado em Gramado no ano passado, quando ganhou 7 Kikitos no Festival: Melhor Filme, Prêmio do Júri Popular, Prêmio da Crítica, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. Em pelo menos dois me sinto co-responsável: votei na enquete popular dando nota máxima e na reunião do júri da crítica escolhi Durval como o melhor longa nacional sem pestanejar. Lembro que a concorrência não era fraca, pois José Joffily não brincou em serviço quando adaptou a peça de Plínio Marcos, Dois Perdidos numa Noite Suja, e a comédia woody-alennianna de Domingos de Oliveira - ótimo no texto e na preparação de atores - com o seu Separações, festejado e premiado até hoje.

Ainda que Anna não tenha admitido ligações entre o livro/filme de Hornby e sua criação embasada no culto ao vinil (ponto marcante de Alta Fidelidade), queria deixar bem claro, se ela ler este texto (ou que alguém conte pra ela), que não era ofensa, era elogio. Durval é um ótimo Alta Fidelidade à brasileira, com personalidade, vida própria e piadas originais. Ser comparado com um dos mais geniais escritores britânicos da atualidade não faz mal a ninguém. A mais breve inspiração não precisa ser tomada como plágio, não há motivos para celeumas. Mas é impossível não pensar na possibilidade de ligação. Afinal, quantos no mundo ainda vendem discos de vinil? Acho que só Ary França e John Cusack!
 
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