Mundo
Animal
Eddie Murphy volta à carga ao falar
com a selva inteira
O primeiro "Dr. Dolittle" de Eddie Murphy,
de 1998, podia não ser uma obra-prima, mas divertiu
muita gente. Mesmo quem não gostasse do ator, o humor
do filme - que adaptou para o cinema a famosa história
do médico que falava com animais, filmada pela primeira
vez em 1967, com Rex Harrison - estava nos diálogos
que cachorros e gatos travavam apenas com o personagem principal
e para os espectadores. Quem não gargalhou ao acompanhar
a análise de um cachorro neurótico que só
pensava numa bola? "Eu quero a bola, me dá a bola,
eu preciso da bola, me dá a bola, por favor",
dizia o paciente saltitante do doutor. A graça nem
mesmo dependia de Murphy: se fosse Mike Myers ou Jim
Carrey provavelmente o sucesso do filme seria o mesmo.
Três anos depois, a velha fórmula se repete e,
mais exacerbada, ganha uma segunda parte no cinema e continua
divertindo meio mundo. Só que neste "Dr. Dolittle
2", cachorros e gatos ficam em segundo plano e dão
lugar a uma floresta inteira.
O simpático e atrapalhado médico (o personagem,
pois nem eu mesmo simpatizo muito com Murphy) não tem
mais privacidade com a família, pois todos os tipos
de animais e seus donos vêm buscar ajuda para resolver
problemas. Dolittle funciona mais como psicólogo do
que clínico, resolvendo problemas de identidade, timidez
e complexos. Depois de dominar o poder que descobriu na primeira
parte da história, o médico, em crise com a
própria mulher e filhos adolescentes, aceita resolver
um desafio: unir dois ursos em extinção para
preservar a espécie. Em troca, uma grande empresa paralisa
o desmatamento que pretende fazer na selva. Mensagens ecológicas
à parte - que são sempre boas para as crianças
-, o argumento cria um gancho para todo o tipo de animais
falarem, desde os mais simples (crocodilos) aos mais estranhos
(marmotas). Na versão dublada, Tom Cavalcante
(outro que eu não simpatizo muito) faz um excelente
trabalho na voz de Archie, o urso bobão que é
artista do showbiz e não quer ir para selva copular,
e também do cão de estimação do
Dr. Dolittle, que se ensaia para uma loba da floresta. Na
versão original, um show de astros emprestam sua voz:
Kevin Pollak, que faz o papel do advogado inescrupuloso
da empresa que promove o desmatamento, também "brinca"
de dublar o crocodilo que aparece logo no início do
filme; Lisa Kudrow faz Ava, a ursa, e o comediante
Steve Zahn dubla um lagarto mexicano que é um
dos destaques do filme. Até mesmo o cantor Isaac
Hayes, acostumado a dublar personagens em "South
Park", está com sua voz no meio da floresta.
Dirigidos pelo inexperiente Steve Carr (convenhamos,
"Mais uma Sexta-Feira em Apuros" não é
currículo), os atores parecem nem precisar do diretor,
pois a maioria do elenco é competente e o roteiro idem.
O show, é claro, fica por conta dos treinadores de
animais e os homens de computador. Os primeiros conseguiram
que animais esdrúxulos como ratos, castores e corujas
fizessem posições e caminhassem na marcação
como se atores fossem. Os profissionais do segundo time, dos
computadores, deram mais realidade às expressões
e principalmente à boca dos animaizinhos, que se movimenta
de acordo com as falas. Uma verdadeira obra digital sem retoques
que, somada ao roteiro, elenco e discreta trilha sonora pop-R&B
resulta numa produção de quilate médio,
mas que diverte com competência quase todos os públicos,
menos aqueles muito mal-humorados que não esboçam
um mínimo sorriso ao ver um cachorrinho saltitando
e gritando.
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