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Cena de Cinema
por Renato Martins

Baú da Felicidade
Mãe e filha conquistam e aplicam golpe - só na tela


Fazia tempo que eu não me divertia. As recentes comédias exibidas nas telas dos cinemas brasileiros têm decepcionado mais do que catuaba falsificada. Fã inveterado de gente boa como Charles Chaplin, Jerry Lewis, Jacques Tati e Woody Allen, costumo ser um pouco exigente para soltar risadas, embora não tenha nenhum senso de preservação para entrar em qualquer sala que estiver exibindo um filme do gênero. Minha esperança é eterna. E de vez em quando, o esforço compensa. Assistir uma boa história com bons momentos de graça e com elenco afiado é gratificante. Foi assim com Doce Trapaça, filme de David Mirkin, responsável até então só por séries televisivas, e que reúne os talentos de Sigourney Weaver e Gene Hackman, e correndo por fora, Jennifer Love Hewitt, Ray Liotta e Jason Lee.

O filme que ficou em primeiro lugar nas bilheterias algumas boas semanas nos EUA chega ao Brasil discretamente, sem muito estardalhaço, o que a ajuda o espectador a não esperar muito da produção. E com isso, saem ganhando, certamente mais satisfeitos do que se Heartbreakers chegasse por aqui com amplo apoio de divulgação. Sigourney, que passou da série "Alien" para "Na Montanha dos Gorilas", com escala em "Os Caça-Fantasmas" e "Uma Secretária do Futuro", faz par com Gene Hackman, o veterano de filmes como "Operação França", "Mississipi em Chamas", "Superman". Os dois estão impagáveis, demonstrando elasticidade como atores e donos de uma interpretação nem contida, nem exagerada: na medida certa. A verdade é que os dois já são bons atores, mas foram mais ajudados ainda pelo texto bem escrito pelos três roteiristas do filme.

Sigourney é uma mulher magoada com a vida que resolve ensinar uma série de trapaças para a filha (Jennifer Love Hewitt, de "Eu Sei o Que Vocês Fizeram...") e aplicam o golpe do baú em velhos ricos, e a nova vítima delas é Mr. Tensy, um milionário decrépito que dá nojo só de olhar. Viciado em cigarro, tosse, pigarra, cospe e quase sucumbe, mas tem uma conta bancária que forçará a dupla a praticar o golpe. O plano é o seguinte: mamãe dá em cima do velho e consegue um casamento em algumas semanas. A filha vem trabalhar na casa do ricaço disfarçada de empregada e força um assédio sexual da parte dele. A mãe flagra os dois, pede divórcio, levando uma bolada - praticamente a metade dos dotes do pobre homem rico. Só que a estratégia que deu certo tantas vezes, dessa vez escorrega. Vários entraves surgem somados a uma história paralela com o personagem de Jennifer, que se apaixona por um dono de bar simples e cativante, interpretado por Jason Lee (catapultado recentemente com "Quase Famosos"), e com Ray Liotta, que entra em cena como uma antiga vítima lesada pela dupla picareta que ressurge perseguindo as duas. Na confusão, todos estão hilários.

É claro que no decorrer da história triunfa o bem, uma certa negação aos fatos amorais e um belo estímulo ao romance e ao final feliz com muito amor.

E um abuso proposital da imagem de Jennifer Love Hewitt, que encanta com vestidinhos decotados e coladinhos. Show de bola, mas até chegar no fim careta muita água rola, divertindo o espectador. E ainda por cima com uma bela trilha tropical que inclui mambos, ritmos caribenhos, latinos e alguma coisa de MPB, como Astrud Gilberto e Tom Jobim. Há uma cena do restaurante, onde Sigourney finge ser russa e é acuada por "conterrâneos", forçando-a a subir no palco e cantar uma bela canção tradicional de seu país. A senhorita Ulga - um dos nomes da trapaceira - investe num engraçadíssimo e impagável "Back to the URSS", dos Beatles. São coisas simples e despretensiosas, que somadas entre si e a um talento apropriado para o tamanho da produção, fazem de "Doce Trapaça" um belo filme e uma bela diversão. Sem picaretagem.
 
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