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Cena de Cinema
por Renato Martins

Outono em São Francisco
Romance entre Reeves e Theron cativa e até emociona sem pieguice


Melhor que passar o outono em Nova Iorque (como no filme homônimo de Joan Chen, com Richard Gere e Winona Ryder) ou em Chicago (nova coqueluche do cinema americano, como vimos em "Do que as Mulheres Gostam", com Mel Gibson), só mesmo São Francisco. Uma cidade grande com ares de interiorana, com tradições como o velho bonde subindo e descendo suas íngremes ruas e sobrados com janelões virados para praças lindamente arborizadas e com passarelas floridas. Neste clima romântico, Keanu Reeves e Charlize Theron, que já foram marido e mulher em "O Advogado do Diabo" - filme que é referência da atriz -, vivem um singelo caso de amor no filme "Doce Novembro". Partindo da premissa que os dois são avessos a relacionamentos duradouros, cada um com seu motivo (ela problemática, ele ocupado demais com o trabalho), o casal se propõe a "brincar" de namorados por pelo menos um mês, aquele do título. Claro que todos sabemos que eles irão se apaixonar, mas a história nos convence que, embora meio forçado, o relacionamento até vale a pena. E ao final de mais uma comédia romântica - enxurrada que não pára mais na indústria cinematográfica americana -, estamos tocados pelos momentos simpáticos do filme. A diretora Pat O'Connor (do ótimo "A Dança das Paixões", com Meryl Streep), acaba nos conquistando com sua história.

Some-se a isso o fato de que Charlize Theron está no melhor papel de sua curta carreira, interpretando a "louquinha" Sara Deever, que aliás é apresentada como uma mulher liberal e com muitos relacionamentos, coisa pouco comum em Hollywood. Ela se apaixona pelo yuppie Nelson, interpretando por Keanu, que aqui nada lembra seu Neo de tantos "Matrix" nem suas canastrices como "Johnny Mnemonic" ou o recente "O Observador". E mais: o roteiro - baseado num outro filme de mesmo nome de 1968, com Sandy Dennis e Anthony Newley no papel de casal - também mostra dois travestis num contexto bastante "Almodovariano", no papel de vizinhos de Sara, que mais uma vez contribui para a cara off-hollywood do filme. Alguns chavões, algumas coisas previsíveis, mas.... o amor não é mesmo previsível? Ah, e tem a adorável São Francisco como pano de fundo.


Açucarado Novembro
Reeves e Theron estrelam a milionésima comédia romântica americana

Claro, já vimos este filme antes. Charlize Theron e Keanu Reeves vivem uma história de amor já contada muitas vezes. Até mesmo esta, que foi escrita por Herman Raucher em 1968 para um filme de mesmo nome. E lá vem de novo o esquema "rapaz-que-não-está-nem-aí-encontra-moça-alegrinha-completamente-diferente-dele-mas-acabam-se-apaixonando". Os mundos dos dois são distantes, mas eles acabam se encontrando, e dão até a impressão ao espectador que transam rápido demais. Desculpem se eu sou muito puritano, mas realmente achei que aquela noite da chuva só ia ficar num namorico. Pelo menos esperava isso do roteiro. Ok, a direção de atores é ótima e Pat O'Connor fez um trabalho muito bom com Keanu Reeves, que passa de um publicitário ocupadíssimo a um desempregado apaixonado. E Charlize, engatinhando na arte da interpretação, está no seu melhor momento até agora como a destrambelhada Sara Deever.

Uma trilha e uma fotografia discretas não compensam a previsibilidade do roteiro que em muito se assemelha a "Outono em Nova Iorque" (de Joan Chen, com Richard Gere e Winona Ryder), a começar pelo novembro do título, quando também é outono na América. Neste caso estamos em São Francisco, mas não muda nada. Até mesmo os bons lances da história, se pensarmos melhor, estão contaminados pela ideologia moralista de Hollywood: a protagonista escolhe um namorado por mês - liberal, independente? Não. Ela só faz isso porque tem um problema muito sério. "Uma pessoa normal não faria isso" é mensagem do filme. Até mesmo os divertidos vizinhos gays de Sara, por mais "Almodovarianos" que sejam, contém uma mensagem subliminar. Eles são apresentados como a peça de humor do filme, tudo o que todas as associações GLS condenam: que os homossexuais só sirvam para isso, piada e estranheza. Nos divertimos? Sim. Ajuda a passar o tempo? Sim. Mas já vimos isso. Um milhão de vezes. Mas, ora, até o amor é repetitivo...


Conclusão

Fiz essa brincadeira porque este foi um dos filmes que mais se prestou a vê-lo com dois olhos, sob dois ângulos esquizofrênicos que puxavam análises com visões completamente opostas. Ao mesmo tempo que me entretia com a refilmagem de 68, lembrava a referência de diversas outras fitas. Admirei a interpretação do casal, mas me revoltei com a previsibilidade do roteiro, que tem seus momentos bons - mas justificáveis pela ótica americanista. Fui ao cinema como espectador leigo com sede de ver um bom romance com dois atores bonitos, de certo renome, e saí fazendo a fatídica análise como jornalista que sou. Tudo que não passou pelo crivo, ao mesmo tempo foi absorvido pela minha observação emocional. O filme realmente é bom e ruim ao mesmo tempo, mas quando escrevemos as críticas procuramos analisar a história com critérios científicos, como qualidade da produção, elenco, desenvolvimento do roteiro, criatividade do argumento e a direção para definir o bom e o ruim. Mas o resultado acima só prova que o ponto de vista depende muito de humor, predisposição, expectativa, cansaço, conforto da poltrona, o quentinho da pipoca, etc...
 
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