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Cena de Cinema
por Renato Martins

Alerta: Não é Central do Brasil, hein?
O novo filme de Walter Salles foi aclamado no Sundance e foi a Cannes, mas tem problemas de estilo


Walter Salles está de novo em alta. Depois do sucesso de um único filme, Central do Brasil, mas que simbolizou a retomada do cinema destruído pós-era Collor, ele praticamente fez a fama e deitou na cama, como diz o ditado. Colheu muito bem os louros do longa de 99, que chegou a ir ao Oscar daquele ano, com Fernanda Montenegro inclusive sendo indicada a melhor atriz, fato inédito para o cinema brazuca. Continuou trabalhando, mas silenciosamente, sem muito alarde. Fez boas coisas como O Primeiro Dia - nascido de um projeto internacional - e Abril Despedaçado - elogiadíssimo e exportado para o exterior. Além de seu cinema, Salles soube muito aproveitar as oportunidades que o "estrangeiro amigo" pode oferecer. Aconteceu mesmo quando o ator e criador do Festival do Cinema Independente de Sundance Robert Redford lhe estimulou para que filmasse os escritos de Che Guevara. Entusiasta do projeto, o experiente ator vislumbrou uma grande sacada e cantou a pedra para o cineasta brasileiro. E mandou que ele o trouxesse de volta para o Festival.

Não deu outra: Diários de Motocicleta foi aclamado no Festival de Sundance. Salles se consagrou mais uma vez, comendo na mão de mais um amigo americano. Não há nada de mal nisso: o cineasta fez a lição de casa direitinho, utilizando elenco peruano, argentino e chileno para filmar a travessia de Ernesto Guevara pela América Latina, em 1939, ao lado do amigo Alberto Granado. Os dois subiram em cima de uma antiga motocicleta e deixaram de ser garotos de classe média alta de Buenos Aires para se transformar em visionários de uma revolução que iria, mais tarde, tentar acabar com as desigualdades sociais nos países em que passaram. Tanto Guevara quanto Granado - ainda vivo hoje, vivendo em Cuba com 93 anos - registraram a viagem em livros que serviram para a equipe de Walter Salles transformar a história para as telas. Apuro técnico e um olhar de profissional sobre o tema completaram a receita do filme, que não podia dar em outra coisa, senão o sucesso.

O privilégio de embarcar junto com a dupla é tão intenso que a história praticamente se conta sozinha. Imagens memoráveis da América Latina pobre, seqüências bem-humoradas das trapalhadas de Granado, as cartas de Guevara para a família (principalmente para sua mãe) e elenco afiadíssimo - o mexicano Gael Garcia Bernal, de Amores Brutos, como Guevara, e o argentino Rodrigo de La Serna como Granado são escolhas acertadíssimas - ajudam a comprovar a experiência e o empenho do diretor. A fita é tecnicamente perfeita, com cores, luzes, fotografia e som excelentes. O conteúdo, contudo, é maior do que o resto, deixando estes aspectos em segundo plano. É aqui que começam os deslizes de Salles.

É no registro dos fatos que o filme parece não se decidir se é apresentando em tom ficcional ou é puramente documentário. Há momentos em que ele investe forte nesse segundo gênero, com o texto dramático praticamente saindo de cena. Até aí, tudo possível de ser compreendido, se essas passagens fossem suaves e menos aparentes. Mas falta uma certa decisão no estilo. Há também uma indefinição da linguagem do conteúdo: para um filme que começa bem-humorado e termina em tom bastante dramático, o roteiro de José Rivera dá pulos muito contrastantes durante a narrativa. Essa transição não está bem resolvida. Todas essas truncadas engrenagens podem ter levado Diários de Motocicleta ao seu maior problema: não há emoção na tela. É um tema que deixa a bola picando para este tipo de sentimento e infelizmente ele reluta em aparecer. Há um sentimento coletivo de querer deixar-se permear por essa emoção, seja ela de ex-revolucionários, amantes de Che, ou simplesmente adoradores do cinema ou da América Latina. Ou do cinema latino-americano. Mas a emoção não vem. Talvez em sua seqüência final o lado emotivo brote da película, mas mesmo assim com dificuldade, e ainda por cima vindo de uma sucessão de fatos atabalhoados que denotam uma certa pressa no roteiro em sua última parte.

Enfim, é bem possível que o porto-riquenho José Rivera tenha sido a salvação e a perdição de Salles. Os dois leram muitas biografias de Guevara, e o diretor acabou escolhendo o roteirista recém saindo do Festival de Sundance, que apresentou uma idéia mais humana do revolucionário para as telas. Mas foi este mesmo jovem que acabou expondo os maiores problemas do filme. Mesmo que houvesse mais brasileiros do elenco - Salles é um dos poucos -, a produção (que é inglesa) não teria maior ou menor capacidade de empatia com o público brasileiro, simplesmente o espectador recebe um resultado bem diferente de Central do Brasil, onde o apuro técnico é alto, mas a emoção está muito mais presente em cada fotograma.
 
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