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Cena de Cinema
por Renato Martins

Impossível Não Se Emocionar
Família Cassavetes produz simples e certeiro drama


Emoção é a regra básica de Diário de Uma Paixão (Notebook, EUA, 2004), que entrou em exibição discreta no circuito mas pega de jeito aqueles de coração mais mole. Se olharmos numa ótica estritamente técnica - e portanto fria -, identificamos os elementos básicos desse êxito: uma história de amor bem contada, pra começar. Bons atores, direção segura e competente, e na tela assistimos trechos simples e naturais retiradas da vida de qualquer um. Podia ter acontecido conosco. Mas há também um toque de magia e nostalgia, o que ajuda a segurar mais ainda a platéia. A equipe fez direitinho as lições de casa, pegou dois atores jovens pra preencher a tela quase todo o tempo (a história comum e real) e dois bons veteranos para interpretar a história mais mágica, costurando em apenas algumas partes do filme.

Nick Cassavetes, que já atuou em filmes como A Outra Face, colocou sua própria mãe, a veterana atriz Gena Rowlands, no papel de uma mulher desmemoriada, numa casa de repouso, sendo contaminada pela emoção de uma história de amor contada através de um antigo caderno. Quem lê, todos os dias, é o simpático senhor interpretado por James Garner, que tenta preencher as lacunas da velha senhora com muita nostalgia. À medida que a narração vai avançando, o espectador também anseia pelo desfecho da problemática.

A trama que está no caderno nos é encenada nos anos 40 através de dois jovens atores que estão muito à vontade. Simpáticos, naturais e charmosos, Ryan Gosling e Rachel McAdams contagiam a todos com o romance que começa à primeira vista entre a filha de um milionário e um humilde operário de uma fábrica. A paixão impossível de verão se transforma em verdadeira e intensa, mas é interrompida por imposições da família da moça e a chegada da Segunda Guerra. O rapaz vai lutar e, quando volta, tudo está mudado. Os dois se separam e caminham para destinos diferentes. De cortar o coração. Ela está prestes a casar, e o passado está ent, embora a paixão tenha sido mal resolvida.

Cassavetes trabalha bem com atores. Deixa-os à vontade. Dirigiu Denzel Washington em Um Ato de Coragem e já mostra neste Diário de uma Paixão um crescimento impressionante. Aprendeu com a mãe atriz, e o pai, John Cassavetes, outro excelente ator e diretor (dirigiu "Gloria", estrelando a esposa). Já a jovem dupla fez filmes pequenos (Gosling estrelou Cálculo Mortal e McAdams está em cartaz com Meninas Malvadas), mas não comprometem. Apesar de aparecerem a maior parte do tempo, não são os principais. Garner e Rowlands, meio desajeitados, protagonizam a emoção mais forte do filme. Com alguns percalços e exageros (como o choro de Garner, ao ver a companheira perder a memória), mas tudo perdoável, em nome do conjunto da obra. Completam o elenco Sam Shepard, que fez filmes como Falcão Negro em Perigo (estranhamente caricato demais) e Joan Allen, de A Conspiração (surpreendentemente ótima).

É uma fórmula certeira, sob a análise calculista. Por outro lado, se abrirmos o coração, podemos assistir a história que flerta constantemente com o piegas de forma muito desarmada, e aí sairemos do cinema mais leves. E acreditando no amor. Aqueles que amam vão chorar, vibrando com a existência do romance em suas vidas. Aqueles que estão sozinhos, vão chorar em busca de suas caras metades passadas ou futuras. Aqueles que dizem ser contra esse tipo de filme vão chorar bem no cantinho, escondidinhos, e tentarão enxugar as lágrimas e não serem vistos até o final dos créditos. Enfim, é bom vibrar com uma história simples, bem contada e que fala de amor de uma moda meio antiga, um pouco clássica, que lembra um estilo de filme que já não se faz mais. O último que lembro de ter assistido neste estilo foi Seabiscuit - Alma de Herói. É da mesma escola, embora os temas sejam completamente diferentes. Vale a pena deixar o preconceito e necessidade de genialidade em casa.
 
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