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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Entrando
Numa Fria
Roland Emmerich consegue piorar em seu novo filme-catástrofe
A possibilidade
de uma onda gigante destruir grandes cidades foi alertada
por cientistas em agosto de 2001, quando o litoral entre a
Flórida e o Brasil era um alvo certo. Os especialistas
também temeram naquele ano um deslizamento de terra
maciço, decorrente de uma grande erupção
vulcânica nas Ilhas Canárias, que formaria uma
gigantesca onda de até 100 metros de altura no Oceano
Atlântico. Essa mega-onda habita também os sonhos
de muita gente - o que é chamado de arquétipo
- e já foi retratada no cinema várias vezes,
como em Impacto
Profundo (1998).
O
Dia Depois de Amanhã utiliza este mecanismo ao
apresentar uma nova maldição sobre a humanidade
e suas grandes metrópoles. Tufões devastadores
modificam a aparência de Los Angeles, tempestades glaciais
tomam conta de toda a Europa e a tal onda encharca Nova York.
Para contar esta história foi escalado o diretor alemão
Roland Emmerich, que usou e abusou de efeitos digitais para
representar o pesadelo na tela. O problema é que os
produtores americanos acham que pra fazer filme catástrofe
não precisa caprichar nos diálogos. Por isso,
a dramaturgia de O
Dia Depois de Amanhã é nula. Entre os chavões,
escolheram o pior. Como Dennis Quaid, no papel do pai que
vai buscar o filho que ficou preso na nevasca "só porque
fiz uma promessa a ele". Quaid, que tenta ressurgir no cinema,
faz de tudo pra provar que é herói: se salva
de cair em uma geleira partida, vê seus colegas morrerem
e outros se matarem, caminha da Filadélfia até
Nova York sem cansar e garante o final feliz (ora, alguém
achava que podia ser diferente? Desculpe estragar a surpresa!).
Bem, vamos tentar aceitar o fato de que pra fazer filme-catástrofe
então não precisa diálogos consistentes.
Então precisa de....ação!!!!!!!!!!! Apesar
de assistirmos maravilhosos efeitos destruidores em cena,
a ação se consome rapidamente e o resto do filme
parece que só fica no olho do furacão. Falta
ritmo, falta história e falta ação -
matéria-prima básica desse gênero filme.
É realmente lamentável ver bons atores desperdiçados,
como Ian Holm, de filmes como O
Senhor dos Anéis e Do
Inferno, que aqui é reduzido a um cientista frustrado,
e o garoto Jake Gyllenhaal, jovem promessa revelada em Donnie
Darko e Vida
que Segue, que recebeu a difícil tarefa de ser
o filho problemático que vai acabar preso numa Nova
York soterrada de neve, obrigando seu progenitor a mover mundo
e fundos para salvá-lo. Repito: lamentável.
Li críticas da mídia americana que afirmam que
Emmerich fez um filme superior a seus outros dois embustes,
Independence
Day e Godzilla,
mas a verdade é que este é pior! Os outros filmes
pareciam mais bem-humorados, assumindo sua porção
"tragédia japonesa" no cinema. Este O
Dia Depois de Amanhã se leva a sério demais,
e não dá margem para que o espectador relaxe
e tente vê-lo de outra forma. Enfim, um filme que se
vende por muito mais do que realmente é. Sem contar
com os furos terríveis de roteiro, que coloca lobos
numa temperatura negativa onde todos os humanos congelam (por
que os animais não?); cria uma queda brusca de 10 graus
por segundo (???!!??) e um congelamento de paredes e portas
que não afeta o "mocinho". Enfim, eu sei que não
dá pra querer explicação, mas acontece
que se o filme não tem ação, não
tem drama, eu queria pelo menos um pouco de lógica!!!
Por fim, enganam-se aqueles defensores que vão erguer
a voz para salvar o filme e dizer que ele é um poderoso
alerta contra o que a humanidade está fazendo com o
meio ambiente. O diretor, segundo esta tese, estaria sendo
ousado e corajoso ao colocar os Estados Unidos numa posição
de criticado por ter não assinado o protocolo de Kyoto
e estar sintonizado com a correta política de preservar
o ambiente para não termos surpresas desagradáveis,
como ondas gigantes e tempestades congelantes, como resposta
da natureza. Infelizmente, o filme só cita isso no
início e ao seu final, arremata um discurso racista
e preconceituoso de valorização do terceiro
mundo (estes sim, grandes defensores ecológicos) e
fim de papo. Alguém pode acreditar que houve uma real
intenção de aprofundar essas questões
e querer chamar a atenção para essa discussão?
Ou será que o pensamento politicamente correto não
serviu apenas de ponto de partida para mais um filme-catástrofe?
Dessa vez, um muito ruim, por sinal. |
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