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Cena de Cinema
por Renato Martins

O Intocável Mamet
Discreto diretor e roteirista bota os podres de Hollywood para fora com garbo e elegância

Tem gente que só vai ao cinema se sair da sala como "algo mais". Precisam ter certeza que ganharam alguma coisa depois que assistiram o filme. Infelizmente, nem todas as obras cinematográficas são assim. Muitas não têm nada pra dar. E não quer dizer que sejam ruins: muitas delas não são exatamente sensacionais, nem sequer chegam a dar uma lição para os seus espectadores nem mesmo contêm aquela polpuda "mensagem". Mas também não são vazios como um filme de Van Damme ou Steven Seagal. No meio termo, se destacam essas fitas despretensiosas e talentosas, que divertem o espectador hora pela comédia, hora pela carga dramática. Assim é "Deu a Louca nos Astros", que revela os bastidores de uma filmagem hollywoodiana em uma pequena cidadezinha do interior americano.


O diretor e roteirista David Mamet, homem que tem a maestria de trabalhar um roteiro como ninguém, e que trabalhou na escrita de filmes como "Intocáveis" (87), "Ronin" (98) até "Hannibal" (2001), é o responsável por esta pequena obra. Contando uma história como poucos, com discrição, simpatia e talento, Mamet veio do teatro, e no cinema ousa dirigir eventualmente, como fez em "Jogo de Emoções" e "As Coisas Mudam", seus dois primeiros filmes. Quando falo em discrição, é isso mesmo que "Deu a Louca" parece ser: um filme discreto, sem estardalhaços, que se sobressai pela sua competência. Não é nem será um blockbuster, e provavelmente virará uma daquelas fitas de vídeo que ficam num canto da prateleira que ninguém sabe direito o que é e só vai alugá-la numa sexta à noite quando não houver lançamentos disponíveis na locadora. Pra variar, o infeliz título brasileiro tenta pegar carona na tumultuada comédia de "Deu a Louca no Mundo", de 1981, e que tem muito pouco a ver com este filme de Mamet. Naquele pastelão, vários comediantes estavam reunidos num elenco estelar, o que impulsionava a bilheteria para o filme. Em "Deu a Louca nos Astros", o elenco é recheado de nomes de segundo escalão, atores que raramente são protagonistas - mal e porcamente lembraremos seus nomes -, mas nem por isso são fracos. Aliás, todos são ótimos e estão melhores ainda dirigidos por Mamet.

É o caso de William Macy, que fez recentemente um hilário xerife gay em "Happy Texas" e aqui ele faz o papel do diretor do filme "O Velho Moinho", que ao chegar na cidade, já se depara com a primeira dificuldade: ali um velho moinho (que dispensaria os cenógrafo de construírem um) já tinha sido incendiado no passado. Já David Paymer, também é sempre um bom coadjuvante, vive um produtor, como sempre, preocupado com os gastos e os lucros das filmagens. Correndo por fora, Sarah Jessica Parker e Julia Stiles, atrizes emergentes de comedinhas românticas sem sal que dão um ar "woodyalleniano" ao elenco escolhido por Mamet. A única exceção entre esse time de coadjuvantes talvez seja o ex-senhor Kim Basinger, Alec Baldwin, mais magro e menos inchado, fazendo o papel que sempre sabe fazer: de um estrelão beberrão e mulherengo que causa transtornos para as filmagens. Aliás, transtornos são o eixo da história, pois a equipe de produção já tinha sido enxotada uma vez de uma cidade por causa de seu astro encrenqueiro. Além disso, os detalhes escabrosos de uma filmagem são revelados por Mamet com elegância, fazendo o espectador sorrir ironicamente, por exemplo, de um merchandising de uma empresa de computadores no filme que estão fazendo, quando o mesmo se passa em 1825.

A quebra de contrato da atriz (Parker) que não quer mostrar os seios; o roteirista em crise de criatividade (Phillip Seymour Hoffmann, brilhante como sempre); o diretor (Macy) usando psicologia com tudo e todos, com paciência de sobra, pois sabe que pode botar tudo a perder, o produtor (Paymer) que só pensa em dinheiro e usa-o até para livrar o filme de um caso nos tribunais, o prefeito puxa-saco (Charles Durning) e muitos outros elementos estão no "caldo" deste ótimo filme. Tudo isso e mais um pouco faz parte do dia-a-dia de Mamet, que certamente se inspirou e muito na cruel indústria cinematográfica para criar alguns momentos desse filme, que discretamente - como sempre - se chama originalmente "State and Main", a principal esquina da pacata cidade do interior do estado americano de Vermont, cujo semáforo é alvo da direção embriagada do personagem de Baldwin e que se torna um importante elemento na trama do filme.
 
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