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Dançando
com Björk
Uma boa maneira de começar a ver filmes
não-americanos
Quando o dinamarquês Lars von Trier criou o manifesto
Dogma 95, juntamente com o diretor Thomas Vinterberg, queria
declarar guerra ao cinemão norte-americano. Suas armas eram
a inteligência, a criatividade e o talento. Os cineastas queriam
provar que conteúdo pode substituir efeitos especiais, trilhas
sonoras e trucagens de cena. E que uma boa história não precisa
ter um super-orçamento. Um tanto radicais, realizaram filmes
como "Os Idiotas" e "Festa de Família",
que certamente vão ficar na lista dos melhores da história,
provando que tinham razão. As produções, cruas, sem música
e com seqüências quase sem cortes (ou com cortes bruscos)
filmadas com a câmera no ombro prendem o espectador por outro
motivo: o texto, o argumento, a interpretação e a formidável
sensibilidade dos diretores. Ao preparar sua mais nova obra,
"Dançando no Escuro", comentou-se que Trier
iria trair sua cartilha e fez um musical. Que homenageia
musicais. E de Hollywood!!!! Estaria ele louco?
Não, ele conseguiu fazer um ótimo filme, e todo ele dentro
dos padrões estabelecidos pelo manifesto.
Para
compor e cantar as músicas do filme, ele chamou a cantora
Björk. Quando o trabalho terminou, Trier exigiu
que ela atuasse. E sendo a protagonista. Brigas e discussões
depois, a artista, que teve poucas participações no cinema
(Pret-a-Porter, de Robert Altman é uma delas) aceitou. Se
não aceitasse, ele não ia aproveitar a trilha gravada por
ela. Mas não foi fácil. Björk mergulhou fundo na história
da mulher que está ficando cega e trabalha duro para juntar
dinheiro a fim de fazer uma operação que vai evitar que
seu filho de 13 anos também fique cego. Nas cenas intensas,
a cantora chegou a deixar o set em lágrimas, demorando a se
recompor e recomeçar a filmar. Catherine Deneuve,
que também está no elenco, serviu de consoladora tanto na
história quando na vida real, nos embates com o rígido diretor.
Trier foi duro com seus comandados, mas conseguiu
uma bela atuação da jovem, e de quebra fez o melhor filme
em cartaz atualmente. Ah! E ganhou a Palma de Ouro em Cannes
no ano passado - diga-se de passagem o prêmio de conteúdo
mais importante do cinema, já que o Oscar é um prêmio da indústria
-, e Björk levou a Palma de Ouro de melhor
atriz.
O
filme é uma salada étnica: a história conta a vida da imigrante
checa que vai para os Estados Unidos nos anos 50. Essa imigrante
é interpretada por Björk, que é islandesa.
Deneuve é francesa e boa parte do elenco
é de origem americana, como David Morse e
Peter Stormare. Trier é dinamarquês
mas a produção também tem recursos da Suíça, Inglaterra, Holanda,
Alemanha e Noruega. E os musicais homenageados são de Hollywood.
Sim, pois entre amarguras e sofrimentos, a abnegada funcionária
de uma fábrica esconde sua dor na fantasia dos musicais em
preto e branco, passando a criar na sua imaginação seus próprios espetáculos.
Por isso, nos momentos mais sombrios do filme, a personagem
de Björk, Selma, transforma o ambiente pálido
num cenário colorido para os espectadores. E isso que ela
está ficando cega. O diretor não apenas mostra cenas de Hollywood
na tela de um velho cinema onde as duas amigas (Deneuve
e Björk) se divertem como também se inspira em "Sete
Noivas para Sete Irmãos" no musical do trem. "Noviça
Rebelde" também está lá, durante a aula de teatro que
Selma freqüenta. Inusitado e até incompreensível, mas lindo.
Para
um filme que não deveria ter músicas, a seqüência inicial
já é um espanto. Cinco ou seis minutos de tela escura só com
uma peça musical, obriga o cinéfilo a prestar a atenção
na música, como se fosse Selma em sua cegueira. E todos os
musicais são costurados por cenas intensas, com diálogos filmados
com uma câmera nervosa (Trier também inova ao utilizar
a filmagem digital, reduzindo também os custos) e sem nenhuma
trilha sonora - como manda o Dogma. Ao contrário, o áudio
é realçado, e ouvimos com clareza os passos, o mastigar, o
esfregar de mãos. O menor sentimento é captado através da
exacerbação de som e imagem obtidos pelo filme. E essa crueza
contrastada com as peças musicais extremamente modernas, com
canções excepcionalmente bem interpretadas pela protagonista,
"Dançando no Escuro" não trai o seu manifesto dinamarquês
e dá um tapa de luva na indústria norte-americana ao mesmo
tempo em que bebe de sua melhor fonte: as grandes produções
musicais. Ao mesmo tempo que usa Hollywood como "modelo"
de inspiração para uma imigrante recém-chegada, a história
de Trier critica o capitalismo selvagem, seja na busca
incessante de Selma pelo dinheiro da cirurgia, seja na clínica
chique que exige o pagamento ou no caso do advogado que não
vai atender de jeito nenhum se não receber honorários ou ainda
com o policial que entra em crise por não ter mais dinheiro
para sustentar o luxo exigido pela esposa. Também traz à tona
a caça às bruxas dos anos 50, quando imperava o macartismo
na terra dos ianques. Por tudo isso, o filme vencedor de Cannes
não só impacta a platéia, encanta com seus musicais alternativos
ou emociona com as cenas trágicas. Ele faz pensar, coisa que
um em cada cem filmes norte-americanos fazem. E se por acaso
quisermos experimentar outras cinematografias, o filme de
Lars Von Trier é uma ótima opção.
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