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Suspense
em Primeiro Grau
O
novo filme de Morgan Freeman, mesmo com falhas, funciona
Ashley
Judd, no esplendor dos seus 33 anos, está mais
segura e bela do que nunca no papel de uma advogada durona
que tem o seu marido acusado injustamente por um crime que
não cometeu no passado. Com a denúncia, ela
descobre uma infeliz verdade: que o marido não era
exatamente quem dizia que era, até mesmo o nome era
outro. Sim, ele esteve na linha frente de uma operação
militar dos EUA em El Salvador no final dos anos 90. Mas ele
jura que não é autor da morte de nove inocentes.
O exército americano garante que ele é o culpado.
Jim Caviezel, no papel do pobre homem acusado, está
muito pior do que no filme da sala ao lado, O Conde de
Monte Cristo. Chora demais, expondo suas bolitas azuis
oculares quando chora copiosamente em diversas cenas. Mas,
para provar seu amor, ele vai até mesmo para o detector
de mentiras para provar sua inocência. Ah, e chora.
Chora muito.
Morgan
Freeman só aparece depois dos 30 primeiros minutos
do filme, mas dá um show, como um velho advogado decadente
que está tentando largar a bebida. Ele tem rancores
com a corte militar e conhece-os a fundo, trazendo elementos
surpresas para o julgamento que se desenrola durante o filme.
As aparições do advogado Grimes (curiosamente
semelhante a Crimes, que está título original
e em português) não são muitas, mas são
rápidas e eficientes. Ele nem surge muito no tribunal
e cada vez que aparece nem é tão fantástico
assim, como aqueles personagens que dão tacadas maravilhosas
que deixam os espectadores - e o júri - embasbacado.
Mas é óbvio que ele dá alguns lances
certeiros.
O filme
ganha com a presença de dois coadjuvantes singulares,
que cumprem a tradicional parte engraçada da história,
funcionando como uma espécie de elemento de quebra
de tensão - já que o filme conduz o espectador
com uma linha contínua de suspense. O tenente designado
como advogado do ex-soldado é uma peça já
pelo seu semblante. O ator Adam Scott (ainda muito
desconhecido, fez Hellraiser e Star Trek em
96), arrancando risos a todos os instantes, se junta com a
bela Amanda Peet (de Meu Vizinho Mafioso) para
fazer um par bastante cômico. Ou melhor, cômico
na medida certa.
Há,
claro, coisas que incomodam. O exagero com que a nossa heroína
é perseguida e sofre atentados - Ashley aparece
mais de cara roxa do que de cara limpa durante a fita - e
a tal "virada" no epílogo soam falsos e machucam
um pouco a imagem de um bom filme de suspense e de tribunal,
que remexe em valores jurídicos, militares e americanos.
Para uma produção que se apresenta desde o início
como provocadora, instigante e até mesmo crítica,
escorrega nestes dois pontos e quase compromete seu todo.
Mas ao somar os aspectos positivos (e logo abaixo, no parágrafo
seguinte, vêm mais deles), o filme baseado no livro
do estreante Joseph Finder sai ganhando. Não
é uma obra-prima, mas me pareceu menos previsível
do que outros filmes de Freeman, como Na Teia da
Aranha, por exemplo. Mas fica abaixo do clima de mistério
e da engenharia de roteiro de outros, como Beijos que Matam
(onde pela primeira vez a dupla Freeman e Judd
surgem na tela) e o recente Sob Suspeita (onde o ator
duela na interpretação com Gene Hackman
e a estonteante Monica Belucci corre por fora).
Mas o diretor
Carl Franklin (de O Diabo Veste Azul e Águia
de Aço 2) é esmerado em relação
ao cuidado estético. Movimentos de câmera estonteantes
e de deixar muito assistente de direção boquiaberto,
logo no início do filme, dão um belo cartão
de visita. O acompanhamento do carro da advogada Claire
na lateral da Golden Gate e a chegada da personagem no escritório,
quando a câmera gira e dança em volta da atriz,
é realmente meticuloso e bem estudado. Uma fotografia
diferenciada, envelhecida e propositadamente saturada mostra
as cenas da história já passada, para distinguir
da trama presente. E as belas imagens de São Francisco
que pontuam o filme só confirmam essa atenção
que o diretor dá e espalha com talento como molho por
toda a extensão da película.
Bem, o
fato é que Morgan Freeman mais uma vez encontra
as respostas. Ele declarou, ao vir ao Brasil, que gosta de
fazer esses papéis de "resolvedores" de problemas:
detetives, policiais, advogados. Assim foi com o personagem
Alex Cross, que esteve em dois de seus filmes. Aliás,
o ator de Um Sonho de Liberdade e Amistad estrelou,
no meio de tantos suspenses policiais, o ótimo A
Enfermeira Betty, que passou rápido pelos cinemas
do eixo Rio-São Paulo e no sul do Brasil nem chegou
às telas. O irônico filme está chegando
agora às locadoras em vídeo e DVD, uma ótima
oportunidade para conferir uma outra faceta dele: Freeman
interpreta um assassino. Diferente? Um outro extremo? Não.
Um assassino não deixa de ser um "resolvedor de
problemas"... |