A
Máfia da Igreja
Banderas quase perde a fé
em "O Corpo"
O mote é muito bom, a ambientação
nem tanto. A história de uma arqueóloga (Olivia
Williams, de "O Sexto Sentido") que encontra em
nossos dias um esqueleto que poderia ser de Jesus Cristo,
colocando totalmente em xeque o princípio do cristianismo
- a ressurreição do filho de Deus - é,
no mínimo, um tema inédito explorado pelo cinema.
O perigo que a comprovação científica
do fato traz para os religiosos, principalmente para a igreja
católica, é o ponto de partida da trama de "O
Corpo", mais recente filme do astro Antonio Banderas.
Ele vive um padre a serviço do Vaticano enviado especialmente
a Jerusalém para acompanhar o caso. Com passagens pela
inteligência militar, pós-graduação
e doutorado, o homem vivido por Banderas tem a missão
de esclarecer o assunto - e dar um jeito se o filho do homem
realmente não tiver ressuscitado. Aí é
que entram elementos já vistos no cinema, como recentemente
pudemos observar em "Stigmata", onde por exemplo
o mesmo Vaticano enviava Gabriel Byrne para "resolver"
probleminhas com o exorcismo. Viajando um pouco mais no tempo,
também a terceira parte de "O Poderoso Chefão"
mostrava as relações pouco religiosas da igreja
com a máfia italiana.
Mas
a história do padre que é usado como marionete
pela poderosa cúpula do clero romano repete-se também
em nove entre filmes de vampiros ou possessões, e as
tentativas de enfraquecer a imagem da igreja - ou simplesmente
questionar sua onipotência - é válida,
mas parece sempre dar com burros n'água. Até
no divertido "Dogma", onde Kevin Smith pretendeu
bagunçar com o coreto dos homens de batina, se defende
a fé como sentimento maior, acima da igreja feita pelas
pessoas. "O Corpo", filme de estréia do roteirista
Jonas McCord, também se vale dessa afirmação.
Mostra o personagem de Banderas confuso com os dogmas tradicionais
impostos em toda a sua vida, que podem ruir a qualquer momento,
ao mesmo tempo em que ele descobre que está ruindo
(para ele) é a instituição a que sempre
pertenceu. Enfim, a impressão que fica é que
todos esses filmes acabam na mesma vala, criticando a igreja
(dos homens) e glorificando a Igreja (de Deus). Certo ou ,
é uma fórmula previsível e que não
acrescenta nenhuma reflexão para religiosos nem atrai
os não-religiosos.
Mas
o senhor McCord se sai bem como diretor, pontuando o filme
com belíssimas imagens de Jerusalém - uma cidade
politicamente dificilmente de se filmar, certamente, e isso
é apresentado na tela -, alternando cenas intimistas
com outras de ação. O seu próprio roteiro
é que não ajuda muito, que num dado momento
começa a patinar, fazendo com que o padreco - descendente
de espanhóis, claro - fique desnorteado em cena. Aliás,
o galã parece um mero novato, atestando a tese de que
ele só se sai bem mesmo quando é dirigido por
seu descobridor, o diretor Pedro Almodovar. E tudo
piora quando o enredo ainda inclui uma sutil atração
entre o rapaz religioso e a arqueólogo atéia,
como se seus corpos empoeirados das escavações
fossem algo irresistível, fazendo tremer as convicções
de um emissário do sumo pontífice e da profissional
certa de suas incredulidades. Balela! A cena era dispensável.
Um certa queda de qualidade, já que McCord já
tinha escrito o roteiro de "Malícia", excelente
história com Nicole Kidman e Alec Baldwin
em 1993.
Emboscadas,
tiroteios e perseguições à parte, é
também inevitável presença de um "vilão"
na história, aqui representando por um líder
de guerrilheiros que não quer a interferência
ocidental em Israel. Mesmo assim, o melhor de "O Corpo"
fica com o final, surpreendemente bem resolvido, já
que o mistério da ossada é realmente um quebra-cabeça
para os devotos. Nesse ponto, o filme fecha seu círculo
de início, meio e fim com um mínimo de categoria,
ainda que não o suficiente pra classificar a obra como
"imperdível" ou coisa parecida, já
que tem um nome como Banderas no elenco. De qualquer maneira,
a obra que se propõe a ser reflexiva, torna-se pertencente
ao gênero da aventura, passa rapidamente pelo romance
e não deixa de ter toques de comédia. Uma saladinha
de frutas passável para o marinheiro de primeira viagem
que é Jonas McCord. E certamente, um devoto de muita
fé. Amém.
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